Carta aberta à Charlie Kaufman

Há anos Sr. Kaufman que eu venho escrevendo e reescrevendo esta carta. Finalmente, graças ao apoio de amigos e familiares eu criei coragem de publicá-la.

Quando o Sr. lançou “Quero Ser John Malkovitch” em 1999 eu tinha apenas 13 anos e não percebi na época o plano sórdido que o Sr. começara a fazer. Eu tinha 13 anos pelo amor de Éris, como pôde fazer algo assim comigo? Todos acham que aquilo de entrar na cabeça de outra pessoa é só uma brincadeira, mas nós sabemos não sabemos Sr. Kaufman que não é totalmente mentira. Não daria para fazer um filme sobre um roteirista que entra na mente de um garoto de 13 anos brasileiro, certo? Mas por quê continuar entrando e usando a minha, MINHA, maldita vida como material para seus filmes?

Em 2001 saiu “A Natureza Quase Humana” você deu uma ou outra esquivada, mas mesmo assim usou…Justo aquilo! Não conseguiria descrever a dor minha e de meus familiares ao ver que o Sr. uaou justo aquilo em seu filme. E as pessoas riem!

Em 2002 veio “Confissões de Uma Mente Perigosa” onde você teve que adaptar um livro então não precisou usar a minha vida. Ah…Mas teve “Adaptação” e nós dois sabemos exatamente do que estamos falando. Na verdade eu achei no mínimo irônico você ter se colocado lá e criado até mesmo um irmão gêmeo Donald, gostei da forma como o Sr. zombou do fato de que o Pato Donald era meu amigo de infância. Obrigado por ter zombado o meu conto policial que escrevi para a aula de redação, como você o chamou mesmo? “The 3″, certo? Não podia ter citado o título original “The 5″? O enredo é o mesmo, os clichés e a coisa de “não há nada mais manjado do que…”.

Se você me odeia, simplesmente deixe de entrar na droga da minha cabeça Sr. Kaufman pois eu não gostei de ver o que o Sr. fez com meus pensamentos em “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”. Foi em 2004 que o Sr. mostou ao mundo como eu me porto com mulheres naquela cena da estação, fez o favor de dizer que eu “me apaixono por qualquer mulher que me dê um mínimo de atenção”. Eu me lembro perfeitamente do dia em que ponderei sobre existir alguma agência que eliminasse memórias das pessoas, o Sr. também afinal estava lá. Lembro de que na minha imaginação se chamava “Lethe Inc” que é o rio do esquecimento do mundo dos mortos gregos. Mas você sempre tem que mudar os nomes, talvez isso o faça se sentir como se estivesse realmente criando algo e não roubando da mente de alguém, certo?

Hoje, após 8 anos dessa estranha relação, eu lhe peço Sr. Kaufman, PARE DE ENTRAR NA MINHA MENTE! Não me use como modelo para seus enredos, não faço piada com a minha vida!

[tags]carta aberta,Charlie Kaufman, Ficcionáutica[/tags]

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