Contra a Blogosfera

Blogosfera. É a palavra que usa-se para definir o conjunto de blogs existentes. Segundo o “State of the Blogosphere 2008“, desde 2002 o Technorati já indexou 133 milhões de blogs. Como isso é um número assustador em todos os sentidos, é necessário fazer algumas ressalvas quanto ao seu uso. A ferramenta que conhecemos por blog é usada de formas diferentes com propósitos diferentes por indivíduos. Para alguns é uma forma de expressar seus sentimentos, publicar suas poesias de merda ou dizer aos outros como se bloga, outros apenas pegam o conteúdo de outro e lucra com isso. Por isso detesto ouvir coisas como “a blogosfera está X”, “a blogosfera em 2008 conseguiu Y”.

Eles estão quase sempre referindo-se a um grupo bem pequeno de blogs, talvez 200 deles e não à todos. Pois, diferente de conceitos como “biosfera”, “ionosfera”, os blogs não formam um sistema coeso. Não estão todos interligados. Existem verdadeiras oligarquias de blogs, rebanhos e até um “senso comum” dos blogueiros que caso você não compartilhe, está fora. O problema mesmo é quase tudo o que ouço falar de blogs, blogosfera, whatever, não passa de truthiness.

Postagens para preencher o espaço-tempo

Infelizmente, cada vez mais, eu tenho me deparado com postagens que classifico como “postagens para preencher o espaço tempo”. Parte do senso comum dos criadores de conteúdo da “blogosfera” imbui nele uma espécie de necessidade de ter algo a dizer, mesmo quando não há nada para se dizer. Há muitas pessoas que desenvolvem “sistemas de blogagem”, eu mesmo faço isso, o problema é quando o seu sistema pede “x postagens por dia” e a pessoa faz as x postagens sejam elas relevantes ou não.

Postagens para preencher o espaço-tempo preenchem um espaço no blog e determinado tempo. Enchem linguiça, para ser mais claro. Há um método simples: Se você for postar algo sempre tente imaginar se aquilo fará alguém dizer “isto é novo”, “isto é bom”, “isso tem valor”, “visite o blog para mais”, “não sabia disso” ou mesmo um “Uau!”. Se você não considera que alguém diria isso ou te linkaria para seus blogs então as chances são grandes de que você apenas gastou mais um pouco tempo precioso de nossas vidas.

Agora caímos em um beco sem saída autocrítico: Não acredito que haja conteúdo ruim. Há público para qualquer tipo de conteúdo, a internet nos ensinou. Da mais vã estupidez no YouTube até o pornô mais bizarro. Logo, talvez essas postagens agradam alguns, mas permaneço considerando que a longo prazo e para leitores frequentes, este tipo de postagem tende a ser danoso.

Meta blogs

Esta é uma “meta postagem”. Uma postagem falando sobre postagens. Às vezes eu acho interessante. Adoro metalinguagem na ficção, mas o pessoal extrapolou pra valer com os blogs. Há todo um gênero que fala apenas de blogs, como fazer blogs, como ganhar dinheiro com blogs, como blogs salvaram minha vida, como blogs falam de blogs.

O grande problema é que eles educam toda uma leva de pessoas que tentará replicar aquelas estratégias citadas lá, o que interfere na criação do blog, positiva ou negativamente. Além de ser uma completa furada seguir manuais, eles recaem mais cedo ou mais tarde no mesmo tipo de armadilha que os mercados caíram e criou-se a atual crise econômica. E isso é uma tendência cognitiva inerente em nossas mentes (mas que podemos evitar).

Li sobre isso em uma entrevista publicada na Folha no caderno Mais! neste domingo, Gary Marcus, o autor do livro “Kluge“, disse:

Como espécie, nós somos muito vulneráveis àquilo que chamamos de “jogos de pareamento mental”. Quando vemos uma pessoa ganhando dinheiro, supomos que, se fizermos a mesma coisa, vai dar certo. As pessoas não se dão conta de que os recursos são limitados e nenhum desses planos pode funcionar para sempre.

Aconteceu isso na crise das empresas ponto-com e agora está acontecendo com a crise das hipotecas “subprime”. Em nenhuma delas as pessoas pararam para pensar se o dinheiro teria de acabar alguma hora. Os primeiros a entrarem no plano podem mesmo ter feito dinheiro, mas as pessoas no fim da linha não vão conseguir, por que os recursos vão se acabar.

Então, o modelo dos meta blogs é ainda mais sacana: mesmo sem terem consciência disso, eles se aproveitam de uma tendência cognitiva inata nas pessoas e vendem as idéias e estratégias que com o tempo colocam tantos no ecossistema de renda dos blogs que por fim acaba o danificando.

Por fim recomendo a todos que façam exercícios e se alimentem bem, afinal a “blogosfera” não passa de pessoas. E são elas o que realmente importa no final.

Leia sobre blogs:
Blogs: Revolucionando os Meios de Comunicação
Segredos Públicos: os blogs de mulheres no Brasil
Blog Marketing

15 comentários para “Contra a Blogosfera”

  1. Santaum disse:

    Em santaum.org boa parte dos assuntos não têm muita utilidade. É apenas diversão, principalmente em se tratando de inutilidade. Veja só, faço muitas coisas “úteis” na minha realidade (estudando, trabalhando, etc), na concepção dos outros, e busco a “inutilidade” para me divertir, também na concepção dos outros, hehehehehe….. O que não quer dizer também que a “inutilidade” não tenha relevância pra mim. Pelo contrário, hehehehehe. Só tenho a ganhar.

    Grande abraço, ao som de Ravi Shankar!!!!! (5 exclamações)

  2. Sorete disse:

    Se é para se autopromover e demonstrar que não faz parte da manada de internautas seguidores de tendências, deixarei aqui também o endereço do que participo.
    Farei isto rápido pois esta área logo se tornará um recurso para propagandas, e desejo o meu no topo delas, já que meu empenho deve de algum modo ser valorizado e recompensado.
    Usarei este último parágrafo para lisonjar seu(s) blog(s).

  3. Lukas disse:

    Bloguemos todos! E daí que haja blogs inúteis? Não somos obrigados a lê-los.

  4. Nanci disse:

    Eu tenho um blog a quase 2 anos e meio. Nunca quis publicidade, mídia, nem quis ser um ícone da blogosfera. Blogo porque gosto, porque é bom para mim e também fiz amizades muito bacanas graças ao blog.

    Existe sim uma alta hierarquia, que aparece em jornais, revistas e televisão, até. É uma hierarquia que a mídia colabora para que exista. Mas eu não me importo, dou até parabéns, fazer sucesso com seu blog assim, entre quase 200 milhões de outros de fato é um mérito.

    O que me aporrinha são os que deitam e rolam com esse sucesso, ou se distanciam do leitor comum, virando uma espécie de semi-deus do Olimpo. Seu leitor é seu amigo, ponto. E merece respeito, afinal, perde cinco ou dez minutos da sua vida lendo e/ou comentando em seu blog. Ou divulgando para amigos.

    Eu sou uma blogueira lugar-comum e isso me deixa feliz. De verdade.

  5. Alexandre disse:

    Ter um blog não é retorno certo de lucro. Se for pensar assim, qualquer um que abrisse uma loja também se daria bem e não é bem assim que acontece. Na minha opinião a grande utilidade dos blogs é para se ter mais uma fonte de informação, seja ela útil ou não.

  6. Enrique disse:

    “Pois, diferente de conceitos como “biosfera”, “ionosfera”, os blogs não formam um sistema coeso.” Disse tudo. Sempre que eu leio algo sobre a blogosfera, me dá vontade de perguntar “mas que blogosfera?”. Ainda mais aqui no Brasil, apesar de todo o alarde, ainda acredito que estamos engatinhando nessa história de blogs. Sim, existe um número enorme de blogs “papa-visita”, milhões de blogs “copy-and-paste”, um sem número de metablogs que acabam não adicionando nada…mas os blogs que realmente importam são poucos, no máximo uns 200, como você mesmo disse. Talvez eu esteja errado, mas ainda não temos uma grande comunidade de blogs…temos pequenas comunidades, algumas já consolidadas, outras se formando agora, mas não existe ainda uma grande união entre elas, a ponto de se poder falar em “blogosfera”. Acredito que isso mude com o tempo, ou pelo menos melhore, mas até lá eu prefiro chamar a blogosfera de blogopontinho =P.

  7. Evandro Cesar disse:

    Só passei para dizer: MUITO bem escrito seu texto Ibrahim.
    Quanto a sua análise concordo totalmente, embora acho que discordo de algo mas no momento não me veio nada ;)
    PS: o tema está muito bom

  8. [...] eu assino eu percebi que já existia uma duas ou três postagens sobre meta-postagem mas foi a do Ibrahim que me fez pensar nisso tudo de [...]

  9. São conceitos que só percebemos após certo tempo de uso dos blogs, no entanto a replicagem se dá para que os que estão entrando na fila agora não caiam nas mesmas redes ruins que um dia caímos. Mas tenho que confessar que ultimamente as regrinhas já não me fazem mais a cabeça e tenho tentado seguir do meu jeito, siga os conselhos quem quiser, se erra, o problema é de quem tentou.

  10. Bruno Alves disse:

    Ibrahim, eu possuo um meta-blog, razoavelmente conhecido e discordo da generalização feita, da mesma maneira que colocar todos os blogs na blogosfera é complicado, tratar todos os meta-blogs como farinha do mesmo saco está errado.

    Possuo um meta-blog, em primeiro lugar, porque gosto muito de blogs, assim como um músico têm uma grande tendência de terem blogs sobre música. Além disso, trabalho com blogs, então, passar o que aprendi ao longo desses anos, me faz muito bem.

    Não conheço nenhum meta-blog sério que pregue que é fácil fazer dinheiro e sucesso com um blog, porém, infelizmente, as pessoas só registram o que querem.

    Abraço

    • Ibrahim Cesar disse:

      Não leio seu blog. Quando falei disse de todos os que tinha contato. Toda opinião de alguém é limitada ao seu conhecimento do assunto, assim como a minha, achava não ser necessário dizer isso pois para mim está implicito na leitura de qualquer texto. Dos x que eu conheço x eram das forma que descrevi, logo a generalização funcionava para mim.

  11. Lucas Pereira disse:

    Ibrahim,

    Acho que o teu texto foi muito coerente e na maior parte dele tem bons argumentos (ao contrário da maioria dos textos em blogs que, quando vão criticar, saem falando que determinada coisa é ruim, pois é boba, feia e chata).

    Discordo sobre a “não existência da blogosfera”, como é pregado. Acho que ela é exatamente o que se diz. Não é um grupo coeso, homogêneo, mas é um grupo ligado por uma característica em comum: ser/ter blogs.

    Blogosfera foi um termo criado para rotular determinado grupo. Nem todo roqueiro usa roupas pretas, correntes e bandanas, mas se gosta de rock acima de todos os gêneros musicais, é roqueiro.

    E não vejo problema com os blogs “copy-paste”, contanto que eles citem o(a) autor(a) do texto, e façam o link para a postagem original. Afinal, essa é a origem dos blogs: usuários escrevendo sobre e/ou indicando o conteúdo web que eles acharam relevante.

    E o leitor nunca levará a sério esses blogs, mas poderá conhecer o lugar de onde eles tiram os textos, e passar a acompanhar os verdadeiros autores.

    E quanto aos meta-blogs, acho que eles têm uma grande importância. Eles servem para ensinar os novatos a fazerem um blog, e relatar as experiências bem sucedidas (ou não… fracassos também são ótimos exemplos). Pessoas que só copiarem a “fórmula”, provavelmente será mal-sucedida. Mas são blogs muito úteis para alguém se inspirar. Vê como deu certo, usa a criatividade e melhora a solução apresentada.

    Uma das ótimas coisas dos blogs é que o usuário pode reclamar do post, do blog e do autor de várias formas: seja nos comentários, ferramentas sociais ou mesmo criando um blog.

    O maior problema que vejo nos meta-blogs (na blogosfera brasileira) é que, em muitos casos, eles são a caricatura da mania do brasileiro de todos serem técnicos da seleção: Todo mundo sabe de tudo, como diz o Jô, todos sabem do cocô à bomba atômica.

    Muito se discute o que foi feito na blogosfera, ou como deveria ser feito, e pouca energia e dedicação se gasta na inovação ou no aperfeiçoamento das coisas que já estão dando certo.

    Abraços.

  12. Diego Cabral disse:

    Achei o texto de ótimo bom gosto, e que retrata realmente muito bem como são as coisas dentro deste meio. Acredito que os meta blogs eles devam mostrar a realidade e não vender idéias pré-programadas de que você terá riqueza, fama ou o que seja só por ter um blog. Eu leio há algum tempo o Blosque e o considero muito bom, nunca me vendeu a idéia de facilidade (deixando claro que estou falando apenas por mim).
    Não tenho um blog no momento, mas tenho planos, e acho que os meta blogs são importantes para que as pessoas possam aprender algumas técnicas. Mas, como foi dito, acho que o bom senso tanto de quem escreve quanto de quem lê devem estar presentes dentro disto.

    Uma coisa que me deixou realmente intrigado, na verdade, foi o comentário escrito logo acima, pelo @Lucas Pereira:

    “Blogosfera foi um termo criado para rotular determinado grupo. Nem todo roqueiro usa roupas pretas, correntes e bandanas, mas se gosta de rock acima de todos os gêneros musicais, é roqueiro.”

    Que a Blogosfera foi um termo criado para rotular um determinado grupo é uma afirmação correta. Porém, você está misturando coisas muito diferentes. Roqueiro, Metaleiro, Gótico não são realmente estilos de música, mas sim estilos de vida, que não estão ligados em totalidade com os estilos músicais provenientes. Blogueiro é um estilo de vida? Sim concordo, pois denota parte de uma forma de expressão e cria então um grupo, que é denominado blogosfera. Agora dizer que todos que escutam rock são roqueiros, isto é uma inverdade. Roqueiros são os que compões músicas e tocam rock e, em um termo mais geral, aqueles que seguem o estilo de vida igual ao desses compositores e musicistas.
    Senão daqui a pouco, todos que lêem blogs serão considerados blogueiros (é uma frase ridícula, mas é um comparativo que, denominada a sua afirmação sobre o rock, é totalmente válida). Afinal eu escuto rock e metal e não sou nem roqueiro e nem metaleiro.

    Desculpem este mero off topic, e parabéns ao Ibrahim, que demonstrou muito bem como são as coisas, principalmente que falta muito bom senso na Blogosfera, o que faz pensar se, realmente, este termo tem um fundamento real ou é mera balela.

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