★ Sheldon, Penny, Leonard, Raj e Wolowitz em The Big Bang Theory

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rev. Beraldo

Como Escrever uma Boa Dissertação

por rev. Beraldo em 17 novembro, 2008

ou Refutando Idéias do Senso Comum

Como a FUVEST acontece no próximo domingo, resolvi ajudar vocês, jovens discordianos, nerds, desocupados e estudiosos, et cetera, a escrever uma boa redação. Para isso, vou usar velhos chavões sobre como fazer isso. A lista deles está disponível aqui.

Dicas para se escrever uma boa dissertação

Só abordar na introdução e na conclusão o que realmente estiver no desenvolvimento;
Discordo em parte; a introdução pode ser usada para diversos fins. Eu, por exemplo, constantemente a uso para descrever coisas in media res, ou seja, apresentar um cenário já desenvolvido e, a partir daí, relacionar coisas aparentemente não relacionadas. O erro da dica está em considerar que assuntos precisam ser relacionados de forma objetiva e evidente, quando, na realidade, eles podem, muito bem, estar relacionados de forma subjetiva e obscura.

Uma pequena luz sobre a subjetividade: hoje está caindo, em muito, a hipócrita necessidade do uso da segunda pessoa no plural ou terceira pessoa numa dissertação. Visto que a subjetividade vem sendo reconhecida, tanto que os “manuais e cartilhas” de redação já estão se adaptando à realidade do “eu penso que…”, também é racional argumentar-se que a subjetividade vai além da semântica: agora, o ser que escreve é valorizado, ou pelo menos deve ou deveria ser.

A dica diz, também: “só se deve abordar na conclusão o que realmente estiver no desenvolvimento”, e isso eu concordo. Uma conclusão, obviamente, é baseada em argumentos já apresentados. Dessa forma, salvo recursos estilísticos (algo que as redações de um vestibular desconhecem, praticamente), essa parte da dica é mais uma observação que uma dica, de fato.

Evitar períodos muitos longos ou seqüências de frases muito curtas;
Isso é pobreza de idéias. Recursos como frases longas ou curtas e intercaladas são clássicos, e qualquer espasmo poético dentro de uma dissertação deveria ser louvado. Essa idéia de que “dissertação é uma coisa, poesia outra” já caiu por terra, na prática, nas mãos dos escritores contemporâneos (nós mesmos!). Cairá, e o mais rápido o possível, desejo eu, das dicotomias e delíros acadêmicos. Católicos gostam disso - dicotomia - bem como cristãos e outros religiosos em geral, e eu espero que eles sumam logo ou parem de infectar as idéias dos outros por aí.

Evitar, nas dissertações tradicionais, dirigir-se ao leitor;
Outro recurso que deve cair, não, caro leitor? Ora, Machado de Assis usava isso e eu usaria um argumento, entre parênteses, para justificar o uso desse mesmo recurso no meio de uma redação. Ficaria assim, provavelmente (um exemplo sobre um tema qualquer):

…e o leitor que estiver preso às suas convicções obtidas após a árdua tarefa de assistir a algum canal de TV não entenderá tal premissa (note, você, leitor, o uso do narrador machadiano. Ora, se a dicotomia entre dissertação, poesia, narração é apenas um delírio acadêmico, você não concorda que é muita falta de ousadia esquecer-se de tal recurso?).

Além da evidente ousadia que é o uso de tal recurso, ainda demonstra um conhecimento no mínimo básico: narrador machadiano deveria ser algo conhecido por qualquer aluninho que se preze.

Evitar as repetições exageradas e umas próximas das outras, tanto de palavras, quanto de informações;
Uma boa dica, mas deve ser esquecida se você achar que deve. Por exemplo, numa crítica à monotonia da televisão, você poderia repetir o mesmo discurso diversas vezes, com sinônimos e frases contruídas de maneiras diferentes, de modo a imitar o discurso televisivo.

Manter-se rigorosamente dentro do tema;
É apenas um critério avaliativo, mas isso deveria ser banido até certo ponto. Devanear um pouco pode fazer com que assuntos aparentemente opostos ou distantes comecem a se encadear de forma inteligente. Boa parte dos discursos interessantes que foram assim classificados só foram possíveis em função dessa “deriva intelectual”, o que exige certo ócio… E, é claro, em nossos tempos de especialização e técnica, esse tipo de deriva não é só nociva ao sistema, como não há tempo para ela.

É uma dica, pois, para quem quer jogar nas regras, mas é um reflexo direto daquilo que o “meio acadêmico”, o “sistema” ou qualquercoisaassim espera de você, e a utilidade dessa habilidade é muito discutível.

Evitar expressões desgastadas, “batidas”;
Como água mole em pedra dura tanto bate até que fura, acredito absolutamente que é um erro ter crenças absolutas. Até certo ponto, a dica é interessante, mas fugir de clichês já virou um clichê.

Utilizar exemplos e citações relevantes;
Ou inventar uns exemplos. Nada te obriga a ficar no mundo real: “não existem fatos senão interpretações”, como disse São Nietzsche. Também é legal se lembrar de nosso amigo Voltaire: “uma boa citação não prova nada”. Nessa nossa conjuntura de especialização técnica profissional, porém, a idéia de “citações relevantes” remete à dados e os chamados “argumentos de autoridades”, que eu desprezo completamente. Prefiro ler, digerir, e ser minha própria autoridade (pois, como diz um velho cartão discordiano, todos somos papas, e “um papa é uma autoridade que está acima da autoridade das autoridades”).

Não usar religião como argumento;
Só se você for discordiano. Dizer que “todas as declarações são verdadeiras em algum sentido, falsas em algum sentido, absurdas em algum sentido, verdadeiras e falsas em algum sentido, verdadeiras e absurdas em algum sentido, falsas e absurdas em algum sentido, e verdadeiras e falsas e absurdas em algum sentido” é um argumento religioso, mas, nem por isso, falso. (Mas é absurdo, verdadeiro, falso, irrelevante, etc.)

Fugir das palavras muito “fortes”;
Ou seja, use eufemismos, que é um eufemismo para “seja hipócrita”. Como as empresas de hoje em dia: elas não tem mais “empregados”, mas “colaboradores”. A graça é que em um minuto numa linha de produção se paga o salário de um punhado de “colaboradores”, e estes não crescem em nada. Agora, a conta do dono da empresa…

Evitar gírias e termos coloquiais;
Isso é coisa de mano acadêmico enrrustido, tá ligado? Maior idiotice isso… A língua é formada por nós, usada por nós, então nós temos total liberdade sobre ela. Ou pelo menos deveríamos. Gírias, termos coloquiais e etc. deveriam ser totalmente permitidos, já que são marcas importantes de uma língua, quando bem utilizadas. Tente achar melhor instrumento de desabafo e abstração que um bom “foda-se” e você irá entender…

Evitar linguagem rebuscada;
Aproveito tal azo para refutar essa equivocada, quiçá errônea, idéia. Penso que tu deves usar a linguagem que mais lhe agrada, de modo a expressar livre e plenamente sua subjetividade. Ataco a banca corretora de tais escritos criados pelos chamados “vestibulandos” e digo-lhes: essa exigência é ócio ante a prolixidade que nossos mais brilhantes homens possuem, e também bloqueio psicológico quando a consultar um bom dicionário para encontrar e digerir termos que não conhecem! Trânsfugas é o que são os homens que dizem-nos para evitar a “linguagem rebuscada”!

Evitar a argumentação generalizadora e baseada no senso comum;
Boa dica. Mas, não devemos perder de vista que parte das idéias do senso comum só são desprezadas, pois são tão evidentes ou conhecidas que já enjoamos delas. Isso não significa, porém, que são menos verdadeiras ou mais verdadeiras: o nível de “verdadeiro” das coisas é praticamente o mesmo, em certo sentido.

Sobre as generalizações, todas devem ser evitadas (hhaehuahe).

Não ser radical;
Concordo. Coitado dos velhos da banca corretora! Acho que se lerem um tão “radical” e “revolucionário” enunciado como “Deus morreu”, morrem do coração!

Mais que isso: é uma dica NOCIVA. Atacar algo “radicalmente” significa, em última análise, atacar pela raíz. E esse mundinho despreza ataques à raíz, e previlegia ataques paleativos. Deve ser pelo motivo que dá mais dinheiro…

Ter cuidado com palavras duvidosas como coisa e algo, por terem sentido vago; prefirir elemento, fator, tópico, índice, ítem, etc.
Está pedindo para você apenas trocar uma palavra. Mas algo me diz que essa coisa não faz muito sentido!

Após o titulo de uma redação não colocar ponto;
Isso é só uma convenção. Você pode escrever uma redação pós-moderna chamada “;”.

Não usar questionamentos no texto, sobretudo na conclusão;
Mas, se usar, não se esqueça de destruir essa dica com uma citação de Fernando Pessoa:

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Ou seja, é uma dica para evitar que os corretores da banca sofram um ataque cardíaco. Afinal, se a juventude tem dúvidas sobre o que devemos fazer do mundo, se tem dúvidas sobre os temas abordados, o que será de nosso mundo perdido?

Jamais usar a primeira pessoa do singular ou plural, a menos que haja uma solicitação do tema;
Os professores de ensino médio e cursinhos deveriam fazer uma força-tarefa para que todos os candidatos usassem “eu penso que” em suas dissertações. Eu disse mais acima: é pura hipocrisia da burguesia fazer com que suas instituições de ensino cobrem isso em suas provas, já que egoísmo é uma marca EVIDENTE, mas maquilhada até cerne, da burguesia.

Repetir muitas vezes as mesmas palavras empobrece o texto; lançar mão de sinônimos e expressões que representem a idéia em questão;
Vou concordar, pois eu acredito que é muito bom ter um vasto vocabulário; isso evita que beócios e néscios, bem como azêmolas, busquem julgar seu texto. Porém, nesse caso, a idéia é outra: acredite na dica, a menos que você lance mão de um recurso estilístico.

Um adendo sobre o Estilo: muita gente acha que é possível se aprender esse tipo de coisa, ou aprender a escrever. Primeiro, isso não é possível: deve-se ler muito, MUITO, e ler coisa boa, coisa de vanguarda, principalmente. Também, não adianta decorar técnicas, já que o estilo sai naturalmente. O uso de “figuras de linguagem” é algo natural, não dá pra ser ensinado. Dá para ser estudado, é claro, mas isso deveria competir só aos estudiosos da língua, para formular teorias que, depois, serão usadas em algum lugar obscuro.

Somente citar exemplos de domínio público, sem narrar seu desenrolar, fazendo somente uma breve menção;
Mas é muito mais divertido falar sobre o suicídio de “Budd” Dwyer do que a criança que foi lançada pela janela. Exemplos de domínio público são lançados pela TV ao público; exemplos obscuros, como citar a República de Fiume, além de mais inteligente, também faz a banca ter que correr atrás de suas idéias. Por que motivos diabólicos devemos guardar os conhecimentos ocultos dentro de nós, e nos restringir àquilo que já foi catalogado, entendido e esfriado pelo meio intelectual, pela intelligentzia?

Ser direto e objetivo;
A não ser que você saiba muita coisa sobre o tema. Se não souber nada, seja objetivo e direto, como é exigido de um profissional especializado: não pense, faça, robô!

Nunca usar palavrões;
Isso é PURA HIPOCRISIA. “Palavrões” são conjuntos de sinais gráficos com um significado, exatamente como “cadeira, lua, geléia, câncer”. É coisa da Liga das Senhoras Nervosas da Igreja KKKatólica se esconder atrás de sua “boa educação”.

Não usar itens pessoais na sua dissertação.
Alguns arquétipos pessoais são irritantes…

Seguindo essas dicas pode ser que você não passe, mas que você vai escrever uma boa dissertação, ah, isso vai!

focused
Creative Commons License photo credit: natashalcd
Essa aí começou cedo. Espero que ela siga as dicas deturnadas.

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Amor, Sublime Amor

por rev. Beraldo em 15 outubro, 2008

Arthur entrou no costumeiro bar, sentou-se no lugar costumeiro do balcão; estava ansioso pelo jogo. Esperava fervorosamente que a Colômbia desbancasse o Brasil - mas é claro que não diria isso para o povo ali, ou seria enxotado.

- ‘Noite, Hetz. Feliz dia do Nietzsche.
- Boa noite, professor. Feliz dia do Bigode! - E Hetzlinger riu bastante. - E, ah, claro, feliz dia dos professores também. Veio assistir ao jogo, é?
- Podes crer. Nem me lembre que fui professor, argh. Me vê o de sempre.

O bartender começou a preparar a bebida do velho Arthur, e, enquanto este esperava pelo jogo, João chegou, batendo-lhe nas costas e desejando feliz dia do Bigode. Enquanto isso, o Jornal Nacional rolava solto na TV do bar e uma notícia chamou a atenção de João:

- Hoje, por volta das nove horas da noite, acabou o drama de Heloá, a jovem de 15 anos que estava sendo mantida como refém de seu ex namorado, Lindembergue Fernandes Alves, de 22 anos, inconformado com o fim do namoro… - o bartender abaixou o som da TV e comentou para Arthur e João:
-Horrível isso aí, não? Um cara desses merecia…
- Merecia nada, cara. - Arthur interrompeu Hetz, causando espanto neste e em João. - É mais que natural que esse tipo de coisa aconteça. E, depois, não é ele que está fazendo isso, mas o gênio da espécie.
- Xiiii, tu vais começar a viajar de novo, é, professor Schopenhauer? - o bartender falou, e voltou a limpar copos, deixando o volume da TV alto novamente. João, porém, após pensar um pouco, acabou por concordar com Arthur.
- Hetz, Arthur tá certo. Lembro de um trecho de EQM que fala sobre isso.
- EQM? - Arthur perguntou.
- É, o livro do rev. Ibrahim Cesar. Literatura discordiana. Nunca leu?
- Não, eu parei de ler.
- Parou de ler, mas e a bebida? - o velho filósofo fez um sinal de reprovação. - De qualquer forma, eu me lembro bem do que o livro fala. É Falls, a namorada do personagem principal, quem fala sobre a comunicação e como isto pode revelar como nos relacionamos com as pessoas. Olha só o que diz Falls:

? Voltando ao que eu queria dizer, esse pensador, Martin Buber falava de dois modos de expressão entre as pessoas. Ele falava da comunicação, entende? A comunicação se expressa de duas formas. EU-TU e EU-ISSO. O EU-ISSO é usado em nossas relações com o mundo das coisas. Essa é a minha casa. EU-ISSO, entende? O EU-TU são nossas relações com seres humanos. Eu quero passar o resto de minha vida com você. EU-TU.

- Certo. Então você quer dizer que a relação entre Lindembergue e Heloá chegou à esta condição de eu-isso? - Schopenhauer começou a pensar sobre isso. - Realmente, faz sentido, mas, como eu disse ali em cima, isso tudo foi causado pelo gênio da espécie. Explico: o amor não existe; o que existe é a vontade da vida se perpetuar noutro ser, num terceiro ser, e isso é o que faz surgir a admiração por alguém. Explicar tooodo o mecanismo seria um tanto enfadonho agora, portanto, fico por aqui, só para apresentar minha conclusão: Lindembergue não merece nenhum tipo de punição, apesar dos pais deles merecerem pelo péssimo gosto ao escolher o nome do filho; ele está sendo movido por algo que é maior que ele, maior que todos os desejos dele. Afinal, o que pintam todos os poetas e depois chamam de amor é, tão somente, algo que é transcendente a eles e, portanto, não podem entender em sua plenitude. Porém, o amor acaba quando ele realiza seu desejo: criar um terceiro indivíduo.

- Schop, te digo mais: Nietzsche concordaria contigo quanto a isso de não punir o cara - exclamou Hetz - já que o Bigode disse, em Assim Falou Zaratustra:

Sempre se viu só, como o autor de um
ato. Eu considero isso loucura; a
exceção converteu?se para ele em
regra.

Então, os três se olharam, olhavam para a TV, e Schopenhauer disse:

- Muito bom, gente, mas, agora, eu tô afim é de assistir o jogo. Tá pra começar.

Misquoted
Creative Commons License photo credit: quinn.anya

Feliz dia do Bigode fnord

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You Say You Want a Revolution

por rev. Beraldo em 2 outubro, 2008

ao som do álbum The Beatles

Entre nós, homens do cotidiano, meros mortais fadados a viver a rotina exata de nossos pais, existem homens para os quais a vida trata-se de transformar nosso planeta que só é azul para quem vê de fora no próprio Éden, nos Campos Elísios, na Cocanha. Assistidos por uma ideologia e coragem, esses guerreiros da justiça e da mudança, da revolução, marcham em direção às Anacrônicas & Moralistas instituições que controlam nossa vida, com as armas em riste, prontos para destruir aquilo que nos oprime, para libertar-nos da tendência existencialista que esse mundo provoca, para salvar-nos, enfim!

Certo, você me pegou. É mentira.

Não existem salvadores, homens de coragem empunhando qualquer tipo de arma, não existem homens-bomba infiltrados nessas instituições velhacas prontos para implodí-las. Schopenhauer sustentava a idéia de que esse mundo não é lá grande coisa pelo simples fato de que queremos a vida eterna - mas num paraíso! Guiando os menos românticos e niilistas, porém, há um velho ensinamento: podemos não mudar o mundo, mas vamos nos divertir tentando.

Revoluções Silenciosas

É desconhecido de grande parte de nós - principalmente pelo fato de que, devido à subversão que é característica desses atos, os meios de comunicação não divulgam - que muitos atos criminosos que podem ser chamados de arte acontecem por aí. Não falo de pixações de muros ou coisas análogas: falo de obras-de-arte cuja matéria-prima é o “mundo lá fora”, a cidade. Algumas pessoas chamam esse tipo de ação de intervenção urbana; o objetivo: chocar; a tese: o choque, causado por situações totalmente diversas do cotidiano ou absurdamente amorais e loucas, é a ferramenta da mudança. Mostrando o absurdo daquilo que fazemos todo o dia, repetidamente, e demonstrando que é possível viver fora desse padrão, todo o paradigma de vida imposto é quebrado, e a nova visão prevalece, encantando as pessoas.

A idéia principal é reinventar o ambiente urbano - como, por exemplo, quando o coletivo Don Quijote adesivou as placas de trânsito em São Paulo. Outras vezes a manifestação é mais crítica, ácida. Quando sentimentos repulsa por algo, é porque ele nos incomoda; porém, esse incômodo pode ser, muito bem, problema nosso, e não erro de fora. Racistas sentem incômodo, mas isso é um problemas dele, e não do alvo de seu racismo.

Fora essa reinvenção das cidades, há mais coisa em jogo. O atual sistema é alienante, e isso é do conhecimento geral entre as pessoas com um pouco de instrução; aquilo que nos cerca está, a todo o momento, imperativamente subjulgando nossa individualidade em função de um “bem comum” - que nós mantenhamos o mercado consumidor ativo, por exemplo.

Enquanto passamos os olhos pela vida como sempre, entre a melancolia e o desespero, existem pessoas preparando artefatos, imagens e situações absurdas, que nos libertariam quando nos deparássemos com elas. E a mídia, sendo imediatista, caso divulgue esses atos, irá fazê-lo tachando-os de vandalismo, já que um olhar demorado e ponderado sobre isso é não só complicado de fazer como de transmitir. Porém, as poucos, mais e mais pessoas vão tomando contato com as idéias por trás daquilo que é subversivo, criminoso, e acabam por reproduzir as mesmas ações em suas cidades, dedicando-se a viver e tomar de volta o espaço que não deveria nem ser público, nem privado - apenas ser, e servir a todos.

A revolução é, portanto, muito mais subjetiva que objetiva. Mudar a si mesmo e ao espaço à sua volta, segundo grupos como o citado acima, é revolucionar com resultados não só imediatos como práticos, e que acabam por influenciar muita gente.

“O mindfuck nosso de cada dia nos dai hoje” ou “We’d all love to change your head”

O mais interessante nisso tudo é que esses grupos - comumente chamados de “coletivos” - estão a todo o momento trocando idéias, informações, fotos, planejando mais ações. São movidos não só pela vontade de revolucionar silenciosamente, mas também pela vontade de se divertir. Essa troca de informações acontece num fluxo constante, e permite que, cada vez mais, novas ações sejam praticadas.

Na Espanha surgiu a idéia do yomango; yomango, em espanhol, é uma palavra composta por “yo”, “eu”, e “mango”, uma gíria para “roubar”. Com a tese de que as empresas sintetizam nossos sonhos em produtos, esse grupo começou apenas a “tomar de volta” os desejos roubados - sem pagar nada por isso, já que as empresas não pagaram pelos desejos que tomaram. Porém, somente é permitido se roubar de grandes coorporações; roubar de pequenos comerciantes é considerado errado, já que este tem tantas condições financeiras quanto quem rouba, e é um alvo muito mais fácil que megastores. A idéia, por mais absurda que possa parecer, não pode ser descartada: ela se espalhou pela Europa, chegou ao Brasil, e é praticada pelo mundo todo. Como invalidar um movimento que é assimilado e praticado por muitos? Ora, uma reflexão mais aprofundada deixa bem claro que há uma motivação, uma descrença no mundo, uma vontade de mudar - e já.

Leiam sobre Provos. Leiam sobre o Manual Prático de Delinqüência Juvenil. Procurem saber o que acontece na sua cidade, no seu estado; façam sua parte na revolução do cotidiano, ou pelos menos não se alienem a isso; podem acabar sendo engolidos pela vida sem graça e rotineira. Afinal, não acham que Schopenhauer estava certo quando disse que esse é um mundo onde a vida eterna seria uma condenação? Irônico ou mentiroso é aquele que responder “não”!

uma boa desculpa nossa
Creative Commons License photo credit: julianadiehl

rev. Beraldo escreve na Cabala Cavalo-de-Pau de Éris & Tzara, e foi recentemente convidado a escrever para o 1001 Gatos de Schrödinger. Esta é a primeira postagem de muitas; espero que tenham gostado. :)

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