Arquivo de junho de 2007

S.O.S

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Este é um pequeno pedido de ajuda. É coisa “simples” e torço para que alguém possa me ajudar. Eu faço aulas de teatro e este ano a minha cidade está comemorando 180 anos…Vamos fazer uma peça que contará a história da mesma desde os dias atuais e o texto será impresso em folders e distribuídos para a platéia, etc. Vamos fazer apresentações para escolas e toda aquela coisa. Eu me comprometi a digitar a peça que foi sendo escrita por todas durante o ensaio e até mesmo disse que iria formatar da forma como são os diálogos de “Finnegans Wake” do James Joyce…Acontece que eu não sei formatar daquela forma.

Aqui está a página modelo , clique para vê-la (quase rasguei um volume do livro para escanear).

Quem saber formatar desta forma, por favor, ficaria grato se me enviasse instruções para a Glândula Pineal.

Esta formatação segue esse exemplo:

Nome. – Fala da personagem
que siga esta formatação.

Manualmente dá para fazer…Só queria saber se dá para ser feito de outra forma.

PS: Eu interpretarei um desses velhinhos que ficam na praça principal jogando xadrez.

PS2: Notem como é delicioso ler Joyce.

[tags]S.O.S, ajuda técnica, formatação, peça[/tags]

Teoria maravilhosa, espécie errada

quinta-feira, 28 de junho de 2007

A frase que dá título a esta postagem é do maior especialista de formigas a respeito do socialismo e toda sua prole. Vou publicar abaixo um trecho longo de “Quem é John Galt?” ou “Atlas Shrugged” livro de ficção científica de 1957 que lida com muitos conceitos filosóficos, tanto que a escritora Ayn Rand após concluir esta obra dedicou-se exclusivamente a formular sua própria escola de pensamento conhecida como Objetivismo. A tradução brasileira veio ao mundo em 1987, um ano após o meu nascimento. Não achei em nenhum lugar onde comprar um volume para mim, sorte ter na biblioteca de minha cidade. Com certeza até o final de 2008 sairá uma nova versão. Como eu sei disso? Vão fazer uma versão cinematográfica do livro com Angelina Jolie no papel. Estas adaptações sempre são bem vindas pois estimulam o lançamento dos livros que deram origem.

Abaixo trecho que mostra de Atlas Shrugged que fala sobre uma tentativa fracassada de gerir uma empresa sob idéias igualitárias:

“Bem, foi uma coisa que aconteceu na fábrica onde eu trabalhei durante vinte anos. Foi quando o velho morreu e os herdeiros tomaram conta. Eles eram três, dois filhos e uma filha, e inventaram um novo plano para administrar a fábrica. Deixaram a gente votar, também, para aceitar ou não o plano, e todo mundo, quase todo mundo, votou a favor. A gente não sabia, pensava que fosse bom. Não, também não é bem isso, não. A gente pensavam que queriam que a gente achasse que era bom. O plano era o seguinte: cada um trabalhava conforme sua capacidade, e recebia conforme sua necessidade. . . .

Aprovamos o tal plano numa grande assembléia: nós éramos seis mil, todo mundo que trabalhava na fábrica. Os herdeiros do velho Starnes fizeram uns discursos compridos, e ninguém entendeu muito bem, mas ninguém fez nenhuma pergunta. Ninguém sabia como plano ia funcionar, mas cada um achava que o outro sabia. E quem tinha dúvida se sentia culpado e não dizia nada, porque do jeito como os herdeiros falavam, quem fosse contra era desumano e assassino de criancinha. Disseram que esse plano ia concretizar um nobre ideal. Como é que a gente podia saber? Não era isso que a gente ouvia a vida inteira dos pais, professores e pastores, em todos os jornais, filmes e discursos políticos? Não diziam sempre que isso é que era certo e justo? Bem, pode ser que a gente tenha alguma desculpa para o que fez naquela assembléia. O fato é que votamos a favor do plano, e o que aconteceu conosco depois foi merecido.

A senhora sabe, nós que trabalhamos lá na Século Vinte durante aqueles quatro anos, somos homens marcados. O que é que dizem que o inferno é? O mal, o mal puro, nu, absoluto, não é? Pois foi isso que a gente viu e ajudou a fazer, e acho que todos nós estamos malditos, e talvez nunca mais vamos ter perdão. . .

A senhora quer saber como funcionou o tal plano, e o que aconteceu com as pessoas? É como derramar água dentro de um tanque onde tem um cano no fundo puxando mais água do que entra, e cada balde que a senhora derrama lá dentro o cano alarga mais um bocado, e quanto mais a senhor trabalha, mais exigem da senhora, e no final a senhora está despejando balde quarenta horas por semana, depois quarenta e oito, depois cinqüenta e seis, para o jantar do vizinho, para a operação da mulher dele, para o sarampo do filho dele, para a cadeira de rodas da mãe dele, para a camisa do tio dele, para a escola do sobrinho dele, para o bebê do vizinho, para o bebê que ainda vai nascer, para todo mundo à sua volta, tudo é para eles, desde as fraldas até as dentaduras, e só o trabalho é seu, trabalhar da hora em que o sol nasce até escurecer, mês após mês, ano após ano, ganhando só suor, o prazer só deles, durante toda a sua vida, sem descansar, sem esperança, sem fim. . . .

De cada um, conforme sua capacidade, para cada um, conforme sua necessidade. . . .

Nós somos uma grande família, todo mundo, é o que nos diziam, estamos todos no mesmo barco. Mas não é todo mundo que passa dez horas com um maçarico na mão, nem todo mundo que fica com dor de barriga ao mesmo tempo. Capacidade de quem? Necessidade de quem, quem tem prioridade? Quando é tudo uma coisa só, ninguém pode dizer quais são as suas necessidades, não é? Senão qualquer um pode dizer que necessita de um iate, e se só o que conta são os sentimentos dele, ele acaba até provando que tem razão. Por que não? Se eu só tenho o direito de ter carro depois que eu trabalhei tanto que fui parar no hospital, depois de garantir um carro para todo vagabundo e todo selvagem nu do mundo, por que ele não pode exigir de mim um iate também, se eu ainda tenho capacidade de trabalhar? Não pode? Então ele não pode exigir que eu tome meu café sem leite até ele conseguir pintar a sala de visitas dele? . . .

Pois é. . . . Mas aí decidiram que ninguém tinha direito de julgar suas próprias capacidades e necessidades. Tudo era resolvido na base da votação. Sim, senhora, tudo era votado em assembléia duas vezes por ano. Não tinha outro jeito, não é? E a senhora imagina o que acontecia nessas assembléias? Bastou a primeira para a gente descobrir que todo mundo tinha virado mendigo – mendigos, esfarrapados, humilhados, todos nós, porque nenhum homem podia dizer que fazia jus a seu salário, não tinha direitos nem fazia jus a nada, não era dono de seu trabalho, o trabalho pertencia à ‘família’, e ele não lhe devia nada em troca, a única coisa que cada um tinha era a sua ‘necessidade’, e aí tinha que pedir em público que atendessem às suas necessidades, como qualquer parasita, enumerando todos os seus problemas, até os remendos na calça e os resfriados da esposa, na esperança de que a ‘família’ lhe jogasse uma esmola. O jeito era chorar miséria, porque era a sua miséria, e não o seu trabalho, que agora era a moeda corrente de lá.

Assim, a coisa virou um concurso de misérias disputado por seis mil pedintes, cada um chorando mais miséria que o outro. Não tinha outro jeito, não é? A senhora imagina o que aconteceu, que tipo de homem ficava calado, com vergonha, e que tipo de homem levava a melhor?

Mas tem mais. Mais uma coisa que a gente descobriu na mesma assembléia. A produção da fábrica tinha caído quarenta por cento naquele primeiro semestre, e aí concluiu-se que alguém não tinha usado toda a sua ‘capacidade’. Quem? Como descobrir? A ‘família’ decidia isso no voto, também. Escolhiam no voto quais eram os melhores trabalhadores, e esses eram condenados a trabalhar mais, fazer hora extra todas as noites durante os próximos seis meses. E sem ganhar nada mais, porque a gente ganhava não por tempo nem por trabalho, e sim conforme a necessidade.

Será necessário explicar o que aconteceu depois disso? Explicar que tipo de criaturas nós fomos virando, nós que antes éramos seres humanos? Começamos a esconder toda a nossa capacidade, trabalhar mais devagar, ficar de olho para ter certeza de que a gente não trabalhava mais depressa nem melhor do que o colega ao nosso lado. Tinha que ser assim, pois a gente sabia que quem desse o melhor de si para a ‘família’ não ganhava elogio nem recompensa, mas castigo. Sabíamos que para cada imbecil que estragasse um motor e desse um prejuízo para a fábrica – ou por desleixo, porque ele não tinha nenhum motivo para caprichar, ou por pura incompetência – quem ia ter que pagar era a gente, trabalhando de noite e no domingo. Assim, a gente se esforçava o máximo para ser o pior possível.

Havia um garoto que começou todo empolgado com o nobre ideal, um garoto muito vivo, sem instrução, mas um crânio. No primeiro ano ele inventou um processo que economizava milhares de homens-hora. Deu de mão beijada a descoberta dele para a ‘família’, não pediu nada em troca, nem podia, mas não se incomodava com isso. Era tudo pelo ideal, dizia ele. Mas quando foi eleito um dos mais capazes e condenado a trabalhar de noite, ele fechou a boca e o cérebro. No ano seguinte, é claro, não teve nenhuma idéia brilhante.

A vida inteira nos ensinaram que os lucros e a competição tinham um efeito nefasto, que era terrível um competir com o outro para ver quem era melhor, não é? Nefasto? Pois deviam ver o que acontecia quando um competia com o outro para ver quem era o pior.

Não há maneira melhor de destruir um homem do que obrigá-lo a tentar NÃO fazer o melhor de que é capaz, a se esforçar por fazer o pior possível, dia após dia. Isso mata mais depressa do que a bebida, a vadiagem, a vida de crime. Mas para nós a única saída era fingir incompetência. A única acusação que temíamos era a de que tínhamos capacidade. A capacidade era como uma hipoteca que não se termina de pagar.

E trabalhar para quê? A gente sabia que o mínimo para a sobrevivência era dado a todo mundo, quer trabalhasse quer não, a chamada ‘ajuda de custo para moradia e alimentação’, e mais do que isso não se tinha como ganhar, por mais que se esforçasse. Não se podia ter certeza de que seria possível comprar uma muda de roupas no ano seguinte – a senhora podia ou não ganhar uma ‘ajuda de custo para vestimentas’, dependendo de quantas pessoas quebrassem a perna, precisassem ser operadas, ou tivessem mais filhos. E se não havia dinheiro para todo mundo comprar roupas, então a senhora também ficava sem roupa nova.

Havia um homem que tinha passado a vida toda trabalhando até não poder mais, porque queria que seu filho fizesse faculdade. Pois bem, o garoto terminou o secundário no segundo ano de vigência do plano, mas a ‘família’ não quis dar ao homem uma ‘ajuda de custo’ para pagar a faculdade do filho. Disseram que o filho só ia poder entrar para a faculdade quando houvesse dinheiro para os filhos de todos entrarem para a faculdade – e, para isso, era preciso primeiro pagar a escola secundária dos filhos de todos, e não havia dinheiro nem para isso. O homem morreu no ano seguinte, numa briga de faca num bar, uma briga sem motivo; brigas desse tipo estavam se tornando cada vez mais comum entre nós.

Havia um sujeito mais velho, um viúvo sem família, que tinha um hobby: colecionar discos. Acho que era a única coisa de que ele gostava na vida. Antigamente, ele costumava ficar sem almoçar para ter dinheiro para comprar mais um disco clássico. Pois não lhe deram nenhuma ‘ajuda de custo’ para comprar discos – disseram que aquilo era ‘luxo pessoal’. Mas, naquela mesma assembléia, votaram a favor de dar para uma tal de Millie Bush, filha de alguém, uma garotinha de oito anos, feia e má, um aparelho de ouro para corrigir seus dentes – isto era uma ‘necessidade médica’, porque o psicólogo da empresa disse que a coitadinha ia ficar com complexo de inferioridade se seus dentes não fossem endireitados. O velho que gostava de música passou a beber. Chegou a um ponto em que nunca mais era visto sóbrio. Mas parece que uma coisa ele nunca esqueceu. Uma noite, ele vinha cambaleando pela rua quando viu a tal da Millie Bush: deu-lhe um soco que lhe quebrou todos os dentes. Todos.

A bebida, naturalmente, era a solução para a qual todos nós apelávamos, uns mais, outros menos. Não me pergunte onde é que achávamos dinheiro para isso. Quando todos os prazeres decentes são proibidos, sempre se dá um jeito de gozar os prazeres que não prestam. Ninguém arromba mercearias à noite nem rouba o colega para comprar discos clássicos nem caniços de pesca, mas se é para tomar um porre e esquecer, faz-se de tudo. Caniços de pesca? Armas para caçar? Máquinas fotográficas? Hobbies? Não havia ‘ajuda de custo de entretenimento’ para ninguém. O ‘entretenimento’ foi a primeira coisa que eles cortaram. Pois a gente não deve ter vergonha de reclamar quando alguém pede para abrirmos mão de uma coisa que nos dá prazer? Até mesmo a nossa ‘ajuda de custo de fumo’ foi racionada a ponto de só recebermos dois maços de cigarro por mês – e isso, diziam eles, porque o dinheiro estava indo para o fundo do leite dos bebês.

Os bebês eram o único produto que havia em quantidades cada vez maiores — porque as pessoas não tinham outra coisa para fazer, imagino, e porque não tinham que se preocupar com os gastos da criação dos bebês, já que eram uma responsabilidade da ‘família’. Aliás, a melhor maneira de conseguir um aumento e poder ficar mais folgado por uns tempos era ganhar uma ‘ajuda de custo para bebês’ — ou isso ou arranjar uma doença séria.

Não demorou muito para a gente entender como a coisa funcionava. Todo aquele que resolvia fazer tudo certinho tinha que se abster de tudo. Tinha que perder toda a vontade de gozar qualquer prazer, não gostar de fumar um cigarro nem mascar um chiclete, porque alguém podia ter uma necessidade maior do dinheiro gasto naquele cigarro ou chiclete. Sentia vergonha cada vez que engolia uma garfada de comida, pensando em quem tinha tido que trabalhar de noite para pagar aquela garfada, sabendo que a comida que comia não era sua por direito, sentindo a vontade infame de ser trapaceado ao invés de trapacear, ser um pato e não um sanguessuga. Não podia ajudar os pais, para não colocar um fardo mais pesado sobre os ombros da ‘família’. Além disso, se ele tivesse um mínimo de senso de responsabilidade, não podia nem casar nem ter filhos, pois não podia planejar nada, prometer nada, contar com nada.

Mas os indolentes e irresponsáveis se deram bem. Arranjaram filhos, seduziram moças, trouxeram todos os parentes imprestáveis que tinham, todas as irmãs solteiras grávidas, para receber uma ‘ajuda de custo de doença’, inventaram todas as doenças possíveis, sem que os médicos pudessem provar a fraude, estragaram suas roupas, seus móveis, suas casas – pois não era a ‘família’ que estava pagando? Descobriram muito mais ‘necessidades’ do que os outros – desenvolveram um talento especial para isso, a única capacidade que demonstraram.

Deus me livre! A senhora entende? Compreendemos que nos tinham dado uma lei, uma lei MORAL, segundo eles, que punia aqueles que a observavam — pelo fato de a observarem. Quanto mais a senhora tentava seguir essa lei, mais a senhora sofria; quanto mais a senhora a violava, mais lucrava. A sua honestidade era como um instrumento nas mãos da desonestidade do próximo. Os honestos pagavam, e os desonestos lucravam. Os honestos perdiam, os desonestos, ganhavam. Com esse tipo de padrão do que é certo e errado, por quanto tempo os homens poderiam permanecer honestos? No começo éramos pessoas bem honestas, e só havia uns poucos aproveitadores. Éramos competentes, orgulhávamo-nos do nosso trabalho, e éramos empregados da melhor fábrica do país, para a qual o velho Starnes só contratava a nata dos trabalhadores. Um ano depois da implantação do plano não havia mais um homem honesto entre nós. Era ISSO o mal, o horror infernal que os pregadores usavam para assustar os fiéis, mas que a gente nunca imaginava ver em vida.

A questão não foi que o plano estimulasse uns poucos corruptos, e sim que ele corrompia pessoas honestas, e o efeito não podia ser outro – e era isso que chamavam de idéia moral!

Queriam que trabalhássemos em nome de quê? Do amor pelos nossos irmãos? Que irmãos? Os parasitas, os sanguessugas que víamos ao redor? E se eles eram desonestos ou se eram incompetentes, se não tinham vontade ou não tinham capacidade de trabalhar – que diferença fazia para nós? Se estávamos presos para o resto da vida àquele nível de incompetência, fosse verdadeiro ou fingido, por quanto tempo nos daríamos o trabalho de seguir em frente? Não tínhamos como saber qual era a verdadeira capacidade deles, não tínhamos como controlar suas necessidades – só sabíamos que éramos burros de carga lutando às cegas num lugar que era meio hospital, meio curral – um lugar onde só incentivavam a incompetência, as catástrofes, as doenças – burros de carga que só serviam às necessidades que os outros afirmavam ter.

Amor fraternal? Foi aí que aprendemos, pela primeira vez na vida, a odiar nossos irmãos. Começamos a odiá-los por cada refeição que faziam, cada pequeno prazer que gozavam, a camisa nova de um, o chapéu da esposa do outro, o passeio que um dava com a família, a reforma que o outro fazia na sua casa – tudo aquilo era tirado de nós, era pago pelas nossas privações, nossa renúncias, nossa fome.

Um começou a espionar o outro, cada um tentando flagrar o outro em alguma mentira sobre as suas necessidades, para cortar sua ‘ajuda de custo’ na próxima assembléia. começaram a surgir delatores, que descobriam que alguém tinha comprado clandestinamente um peru para a família num domingo qualquer, provavelmente com o dinheiro que ganhara no jogo. Começamos a nos meter um na vida do outro. Provocávamos brigas de família, para conseguir que os parentes de alguns saíssem da lista de beneficiados. Toda vez que víamos algum homem começando namorar uma moça, tornávamos a vida dele um inferno. Fizemos muitos noivados se romperem. Não queríamos que ninguém se casasse: não queríamos mais dependentes para alimentar.

Antigamente, comemorávamos quando alguém tinha filho, todo mundo contribuía para ajudar a pagar a conta do hospital, quando os pais estavam sem dinheiro no momento. Agora, quando nascia uma criança, ficávamos sem falar com os pais. Para nós, os bebês eram agora o que os gafanhotos são para os fazendeiros.

Antigamente, ajudávamos quem tinha um doente na família. Agora . . . Vou contar só um caso para a senhora. Era a mãe de um homem que estava trabalhando conosco há quinze anos. Era uma senhora simpática, alegre e sábia, conhecia todos nós pelo primeiro nome, todos nós gostávamos dela, antes. Um dia ela escorregou na escada do porão, caiu e quebrou a bacia. Nós sabíamos o que isso representava para uma pessoa daquela idade. O médico disse que ela teria que ser hospitalizada, para fazer um tratamento caro e demorado. A velha morreu na véspera do dia em que ia ser removida para o hospital. Ninguém nunca explicou a causa da morte dela. Não, não sei se foi assassinada. Ninguém disse isso. Ninguém comentava nada sobre o assunto. A única coisa que eu sei – e disso nunca vou me esquecer – é que eu, também, quando dei por mim estava rezando para que ela morresse. Que Deus nos perdoe! Era essa a fraternidade, a segurança, a abundância que nos haviam prometido com a adoção do plano.

E quando a gente via isso, entendia qual era a motivação verdadeira de todo mundo que já pregou o princípio “de cada um conforme sua capacidade, a cada um conforme sua necessidade”. Era esse o segredo da coisa. De início, eu não entendia como é que os homens instruídos, cultos e famosos do mundo poderiam fazer um erro como esse e pregar que esse tipo de abominação era direita – quando bastavam cinco minutos de reflexão para eles verem o que aconteceria quando alguém tentasse pôr em prática essa idéia. Agora eu sei que eles não defendiam isso por erro. Ninguém faz um erro desse tamanho inocentemente. Quando os homens defendem alguma loucura malévola, quando não têm como fazer essa idéia funcionar na prática e não têm um motivo que possa explicar essa sua escolha, então é porque não querem revelar o verdadeiro motivo.

E nós também não éramos tão inocentes assim, quando votamos a favor daquele plano na primeira assembléia. Não fizemos isso só porque acreditávamos naquelas besteiradas que eles vomitavam. Nós tínhamos outro motivo, mas as besteiradas nos ajudavam a escondê-lo dos outros e de nós mesmos, nos davam uma oportunidade de dar a impressão de que era virtude algo que tínhamos vergonha de assumir. Cada um que aprovou o plano achava que, num sistema assim, conseguiria faturar em cima dos lucros dos homens mais capazes. Cada um, por mais rico e inteligente que fosse, achava que havia alguém mais rico e mais inteligente, e que esse plano lhe daria acesso a uma fatia da riqueza e da inteligência daqueles que eram melhores que ele. Mas enquanto ele pensava que ia ganhar aquilo que ele não merecia e que cabia aos que lhe eram superiores, ele esquecia os homens que lhe eram inferiores e que iam querer roubá-lo tanto quanto ele queria roubar seus superiores. O trabalhador que gostava de pensar que suas necessidades lhe davam o direito de ter uma limusine igual à do patrão se esquecia de que todo vagabundo e mendigo do mundo viria gritando que as necessidades deles lhes davam o direito de ter uma geladeira igual à do trabalhador. Era ESSE o nosso motivo para aprovar o plano, na verdade, mas não gostávamos de pensar nisso: e então, quanto mais a idéia nos desagradava, mais alto gritávamos que éramos a favor do bem comum.

Bem, tivemos o que merecíamos. Quando vimos o que havíamos pedido, era tarde demais. Tínhamos caído numa armadilha, e não tínhamos para onde ir. Os melhores de nós saíram da fábrica na primeira semana de vigência do plano. Perdemos nossos melhores engenheiros, superintendentes, chefes, os trabalhadores mais qualificados. Quem tem amor-próprio não se deixa transformar em vaca leiteira para ser ordenhada pelos outros. Alguns sujeitos capacitados tentaram seguir em frente, mas não conseguiram agüentar muito tempo. A gente estava sempre perdendo os melhores, que viviam fugindo da fábrica como o diabo da cruz, até que só restavam os homens necessitados, sem mais nenhum dos capacitados. E os poucos que ainda valiam alguma coisa eram aqueles que já estavam lá havia muito tempo.

Antigamente, ninguém pedia demissão da Século Vinte, e a gente não conseguia se convencer de que a Século Vinte não existia mais. Depois de algum tempo, não podíamos mais pedir demissão porque nenhum outro empregador nos aceitaria, aliás com razão. Ninguém queria ter qualquer tipo de relacionamento conosco, nenhuma pessoa nem firma respeitável. Todas as pequenas lojas com que negociávamos começaram a sair de Starnesville depressa, e no final só restavam bares, cassinos e salafrários que nos vendiam porcarias a preços exorbitantes. As esmolas que recebíamos eram cada vez menores, mas o custo de vida subia. A lista dos necessitados da fábrica não parava de aumentar, mas a lista de fregueses diminuía. Havia cada vez menos renda para dividir entre cada vez mais pessoas.

Antigamente, dizia-se que a marca da Século Vinte era tão confiável quanto a marca de quilates num lingote de ouro. Não sei o que pensavam os herdeiros do velho Starnes, se é que eles pensavam alguma coisa, mas imagino que, como todos os planejadores sociais e selvagens, eles achavam que essa marca era um selo mágico que tinha um poder sobrenatural que os manteria ricos, tal como havia enriquecido seu pai. Mas quando nossos fregueses começaram a perceber que nunca conseguíamos entregar uma encomenda dentro do prazo, nem produzir um motor que não tivesse algum defeito, o selo mágico passou a ter o valor oposto: as pessoas não queriam um motor nem dado, se ele ostentasse o selo da Século Vinte.

E no final nossos fregueses eram todos do tipo que nunca pagam o que devem, e nunca têm mesmo intenção de pagar. Mas Gerald Starnes, dopado por sua própria publicidade, ficava todo empertigado, com ar de superioridade moral, exigindo que os empresários comprassem nossos motores, não porque eles fossem bons, mas porque tínhamos muita NECESSIDADE de encomendas.

Áquela altura qualquer imbecil já podia ver o que gerações de professores não haviam conseguido enxergar. De que adiantaria nossa necessidade, para uma usina, quando os geradores paravam porque nossos motores não funcionavam direito? De que ela adiantaria para um paciente sendo operado, quando faltasse luz no hospital? De que ela adiantaria para os passageiros de um avião, quando os motores pifassem em pleno vôo? E se eles comprassem nossos produtos não por causa do seu valor, mas por causa de nossa necessidade, isso seria correto, bom, moralmente certo para o dono daquela usina, o cirurgião daquele hospital, o fabricante daquele avião?

Pois era esta a lei moral que os professores e líderes e pensadores queriam estabelecer por todo o mundo. Se era este o resultado quando ela era aplicada numa única cidadezinha onde todo mundo se conhecia, a senhora pode imaginar o que aconteceria em escala mundial? A senhora pode imaginar o que aconteceria se a senhora tivesse de viver e trabalhar afetada por todos os desastres e toda a malandragem do mundo? Trabalhar -e quando alguém cometesse um erro em algum lugar, a senhora é que teria de pagar. Trabalhar – sem jamais ter perspectivas de melhorar de vida, sendo que suas refeições, suas roupas, sua casa e seu prazer estariam à mercê de qualquer trapaça, de qualquer problema de fome ou de peste em qualquer parte do mundo. Trabalhar – sem nenhuma perspectiva de ganhar uma ração extra enquanto os cambojanos não tivessem sido alimentados e os patagônios não tivessem todos feito faculdade. Trabalhar -tendo cada criatura no mundo um cheque em branco na mão, gente que a senhora nunca vai conhecer, cujas necessidades a senhora jamais vai conhecer, cuja capacidade e preguiça e desleixo e desonestidade são coisas que a senhora jamais vai saber nem tem direito de questionar – enquanto as Ivys e os Geralds da vida resolvem quem vai consumir o esforço, os sonhos e os dias de sua vida. E é ESTA lei moral que se deve aceitar? ISTO é um ideal moral?

Olhe, nós tentamos — e aprendemos. Nossa agonia durou quatro anos, da nossa primeira assembléia à última, e acabou da única maneira que podia acabar: com a falência. Na nossa última assembléia foi Ivy Starnes que tentou manter as aparências. Fez um discurso curto, vil e insolente, dizendo que o plano havia fracassado porque o resto do país não o havia aceitado, que uma única comunidade não poderia ter sucesso no meio de um mundo egoísta e ganancioso, e que o plano era um ideal nobre, mas que a natureza humana não era suficientemente boa para que ele desse certo.

Um rapaz – o mesmo que fora punido por dar uma boa idéia no primeiro ano – levantou-se, enquanto todos os outros permaneciam calados, e andou até Ivy Starnes no tablado. Não disse nada. Cuspiu na cara dela. Foi assim que acabaram o nobre plano e a Século Vinte.”

[tags]Atlas Shrugged, Ayn Rand, Objetivismo, livro, Socialismo[/tags]

Discordianos sobre…Cultura Racional

terça-feira, 26 de junho de 2007

Sim, nós temos a nossa própria Cientologia: Cultura Racional é o nome dela. Assim como a cientologia, a Cultura Racional é uma religião enrustida já que não se declara como tal. Na verdade, de acordo com um de seus seguidores, a Cultura Racional não é religião [sic] “assim como a Física e a Química não o são”. O sujeito quer comparar ciências abertas ao diálogo, que empregam métodos científicos e de experimentação com uma coisa que veio como revelação a um indivíduo que é considerado como um deus e supostamente traz uma visão racional do mundo.

O tal deus, de nome Manoel Jacintho Coelho, têm até mesmo uma mitologia sobre seu nascimento: “Nasceu no dia 30 de dezembro de 1903, e no dia do seu nascimento os jornais noticiaram a queda de um meteoro no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, mas foi um erro da imprensa. Tratou-se, na verdade, de um corpo de massa cósmica que ao longe parecia uma estrela, e que, depois de penetrar paredes, entrou no corpo de um bebê que nascia naquele instante”.

Mas, segundo eles, “A Cultura Racional é a cultura do desenvolvimento do raciocínio, do mundo que deu origem a este em que habitamos, por isso não é religião, seita ou doutrina, nem tampouco é ciência, filosofia, nem espiritismo. E também não precisa de igreja, sinagoga, mesquita ou casa de pregação. Esta cultura não ataca, não defende, não humilha, é a favor de todos. Interessa a toda a humanidade, pois é o conhecimento de onde viemos e para onde vamos, como viemos e como vamos, por que viemos e por que vamos.” Ou seja, eles alegam possuir a resposta para a Vida, o Universo e Tudo Mais.

Segundo eles, se não lermos o livro “Universo em Desencanto”, que o Tim Maia disse que euira ou não queira todos iriam ter que ler, iremos regredir na escala evolucionária. Tudo é claro, (i) racional:

“Daqui (ser humano) se transforma para a classe inferior que é a do irracional. Transmuta-se numa infinidade de classes de macaco; de macaco já se transforma em outra classe – um cachorro;de cachorro já se transforma em outra classe – de cobras; de cobra já se transforma em jacaré;de jacaré já se transforma em porco;de porco já se transforma num sapo;de sapo já se transforma em burro;de burro já se transforma num boi;de um boi já se transforma em carrapato;de um carrapato já se transforma em barata;
de barata se transforma num rato;de um rato se transforma numa mosca;de uma mosca se transforma em urubu;de urubu se transforma em lesma;de lesma se transforma em galinha;de galinha já se transforma em minhoca;de minhoca se transforma em borboleta;de borboleta se transforma em javali;de javali se transforma em gambá;de gambá se transforma em porco-espinho;de porco-espinho se transforma numa onça.”

Para mim é um grande mistério como alguém consegue acreditar nisso. Vocês prestaram atenção? “de uma mosca se transforma em urubu;de urubu se transforma em lesma;de lesma se transforma em galinha;de galinha já se transforma em minhoca;de minhoca se transforma em borboleta;de borboleta se transforma em javali”

E isso para quem se alega ser a cultura do desenvolvimento do raciocínio. E o raciocínio segundo eles fica na Glândula Pineal (Malaclypse devia ter patenteado a idéia):

“A glândula pineal, quando desenvolvida pela energia própria do desenvolvimento que é a energia racional, defende a criatura de qualquer categoria de enfermidade, pois gera no sangue uma espécie definida de leucócitos ou anticorpos que torna impossível a vida dos agentes patogênicos. A energia racional elimina a causa dos males, imunizando a pessoa dos efeitos negativos das energias elétrica e magnética, tornando a criatura que a desenvolveu apta a se comunicar com qualquer pessoa em qualquer lugar ou distância sem uso de palavras.”

Esse foi um pouco sobre a Cultura (i) Racional.

[tags]Cultura Racional, Universo em Desencanto[/tags]

Milan Kundera e a insustentável leveza do ser

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Um dos livros que mais me causaram um “estranhamento” (não sei definir exatamente a sensação) e fizeram olhar o mundo de forma diferente foi o romance “A Insustentável Leveza do Ser” (existe um filme mas recomendo somente o livro, pois a força da história para mim reside na prosa de Kundera e na forma como o mesmo nos leva aos bastidores do romance). Abaixo os dois primeiros trechos que introduz um debate cujo os personagens serão as “cobaias” do experimento a fim de atingir as respostas. Lembro-me que nessa época eu estava começando a ler Nietzsche o que me fez ler com mais afinco.

1
A idéia do eterno retorno é uma idéia misteriosa, e uma idéia com a qual Nietzsche muitas vezes deixou perplexos outros filósofos: pensar que tudo se repete da mesma forma como um dia o experimentamos, e que a própria repetição repete-se ad infinitum! O que significa esse mito louco?

De um ponto de vista negativo, o mito do eterno retorno afirma que uma vida que desaparece de uma vez por todas, que não retorna, é feito uma sombra – sem peso, morta de antemão; quer tenha sido horrível, linda ou sublime, seu horror, sublimidade ou beleza não significam coisa alguma. Uma tal vida não merece atenção maior do que uma guerra entre dois reinos africanos no século XIV, uma guerra que nada alterou nos destinos do mundo, ainda que centenas de milhares de negros tenham perecido em excruciante tormento.

Algo se alterará nessa guerra entre dois reinos africanos do século XIV, se ela porventura repetir-se sempre, retornando eternamente?

Sim: ela se tornará uma massa sólida, constantemente protuberante, irreparável em sua inanidade.

Se a Revolução Francesa se repetisse eternamente, os historiadores franceses sentiriam menos orgulho de Robespierre. Como, porém, lidam com algo que jamais se repetirá, os anos sangrentos da Revolução transformaram-se em meras palavras, teorias e discussões; tornaram-se mais leves que plumas, incapazes de assustar quem quer que seja. Há uma diferença infinita entre um Robespierre que ocorre uma única vez na história e outro que retorna eternamente, decepando cabeças francesas.

Concordemos, pois, em que a idéia do eterno retorno implica uma perspectiva a partir da qual as coisas mostram-se diferentemente de como as conhecemos: mostram-se privadas da circunstância atenuante de sua natureza transitória. Essa circunstância atenuante impede-nos de chegar a um veredicto. Afinal, como condenar algo que é efêmero, transitório? No ocaso da dissolução, tudo é iluminado pela aura da nostalgia, até mesmo a guilhotina.

Não faz muito tempo, flagrei-me experimentando uma sensação absolutamente inacreditável. Folheando um livro sobre Hitler, comovi-me com alguns de seus retratos: lembravam minha infância. Eu cresci durante a guerra; vários membros de minha família pereceram nos campos de concentração de Hitler; mas o que foram suas mortes comparadas às memórias de um período já perdido de minha vida, um período que jamais retornaria?

Essa reconciliação com Hitler revela a profunda perversidade moral de um mundo que repousa essencialmente na inexistência do retorno, pois, num tal mundo, tudo é perdoado de antemão e, portanto, cinicamente permitido.

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Se cada segundo de nossas vidas repete-se infinitas vezes, somos pregados à eternidade feito Jesus Cristo na cruz. É uma perspectiva aterrorizante. No mundo do eterno retorno, o peso da responsabilidade insuportável recai sobre cada movimento que fazemos. É por isso que Nietzsche chamou a idéia do eterno retorno o mais pesado dos fardos.

Se o eterno retorno é o mais pesado dos fardos, então nossas vidas contrapõem-se a ele em toda a sua esplêndida leveza.

Mas será o peso de fato deplorável, e esplêndida a leveza?

O mais pesado dos fardos nos esmaga; sob seu peso, afundamos, somos pregados ao chão. E, no entanto, na poesia amorosa de todas as épocas, a mulher anseia por sucumbir ao peso do corpo do homem. O mais pesado dos fardos é, pois, simultaneamente, uma imagem da mais intensa plenitude da vida. Quanto mais pesado o fardo, mais nossas vidas se aproximam da terra, fazendo-se tanto mais reais e verdadeiras.

Inversamente, a ausência absoluta de um fardo faz com que o homem se torne mais leve do que o ar, fá-lo alçar-se às alturas, abandonar a terra e sua existência terrena, tornando-o apenas parcialmente real, seus movimentos tão livres quanto insignificantes.

O que escolheremos então? O peso ou a leveza?

Parmênides levantou essa mesma questão no sexto século antes de Cristo. Ele via o mundo dividido em pares opostos: luz/escuridão, fineza/rudeza, calor/frio, ser/não-ser. A uma metade da oposição, chamou positiva (luz, fineza, calor, ser); à outra, negativa. Nós poderíamos achar essa divisão em um pólo positivo e outro negativo infantilmente simples, não fosse por uma dificuldade: qual é o positivo, o peso ou a leveza?

Parmênides respondeu: a leveza é positiva; o peso, negativo.

Tinha ou não razão? Essa é a questão. Certo é apenas que a oposição leveza/peso é a mais misteriosa, a mais ambígua de todas.

Milan Kundera.

E vocês, o que acham?

[tags]Milan Kundera, trecho, A Insustentável Leveza do Ser[/tags]

Caos e Ordem – A Herança de Éris

terça-feira, 19 de junho de 2007

 

Pitágoras, grego, logo percebeu a influência de Éris sobre o mundo. Foi o primeiro filósofo a perceber relações numéricas na natureza. Aliás, se considerarmos que Pitágoras criou a palavra “filósofo”, podemos dizer que ele foi o primeiro filósofo ponto.

Em suas relações numéricas, Pitágoras não se limitou aos chamados números naturais, o conjunto dos inteiros positivos. Ao contrário, a partir das proporções entre os segmentos de reta existentes no pentagrama (a “estrela de cinco pontas” que pode ser traçada a partir da união de vértices alternados de um pentágono), Pitágoras encontrou um número fracionário que respondia por diversas relações métricas na natureza: desde o aumento do diâmetro de conchas de moluscos a cada volta da espiral até proporções em medidas do corpo humano.

Por suas propriedades, então consideradas “mágicas”, Pitágoras chamou ao número descoberto de Número de Ouro. Este número tem o valor aproximado de 1,618033989.
Além destas verificações, Pitágoras percebeu, também, através da observação do aparente caos dos corpos celestes, que havia ordem na movimentação destes. De acordo com o princípio Discordiano. Os pitagóricos chegaram, inclusive, a propor um modelo de cosmos onde previam que a terra fosse esférica e rotasse sobre si mesma.

Em 1202, um outro matemático, Leonardo Pisano, também conhecido como Fibonacci, publicou seu Liber Abaci (Livro do Ábaco). Durante viagens que fez com seu pai ao norte da África, Fibonacci teve contato com os árabes, e deles aprendeu o sistema de numeração hindu e o zero. Seu livro trouxe aos europeus não apenas assuntos relacionados com a Aritmética e a Álgebra, que ele aprendera com os árabes, mas também esta nova forma de numeração. Graças às suas demonstrações de uso comercial e de conversões de pesos e medidas, o sistema apresentado por Fibonacci substituiu rapidamente o sistema de algarismos romanos até então em uso.

Além do novo sistema numerico, Fibonacci demonstrou ainda uma sequência de números inteiros, que futuramente viria a receber seu nome: iniciando-se a sequência com 0 e 1, formaremos cada novo elemento da sequência, a partir do terceiro, pela soma entre os dois antecessores: 0, 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21…

Esta sequência, que mostrou aplicar-se bem a situações de crescimento populacional, tem uma característica: conforme seus elementos se distanciam do início, a divisão de um elemento n por seu anterior n-1 tende cada vez mais para o número 1,618033989. O número de ouro de Pitágoras.
Éris, agrupando as coisas, começa a mostrar a ordem que existe entre elas.
Entretanto, a seqüência de Fibonacci não explica adequadamente todas as populações. No limite, a seqüência explicaria perfeitamente uma população onde:

1 – no primeiro ciclo nasce apenas um casal,
2 – os casais amadurecem sexualmente (e reproduzem-se) apenas após o segundo ciclo de vida,
3 – não há problemas genéticos no cruzamento consangüíneo,
4 – a cada ciclo, cada casal fértil dá a luz a um novo casal, e
5 – os indivíduos nunca morrem.

Evidentemente, não existe uma população assim. Como em todas as populações os indivíduos fatalmente irão morrer, ou atingem a maturidade sexual em tempos diferentes, ou ainda a população não irá crescer à proporção de um casal fértil por casal por ciclo, a tendência é que em observações a longo prazo as populações reais não se comportem da maneira prevista pela seqüência.

As aproximações para resolver estas situações deram origem a modelos cada vez mais complexos envolvendo, entre outros artifícios, as equações diferenciais.
Estas foram um dos temas estudados por Henri Poincaré, matemático e físico francês, que apresentou novas abordagens para a resolução de equações diferenciais de maneira geométrica. simplificando sua resolução.

Em 1887, em homenagem a seu 60° aniversário, o Rei Oscar II da Suécia patrocinou uma competição matemática com um prêmio em dinheiro para resolução da questão de quão estável é o sistema solar. Poincaré ressaltou que o problema não estava corretamente estabelecido, e provou que a solução completa não poderia ser encontrada. Ele mostrou que a evolução de um sistema gravitacional com tres ou mais corpos é freqüentemente caótica no sentido que pequenas perturbações em seu estado inicial, tais como um ligeira mudança na posição inicial do corpo, irão levar a uma mudança radical em seu estado final. Se esta sutil mudança não é percebida pelos nossos instrumentos de medição, então não seremos capazes de predizer o estado final a ser obtido.

Estavam lançadas as bases para a moderna matemática do Caos, que permitiu elucidar padrões em diversos modelos aleatórios. O Caos brotando da Ordem e a Ordem brotando do Caos. Novamente, Éris divertindo-se às nossas custas.

[tags]matemática, caos, ordem[/tags]

10 Discos

domingo, 17 de junho de 2007

Isso me leva a pensar de vez em quando em quais são os discos que valem uma vida (aqueles de levar pra ilha deserta).

Foi assim que dudu tomaselli nos mostrou seus discos prediletos e aproveitou para bloguntar (eu sei, essa palavra nem existe ainda) para vários blogueiros, dentre os quais eu, quais seus discos prediletos.

Abaixo os meus mas já me adianto e digo que eu gosto antes de faixas individuais e que a venda de faixas individuais talvez algum dia acabe com os mesmos pelo menos da forma como o concebemos hoje. Em nenhuma ordem particular:

“Ok Computer”, Radiohead
“The Beatles”, The Beatles
“Rubber Soul”, The Beatles
“Pinkerton”, Weezer
“Myths Of Near Future”, Klaxons
“Funeral”, Arcade Fire
“Hunky Dory”, David Bowie
“Plans”, Death Cab For Cutie
“Sam’s Town”, The Killers
“The High Road”, JoJo

Hoje estes seriam 10 discos que eu levaria para uma desertas com menções honrosas para “Allright, Still” da Lilly Allen e “Help!” dos Beatles.

[tags] discos, seleção, lista, top 10[/tags]

Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta

sexta-feira, 15 de junho de 2007

A mais ou menos 1 ano e meio atrás eu olhei para a minha biblioteca pessoal (não é muita coisa, por volta de 200 livros, mas eu me sinto bem por possui-los) e percebi que eu não tinha literalmente nenhum escrito por um brasileiro. Murakami, Palahniuk, Gaiman, Kafka, Dostoievski, Borges entre vários. Eu tinha 5 livros de um autor argentino (Borges e nenhum brasileiro). Em minha defesa parcial apenas os livros de Fernando Pessoa e somente por este falar em português. Não tive uma formação elitista, li mais fantasia do que clássicos e estudei em escola pública minha vida toda, soava estranho até mesmo para mim nunca ter comprado nenhum livro de autor nacional.

Talvez a alta disponibilidade dos mesmos na biblioteca pública tenham me feito nunca investir neles. Afinal eu moro perto da biblioteca e posso retirá-los quando quiser. Notem que eu não possuía livros de autores nacionais e não que eu não os tenha lido. Li de Machado a Rubem Alves, passando por Mário Prata, Jô Soares e José Agrippino de Paula. Então eu comprei dois volumes de uma só vez: “O Auto da Compadecida” cuja história eu somente conhecia em segunda mão da bem sucedida adaptação para o cinema e o “Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta” a fim de conhecer outro trabalho do autor e também por ter me interessado pelas primeiras palavras do livro.

A história é muito interessante e arrisco dizer até mesmo discordiana. Não assisti a mini-série da Globo (apenas um capítulo na verdade), mas suas imagens evocaram perfeitamente o clima do livro com sua retórica e mudanças de assunto, embora eu não arrisque dizer que seja uma adaptação fiel, talvez a intenção não tenha sido nem mesmo esta.

Estou retornando a leitura e descobrindo que 1 ano e meio depois, talvez devido à profusão de detalhes que existe no livro, a sensação de que tenho é estar lendo outro livro embora a trama pareça levemente conhecida. Arrisco dizer que é meu livro predileto de um autor nacional e recomendo.

[tags]Ariano Suassuna, Pedra do Reino, livro[/tags]

Fui plagiado…E daí?

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Estou gripado, terrívelmente gripado. De nada adiantou ter CA +15, é dessa forma que estou postando.

Checando os novos links apontados para o 1001 eu me lembrei de uma vez em que o dudu tomaselli foi plagiado. Escrevi um e-mail para o “executor do crime”, onde da forma mais polida possível o mandei à merda. Ele logo respondeu se retratando e pedindo desculpas pelo ocorrido.

Aconteceu comigo agora. E eu não tomei nenhuma providência, nem mesmo me senti ofendido. Acho que fiquei mais quando o dudu reclamou de seu incendente do que com o meu. Este blog é totalmente disponibilizado em um licença Creative Commons 3.0 que permite que o sujeito utilize para fins não comerciais TODO o conteúdo e até mesmo altere desde que cite a fonte e disponiblize pela mesma licença.

Ele ou ela não identifiquei precisamente não citou a fonte mas o fez indiretamente, apontando vários links para cá, então não vejo motivos para declarar guerra a ninguém. E não é para fins comerciais visto que não possui o onipresente-adsense. Não é um conteúdo particularmente brilhante ou mesmo original. Tudo seria vão, uma luta contra o vento.

Os melhores textos estou reunindo e enviando para a Biblioteca Nacional, mas somente quando tenho um bom volume que justifique o valor gasto. Um cálculo por cima, umas 200 folhas impressas (devem estar seguindo todas as diretrizes do órgão), contando envio do correio, taxas, encardenação, não deve ficar por mais de 50,00 para alguém do interior de São Paulo, como eu.

Aqui vão os links, sem no follow para deliberadamente aumentar o PG do blog:

Freud explica o Cristianismo
Acasalamento humano
Citações de Homer J. Simpson

Estou levando isso como a mais sincera forma de elogio.

[tags]Creative Commons, Cultura Livre[/tags]

Quem é quem no Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Eu não sou apenas fascinado pelos beatles musicalmente mas também estéticamente e intelectualmente. Eu acredito que possamos extrair do cânone beatle respostas para grandes questionamentos da vida e metáforas que podem iluminar áreas escuras de nossa existência.

Com os 40 anos da banda eu não poderia me furtar de dizer pelo menos alguma coisa. O disco Sgt. Peppers não é o meu predileto. Eu fico entre The Beatles (o popular Álbum Branco) e Rubber Soul. Mas “A Day In The Life” é inquestionavelmente uma garnde canção. Qualquer disco com esta canção mereceria um honrado lugar em qualquer ranking.

Adoro a capa do disco pois contém muitas celebridades (algumas eu aprecio) e fica como curiosidade:

sgtpepper_cover.jpg

pepper_people.jpg

  1. Sri Yukteswar Gigi (guru)
  2. Aleister Crowley (a besta 666, mago britânico)
  3. Mae West (atriz)
  4. Lenny Bruce (comediante)
  5. Karlheinz Stockhausen (compositor)
  6. W.C. Fields (comediante)
  7. Carl Gustav Jung (discípulo de Freud e criador da psicologia analítica)
  8. Edgar Allen Poe (escritor, é o pai do romance policial)
  9. Fred Astaire (ator)
  10. Richard Merkin (artista)
  11. The Varga Girl (por Alberto Vargas)
  12. *Leo Gorcey (Foi retirado por exigiu um pagamento)
  13. Huntz Hall (ator de Bowery Boys, filme de 1937)
  14. Simon Rodia (criador das Watts Towers em Watts, distrito de Los Angeles)
  15. Bob Dylan (músico)
  16. Aubrey Beardsley (ilustrador)
  17. Sir Robert Peel (político)
  18. Aldous Huxley (escritor)
  19. Dylan Thomas (poeta)
  20. Terry Southern (escritor)
  21. Dion (di Mucci)(cantor)
  22. Tony Curtiss (ator)
  23. Wallace Berman (artista)
  24. Tommy Handley (comediante)
  25. Marilyn Monroe (atriz)
  26. William Burroughs (escritor)
  27. Sri Mahavatara Babaji(guru)
  28. Stan Laurel (comediante)
  29. Richard Lindner (artista)
  30. Oliver Hardy (comediante)
  31. Karl Marx (filósofo)
  32. H.G. Wells (escritor)
  33. Sri Paramahansa Yogananda (guru)
  34. Boneco de cera
  35. Stuart Sutcliffe (fez parte de uma das primeiras formações dos Beatles)
  36. Outro boneco de cera
  37. Max Miller (comediante)
  38. The Pretty Girl (de George Petty)
  39. Marlon Brando (ator)
  40. Tom Mix (ator)
  41. Oscar Wilde (escritor)
  42. Tyrone Power (ator)
  43. Larry Bell (artista)
  44. Dr. David Livingston (explorador)
  45. Johnny Weissmuller (ator)
  46. Stephen Crane (escritor)
  47. Issy Bonn (comediante)
  48. George Bernard Shaw (escritor)
  49. H.C. Westermann (escultor)
  50. Albert Stubbins (jogador de futebol)
  51. Sri lahiri Mahasaya (guru)
  52. Lewis Carrol (escritor)
  53. T.E. Lawrence (soldado, conhecido como Lawrence of Arabia)
  54. Sonny Liston (boxeador)
  55. The Pretty Girl (por George Petty)
  56. Modelo de cera de George Harrison
  57. Modelo de cera de John Lennon
  58. Shirley Temple (atriz mirim)
  59. Modelo de cera de Ringo Starr
  60. Modelo de cera de Paul McCartney
  61. Albert Einstein (físico)
  62. John Lennnon
  63. Ringo Starr
  64. Paul McCartney
  65. George Harrison
  66. Bobby Breen (cantor)
  67. Marlene Dietrich (atriz)
  68. Mohandas Ghandi (retirado por pedido da EMI)
  69. Legionário da ordem dos Búfalos
  70. Diana Dors (atriz)
  71. Shirley Temple (atriz mirim)
  72. Obra de Jann Haworth
  73. Obra de Haworth
  74. Castiçal mexicano
  75. Televisão
  76. Figura de pedra de uma garota
  77. Figura de pedra
  78. Estátua da casa de John Lennons
  79. Troféu
  80. Boneco indiano de quatro braços
  81. Bumbo, design de Joe Ephgrave
  82. Hookah (cachimbo oriental)
  83. Cobra de borracha
  84. Figura de pedra japonesa
  85. Estátua da Branca de Neve
  86. Gnomo de jardim
  87. Tuba

[tags]Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band,40 anos, capa[/tags]

Corrupção: O que nós podemos fazer?

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Há aqueles que argumentam que é impossível mudar a corrupção, pois o poder corrompe e uma vez no ventre na besta você se tornará um deles. Foi John Lennon que disse que para derrotar os engravatados você deve vestir uma gravata. O ponto que estas pessoas perdem é que não é o poder que corrompe (poder nada mais é do que um conceito, uma idéia), quem se corrompe são as pessoas. Kant afirmou que nada realmente reto dá para se fazer com a madeira torta da humanidade e ele poderia perfeitamente estar falando disso.

Em ?O Homem Invisível?, o escritor de ficção-científica H. G. Wells mostra um sujeito que começa a transgredir a lei após ter acesso a uma fórmula que o permitia ficar invisível. O que Wells queria dizer é que a essência do ser humano é maligna e não havendo poderes maiores que ele (a polícia, visto que ele não podia ser preso).Que a nossa civilidade nasce da inibição de nossos instintos que nos levariam a ser o lobo do homem.

Eu procuro acreditar que não sejamos essencialmente maus, o que não implica dizer que sejamos bons. Nós apenas somos. O ser humano é como um outro animal qualquer mas que se organiza de formas particulares. Mas, no entanto, a obra de Wells fornece um insight muito interessante: De que a lei inibiria o homem de praticar aquilo que deseja.

Ao ser questionado por uma revista se era possível acabar com a corrupção, Cláudio Abramo, da ONG Transparência Internacional que se dedica a combater a corrupção no mundo disse que “É possível dimi-nuí-la. Corrupção não depende apenas de pessoas desonestas mas também de oportunidades. Se há oportunidade, há corrupção. Se a oportunidade for dificultada, a corrupção diminui. Leis, relações, estruturas administrativas precisam ser alteradas e somente o governo pode fazer isso e com a participação de todos os órgãos, incluindo a sociedade civil.”

Dois fatores permitem que a corrupção continue acontecendo. Um deles é cultural e o outro é legal. O cultural é o famoso ?jeitinho brasileiro? que nasce da burrocracia que dificultando o acesso aos serviços públicos abre brechas para que alguns tomem vantagem ao utilizar propinas.

Nossa cultura de certa forma sempre viu com bons olhos a chamada ?Lei de Gérson?. Segue a Lei de Gérson aquele indivíduo que gosta de levar vantagem em tudo. (aqui artigo da Wikipédia)

O fator legal é a impunidade que nasce da sensação que um político experimenta de que eles estão acima da lei ou mesmo do povo. Ora, eles foram eleitos pelo povo e para o povo. Quando vemos tais escânda-los envolvendo seus nomes e punições ridículas como reprimendas verbais ou danças de impunidade (A deputada Ângela Guadagnin (PT-SP) usou para comemorar a absolvição do colega João Magno (PT-MG) uma dança desengonçada e sarcástica. O parecer que pedia a cassação de Magno por envolvimento com o suposto “mensalão” foi rejeitado pelo plenário da Câmara, o vídeo só faltava estar no YouTube, ou melhor, não falta, clique aqui), percebemos que eles realmente não sofrem qualquer tipo de punição por atividades que traem a confiança depositada neles através do voto.

A corrupção é um crime não apenas econômico mas que urge por punição pois é de nossa natureza assim fazê-lo. Donald E. Brown listou as universais humanas (padrões de comportamento observados em to-das as culturas humanas que desta forma, fariam parte da natureza humana) e entre elas estão a reciprocidade negativa (vingança, retaliação) e sanções por crimes contra a coletividade. Porém há leis (criados por quem?) que protegem os traseiros de tais políticos pilantras, há toda uma gama de proteções legais que os impedem de ser punidos pela justiça comum no que eles chamam de ?imunidade parlamentar? que poderia perfeitamente ser traduzida como ?impunidade parlamentar?. Enquanto ela existir, teremos corruptos.

O que podemos fazer a respeito? Exigir da máquina corrupta como sempre? Cruzar os braços e esperar que melhore? Alguém conhece um truque mágico que resolva isso?

[tags] corrupção, questionamento, o que fazer?[/tags]