Trecho de um texto de João Pereira Coutinho publicado na Folha sob o título “Não existem homossexuais” que serve tanto para “denunciar” uma atitude como entender como funciona qualquer tipo de preconceito e por que eles são totalmente imbecis.
NÃO CONHEÇO homossexuais. Nem um para mostrar. Amigos meus dizem que existem. Outros dizem que são. Eu coço a cabeça e investigo: dois olhos, duas mãos, duas pernas. Um ser humano como outro qualquer. Mas eles recusam pertencer ao único gênero que interessa, o humano. E falam do “homossexual” como algumas crianças falam de fadas ou duendes. Mas os homossexuais existem?
A desconfiança deve ser atribuída a um insuspeito na matéria. Falo de Gore Vidal, que roubou o conceito a outro, Tennessee Williams: “homossexual” é adjetivo, não substantivo. Concordo, subscrevo. Não existe o “homossexual”. Existem atos homossexuais. E atos heterossexuais. Eu próprio, confesso, sou culpado de praticar os segundos (menos do que gostaria, é certo). E parte da humanidade pratica os primeiros. Mas acreditar que um adjetivo se converte em substantivo é uma forma de moralismo pela via errada. É elevar o sexo a condição identitária. Sou como ser humano o que faço na minha cama. Aberrante, não?
Uns anos atrás, aliás, comprei brigas feias na imprensa portuguesa por afirmar o óbvio: ter orgulho da sexualidade é como ter orgulho da cor da pele. Ilógico. Se a orientação sexual é um fato tão natural como a pigmentação dermatológica, não há nada de que ter orgulho. Podemos sentir orgulho da carreira que fomos construindo: do livro que escrevemos, da música que compusemos. O orgulho pressupõe mérito. E o mérito pressupõe escolha. Na sexualidade, não há escolha.
O argumento, basta usar um pouco a massa cerebral, pode ser expandida ao gosto do freguês, para cariocas, paulistas, judeus, negros, gaúchos…
[tags]Preconceito, Desinformação, semântica[/tags]
9 comments ↓
Concordo em gênero, número e degrau.
Todo preconceito é burro, já em seu nascedouro, visto que é uma analise superficial de uma possivel realidade, ainda não comprovada. OU seja, não podemos julgar pela aparencia.
A reportagem é simplesmente brilhante.
Na metade do post já pensei em comentar que isso se aplica aos judeus também, mas ao final você já disse isso hehe, de qualquer forma matéria interessante, a forma como falou é o que os próprios judeus acabam falando deles mesmos “não sou brasileiro, polonês, alemão, sou antes de tudo judeu” é ilógico, para não falar ridículo, esse texto me deu alguns argumentos que não havia pensado por mim mesmo (extendendo ele para outras áreas).
Faz sentido. Não ter vergonha da sua etnia é compreensível, é uma atitude contra o preconceito, mas ter orgulho dela de fato é um exagero. u.u
Cara,
Eu sempre falo essa frase. Sempre mesmo.
“O orgulho pressupõe mérito. E o mérito pressupõe escolha.”
Sempre digo que não dá para ter orgulho por algo que você não escolheu.
Como eu posso ter orgulho de ser amazonense, se não fui eu quem escolheu isso?
Se eu puder escolher, teria ido mesmo nessa opção?
Quando eu falo isso para meus amigos, me olham como se eu fosse um ET que estivesse matando a mãe com um machado.
Porque?
O que tem de errado com esse modo de pensar?
Saudações.
Ta aí, Jota, se analisar logicamente nada, mas seus amigos são a representação de como o “senso comum” vê a questão.
Eu acho que o problema é mais embaixo. Não gosto nem um pouco quando alguém, se dizendo heterossexual, vem reclamar de guetos como coisa de homossexuais. A tendência ao gueto, no sentido da separação, é uma idéia que surgiu na idade média, justamente da igreja católica, branca e heterossexual, dos que se diziam “normais” e foi apoiada pela própria ciência durante todo o século XIX quando o homossexualismo foi associado a doença. Foram os “normais” (heterossexuais) que criaram a exclusão, e com ele o gueto. Sou plenamente a favor da idéia da eliminação dos guetos, mas vir com a conversa de que são os homossexuais que criam sua própria exclusão é muita cara de pau!
O conceito de arte gay só existe por que a própria sociedade “normal” trata toda arte que foge a esses padrões como coisa “estranha”, “curiosidade” ou “escandalosa”. Ou os vários bares de adolescentes “ditos normais” não são também, no sentido da exclusão, guetos? Ou mesmo os shoppings onde beijo gay é tratado como coisa escandalosa, não são eles guetos heterossexuais? Se você observar a quantidade de guetos heterossexuais é ENORME. E não é uma tendência apenas gay a de se isolar no mundinho só de gays. A grande maioria da sociedade hetrossexual faz o mesmo a séculos! Alias o ambiente público, pelo menos no Brasil, ainda é um gueto heterossexual. Dos dois lados são poucos os que transitam livremente pelos dois guetos.
Já que o português que fez esse texto é heterossexual e se ele quer falar contra a exclusão seria, no mínimo mais honesto fazer o texto como segue (que é quase o mesmo, mas bastante diferente):
Não existem heterossexuais
Acreditar que um adjetivo se converte em substantivo é uma forma de moralismo pela via errada
NÿO CONHEÿO heterossexuais. Nem um para mostrar. Amigos meus dizem que existem. Outros dizem que são. Eu coço a cabeça e investigo: dois olhos, duas mãos, duas pernas. Um ser humano como outro qualquer. Mas eles recusam pertencer ao único gênero que interessa, o humano. E falam do “heterossexual” como algumas crianças falam de fadas ou duendes. Mas os heterossexuais existem?
A desconfiança deve ser atribuída a um insuspeito na matéria. Falo de Gore Vidal, que roubou o conceito a outro, Tennessee Williams: “heterossexual” é adjetivo, não substantivo. Concordo, subscrevo. Não existe o “heterossexual”. Existem atos heterossexuais. E atos homossexuais. Eu próprio, confesso, sou culpado de praticar os segundos (menos do que gostaria, é certo) (será que estou sendo orgulhoso ao declarar isso?). E parte da humanidade pratica os primeiros. Mas acreditar que um adjetivo se converte em substantivo é uma forma de moralismo pela via errada. ÿ elevar o sexo à condição identitária. Sou como ser humano o que faço na minha cama. Aberrante, não?
Uns anos atrás, aliás, comprei brigas feias na imprensa portuguesa por afirmar o óbvio: ter orgulho da sexualidade é como ter orgulho da cor da pele. lógico. Se a orientação sexual é um fato tão natural como a pigmentação dermatológica, não há nada de que ter orgulho. ÿ ilógico, por exemplo, um rapaz, depois de ter a sua primeira transa com uma menina, ficar com orgulho, pensando que agora já é um homem! ÿ ilógico o orgulho de muitos homens ao se manifestarem em bom som: ?Eu sou é homem!? (em referência à sua sexualidade) ou mesmo o abominável ?eu sou é espada?. Podemos sentir orgulho da carreira que fomos construindo: do livro que escrevemos, da música que compusemos. O orgulho pressupõe mérito. E o mérito pressupõe escolha. Na sexualidade, não há escolha.
Infelizmente, o mundo não concorda. Os heterossexuais existem e, mais, existe uma forma de vida hetero com sua literatura, sua arte. Seu cinema. Muitas lojas de locação de vídeo, por exemplo, criam uma sessão ?romance? quando na verdade querem dizer ?romance heterossexual.. Não é caso único. Muitos festivais de cinema tratam toda obra cinematográfica que não mostre o sexo de forma puramente heterossexual como escândalo ou imoralidade ou, no mínimo ?curiosidade?.
Estranho. Olhando para a história da arte ocidental, é possível divisar obras que versaram sobre o amor entre pessoas de sexos diferentes. A arte greco-latina tem muitos exemplos de obras com pulsões heterossexuais. Mas só um analfabeto fala em “arte grega heterossexual” ou “arte romana heterossexual”. Já após a idade média essa tendência de substantivar a sexualidade foi ao ápice. Pintar o amor se transformou em sinônimo de pintar o amor heterossexual. Ai do artista que tentasse pintar um outro amor!
A arte não tem gênero. Tem talento ou falta de.
E, já agora, tem bom senso ou falta de. Definir uma obra de arte pela orientação sexual dos personagens retratados não é apenas um caso de filistinismo cultural. ÿ encerrar um quadro, um livro ou um filme no gueto ideológico das patrulhas. Exatamente como acontece com as próprias patrulhas, que transformam um fato natural em programa de exclusão. De auto-exclusão.
Eu, se fosse “heterossexual”, sentiria certa ofensa se reduzissem a minha personalidade à inclinação (simbólica) do meu pênis. Mas eu prometo perguntar a um “heterossexual” verdadeiro o que ele pensa sobre o assunto, caso eu consiga encontrar um no planeta Terra.
[...] são empáticos, amorosos e sensíveis. Eles não têm algum tipo de preconceito e conseguem as vezes ser mais “humanos” que nós. Alimentar bebês de outra [...]
Condordo com o que diz respeito à imposição de rótulos. Mas o que me incomoda é a citação de que gays se ‘auto excluem’. Claro, para o autor que se declarou heterosexual, não é nada fácil entender o que se sente e o que se passa na cabeça de um gay quando sofre discriminação. A tendência óbvia é se isolar. “Antes só que mal acompanhado”, não é?
Não é certo fazer isso, pois não ajuda em nada para a aceitação, mas é algo natural querer se recolher diante da hipocrisia das pessoas. Não dá vontade de conviver com elas, ainda mais num mundo aonde nenhum gay é representado - a n ser, claro, numa novelinha da Globo.
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