Dorothy Parker
É uma pena que tão poucas obras de Dorothy Parker tenham sido traduzidas no Brasil ou estejam disponíveis atualmente. Ele é daquele tipo de personalidade que marcava todos, tantos que correm muitas lendas por aí sobre ela. Um de seus desafetos foi Clare Booth Luce, mulher do editor da revista Time, uma vez quando lhe disseram que sua rival era gentil com seus inferiores, Dorothy perguntou: “Mas onde ela os encontra?”. É dela também uma das menores resenhas já feitas, publicada na Esquire: “Este não é um livro para ser deixado casualmente de lado. É para ser atirado longe com toda a força”.
Uma poesia de Álvaro de Campos afirma: “Todas as cartas de amor são ridículas”. Ao examinar alguns maneirismos, olhares, diálogos e briguinhas sem sentido acho que podemos expandir o conceito para “Todos os que amam são ridículos”. Uma mostra dessa ridicularidade pode ser encontrada nesta pequena obra de Dorothy, Um Telefonema. Que jogue a primeira pedra aquele que não se reconhecer em uma ou outra linha (jogue as pedra nos comentários, por favor, caso contrário poderá quebrar o monitor de seu computador). Aproveito que notem o humor que essa gema traz, não apenas na agonia ridícula de uma boba apaixonada, mas na falta de resposta de suas preces, o silêncio de godot, e uma certa menção à Lei dos Cinco.
Um Telefonema
De Dorothy Parker
POR FAVOR, meu Deus, faça ele me telefonar agora. Querido Deus, faça ele me telefonar agora. Não peço mais nada, juro, não peço. Não é muito o que peço. Isso seria tão pouco pra você, Deus, uma coisinha de nada. Só faça ele me telefonar agora. Por favor, Deus. Por favor, por favor, por favor.
É a última vez que vou olhar para o relógio. Não vou olhar de novo. São sete e dez. Ele me falou que telefonaria às cinco. “Eu te ligo às cinco, querida.” Acho que foi quando ele falou “querida”. Tenho quase certeza de que foi quando ele falou. Sei que ele me chamou de querida duas vezes, e na outra foi quando ele disse até logo. “Até logo, querida.” Ele estava ocupado, e não podia falar muito no escritório, mas me chamou de “querida” duas vezes. Ele não deve ter se importado com o meu telefonema. Sei que não devemos ficar ligando para eles – sei que eles não gostam disso. Quando a gente faz isso eles percebem que ficamos pensando neles e esperando por eles, e eles têm ódio disso. Mas fazia três dias que eu não falava com ele – nada em três dias. E eu só queria perguntar como ele vai; como qualquer outra pessoa ligando para ele. Ele não deve ter se importado com isso. Ele não deve ter pensado que eu o estava aborrecendo. “É claro que não”, ele disse. E aí falou que ia me ligar. Ele não precisava dizer isso. Eu não pedi, realmente não pedi. Tenho certeza de que não. Acho que ele não ia dizer que me telefonaria se não tivesse a intenção de telefonar. Por favor, não deixe ele ficar sem me ligar, Deus. Por favor, não deixe.
“Eu te ligo às cinco, querida.” “Até logo, querida.” Ele estava ocupado, numa correria, e tinha gente perto, mas ele me chamou de “querida” duas vezes. Isso é meu, isso é meu. Ganhei isso, mesmo que nunca mais o veja de novo. Oh, mas é tão pouco. Não é suficiente. Nada vai ser suficiente, se eu nunca mais o ver novamente. Por favor, me deixe vê-lo de novo, Deus. Por favor, eu o quero tanto. Eu o quero tanto. Vou ser boa, Deus. Tentarei ser melhor, tentarei, se você me deixar vê-lo de novo. Se você fizer ele me telefonar. Oh, faça ele me telefonar agora.
Ah, não deixe minha prece parecer tão insignificante para você, Deus. Você fica aí sentado, tão branco e tão velho, com todos esses anjos e estrelas flutuando em volta. E eu vou até você com um pedido por um telefonema. Ah, não ria, Deus. Você vê, você não sabe como é sentir isso. Você está tão seguro aí no seu trono, com todo esse azul girando embaixo. Nada pode tocar você; ninguém pode triturar seu coração desse jeito. Isto é sofrimento, Deus, isto é sofrimento ruim, ruim. Não vai me socorrer? Pelo amor de seu Filho, me ajude. Você falou que faria qualquer coisa que fosse pedido em nome Dele. Oh, Deus, em nome de vosso único filho muito amado, Jesus Cristo, nosso Senhor, faça com que ele me telefone agora.
Preciso parar com isso. Não posso continuar desse jeito. Olhe. Imagine se um rapaz diz que vai ligar a uma garota, e então alguma coisa acontece e ele não liga. Não é assim tão terrível, é? Está acontecendo no mundo inteiro, neste minuto. Oh, que me importa o que está acontecendo no resto do mundo. Por que esse telefone não pode tocar? Por que não pode? Por que não pode? Você não pode ligar? Ah, por favor, não pode? Seu desgraçado, horroroso, lindo. Ia custar muito me ligar, não é? Oh, ia custar muito. Dane-se, vou arrancar esse telefone da parede, vou quebrar esse merda de aparelho preto em pedacinhos. Vá para o inferno.
Não, não, não. Tenho de parar. Preciso pensar sobre outra coisa. É isso que eu vou fazer. Vou colocar o relógio no outro quarto. Assim não fico olhando. Se eu tiver de olhar as horas, então vou ter de ir no quarto, e será alguma coisa para fazer. Talvez, antes que eu vá olhar o relógio de novo, ele me ligue. Vou ser tão doce com ele, se me ligar. Se ele me disser que não pode me ver hoje à noite, vou dizer: “Ora, está tudo bem, querido. É claro que tudo bem”. Vou ser do mesmo jeito que era quando nos encontramos pela primeira vez. Então quem sabe ele goste de mim de novo. Eu era sempre doce, no começo. Oh, é tão fácil ser doce com as pessoas antes de se apaixonar por elas.
Acho que ele deve gostar um pouco de mim ainda. Ele não teria me chamado de “querida” duas vezes hoje, se ainda não gostasse de mim um pouco; mesmo que seja só um pouco, bem pouquinho. Está vendo só, Deus, se você fizesse ele me telefonar, eu não teria de pedir a você mais nada. Eu seria doce com ele, seria alegre, seria do jeito que era antes, e então ele iria me amar de novo. E então eu nunca mais teria de pedir nada a você. Você não vê, Deus? Então por que não faz ele me telefonar? Faz? Por favor, por favor, por favor?
Está me castigando, Deus, porque tenho sido má? Você está zangado comigo porque fiz aquilo? Mas Deus, tem tanta gente ruim – você não pode ser duro só comigo. E não foi por maldade, não pode ter sido. Nós não magoamos ninguém, Deus. As coisas são más quando ferem as pessoas. Nós não prejudicamos uma única alma; você sabe disso. Você sabe que não foi por maldade, não sabe, Deus? Então por que não faz com que ele me telefone agora?
Se ele não me telefonar, vou saber que Deus está bravo comigo. Vou contar até quinhentos de cinco em cinco e se ele não me ligar então vou saber que Deus não vai me ajudar, nunca mais. Vai ser o sinal. Cinco, dez, quinze, vinte, vinte e cinco, trinta, trinta e cinco, quarenta, quarenta e cinco, cinqüenta, cinqüenta e cinco… Foi mal. Sei que foi mal. Certo, Deus, me mande para o inferno. Você pensa que me amedronta com seu inferno, não é? Você pensa. Seu inferno nem se compara com o meu.
Não devo. Não devo fazer isso. Vai ver ele só se atrasou um pouco para me ligar – não é para ficar histérica. Quem sabe ele nem vai ligar – quem sabe está vindo direto pra cá sem me telefonar antes. Ele vai ficar zangado se perceber que andei chorando. Eles não gostam que a gente chore. Ele não chora. Queria que Deus o fizesse chorar. Queria fazer ele chorar, e ficar se arrastando pelo chão, com o coração que nem chumbo dentro do peito. Queria ser capaz de magoar ele muito, muito.
Ele não me deseja. Acho que ele nem sabe como me faz sentir. Queria que ele soubesse, sem que eu precisasse dizer. Eles não gostam que a gente diga que eles fizeram a gente chorar. Não gostam que a gente diga que está infeliz por causa deles. Se a gente faz isso, eles acham que somos possessivas e exigentes. E aí ficam odiando a gente. Eles odeiam a gente sempre que falamos o que realmente pensamos. Às vezes a gente tem de fingir. Oh, pensei que não precisássemos disso; pensei que a gente se amava tanto que eu poderia dizer fosse o que fosse. Mas estou vendo que a gente não pode. Estou vendo que não há nada tão grande assim para que a gente possa falar o que sente. Oh, se ele pelo menos me telefonasse, eu não diria que tenho me sentido doente por causa ele. Eles odeiam pessoas doentes. Eu seria tão doce e tão alegre que ele não teria outro remédio senão gostar de mim. Se ao menos ele me telefonasse. Se ao menos telefonasse.
Vai ver é o que ele está fazendo. Vai ver ele está vindo para cá sem me ligar antes. Talvez esteja agora a caminho. Alguma coisa deve ter acontecido. Não, nada pode acontecer com ele. Nem posso imaginar alguma coisa acontecendo com ele. Não posso nunca imaginar ele morrendo. Nem pensar nele estendido, frio e morto. Queria que ele estivesse morto. Esse é um desejo horrível. É um desejo delicioso. Se ele estivesse morto, seria meu. Se estivesse morto, eu não pensaria sobre agora e sobre as últimas semanas. Eu me lembraria apenas dos tempos bons. Seria tudo lindo. Queria que ele estivesse morto. Queria que ele estivesse morto, morto, morto.
Isso é idiotice. É idiotice ficar desejando que as pessoas morram só porque não ligaram pra gente no exato minuto que falaram que iam ligar. Vai ver o relógio está adiantado, não sei se está certo. Quem sabe ele está muito atrasado e tudo o mais. Alguma coisa deve tê-lo atrasado um pouco. Talvez ele tenha precisado ficar no escritório. Talvez ele tenha ido para casa, para me ligar de lá, e alguém chegou. Ele não gosta de me telefonar na frente das pessoas. Talvez ele esteja preocupado, um pouquinho, bem pouquinho, por ter me deixado esperando. Ele deve estar esperando que eu ligue. Eu poderia. Eu poderia telefonar para ele.
Não devo. Não devo, não devo. Oh, Deus, por favor, não permita que eu telefone para ele. Por favor, me deixe longe disso. Eu sei, Deus, do mesmo jeito que você, que se ele estivesse preocupado comigo, teria telefonado, não importa de que lugar ou de quantas pessoas estivessem por perto. Por favor, me faça entender isso, Deus. Não pedi que VOCÊ facilitasse as coisas para mim – você não pode, mesmo tendo criado o mundo. Só permita que eu saiba disso, Deus. Não me deixe cair em tentação. Não me deixe ficar me enganando. Por favor não me deixe ter esperança, querido Deus. Por favor não deixe.
Não vou telefonar para ele. Jamais vou telefonar para ele de novo enquanto for viva. Ele vai queimar no fogo do inferno antes que eu ligue. Você não precisa me dar força, Deus; eu já tenho o suficiente. Se ele me quisesse, me teria. Ele sabe onde me encontrar. Ele sabe que estou aqui esperando. Ele é tão seguro de mim, tão seguro. Queria saber por que eles passam a nos odiar assim que ficam seguros da gente. Eu achava que era tão bom ter segurança quanto a uma pessoa.
Seria tão fácil telefonar para ele. Então eu saberia. Talvez não seja uma tolice fazer isso. Talvez ele não se importe. Talvez até goste. Talvez ele esteja tentando me ligar. Algumas vezes as pessoas tentam e tentam chamar a gente no telefone e dizem que o número não responde. Não estou dizendo isso para me consolar, isso realmente acontece. Você sabe que acontece, Deus. Oh, Deus, me deixe longe desse telefone. Me deixe longe. Me permita ter um restinho de orgulho. Acho que vou precisar disso, Deus. Acho que vai ser tudo que vai me sobrar.
Oh, que importa orgulho, se não agüento ficar sem falar com ele? Orgulho como esse é tão idiota, uma coisa tão insignificante. O orgulho verdadeiro, o grande orgulho é não ter orgulho nenhum. Não estou dizendo isso porque quero ligar para ele. Não estou. É verdade, sei que é verdade. Vou ser grande. Vou ficar acima desses pequenos orgulhos.
Por favor, Deus, não permita que eu telefone para ele. Por favor, Deus.
Não sei que orgulho pode existir nisso. É uma coisa tão à toa para eu estar pensando em orgulho, para eu estar fazendo tanta confusão a respeito. Devo ter entendido mal. Vai ver ele disse para eu ligar às cinco. “Me ligue às cinco, querida.” Ele pode perfeitamente ter dito isso. É bem possível que eu não tenha escutado direito. “Me ligue às cinco, querida.” Estou quase certa de que foi isso que ele falou. Deus, não permita que eu fale assim comigo de novo. Me faça saber, por favor, me faça saber.
Vou pensar sobre outra coisa qualquer. Vou simplesmente ficar sentada, quieta. Se eu pudesse ficar parada. Se eu pudesse ficar parada. Talvez eu consiga ler. Oh, todos esses livros são sobre gente que se ama de verdade. Por que sempre querem escrever sobre isso? Não sabem que não é verdade? Não sabem que é mentira, uma maldita mentira? Por que todo mundo tem de ficar falando disso, se sabem como isso machuca? Malditos, malditos, malditos.
Não vou ler. Vou ficar quieta. Nada de ficar agitada por causa disso. Olhe. Imagine que ele fosse alguém que eu não conhecesse muito bem. Suponha que ele fosse outra garota. Então eu simplesmente telefonaria e diria “bem, pelo amor de deus, o que aconteceu com você?” Era o que eu faria, e nem pensaria mais no assunto. Por que não posso ser natural, só porque o amo? Eu posso ser. Honestamente, eu posso ser. Vou ligar, e vai ser fácil e gostoso. Você vai ver se não vou, Deus. Oh, não me permita ligar. Não permita, não permita.
Deus, você realmente não vai fazer ele me ligar? Tem certeza, Deus? Não poderia reconsiderar? Não? Não peço que seja agora neste minuto, Deus; só faça ele me ligar daqui a pouco. Vou contar até quinhentos de cinco em cinco. Vou fazer isso bem devagar sem pular nenhum número. Se quando acabar ele não tiver telefonado, vou ligar. Vou. Oh, por favor, querido Deus, querido e bom Deus, meu abençoado Pai Que Estás no Céu, faça com que ele ligue antes disso. Por favor, Deus, por favor.
Cinco, dez, quinze, vinte, vinte e cinco, trinta, trinta e cinco…
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Comments
Fazem anos que tomei conhecimento da personalidade forte e humor feroz de Dorothy Parker..
Porém, hj eu estava me lembrando de um conto dela que li, chamado “A Valsa”, que me encantou profundamente, pela forma inteligente e divertida como o escreveu.. Apesar de tantos anos terem se passado, o que ela escreve é o que se passa em nossa cabeça.. rssss
Parabéns pela sua iniciativa de manter viva a personalidade desta incrível mulher.
Aliás, sabe como posso conseguir o conto “A Valsa”?? Estou procurando na net, mas infelizmente sem sucesso..
Abraços”!

MARAVILHOSOOO!!!!!!!!!! Ótima mostra natural da paranóia feminina! Arrasou!
Resolvi mostrar ao meu marido, que diz agora ter ainda mais medo de mim do que antes… rs
AMEI!