Maiêutica

“Em princípio achei estranho viver entre os azande e ouvir suas ingênuas explicações de infortúnios que, para nós, têm causas evidentes. Depois de certo tempo aprendi a lógica do seu pensamento e passei a aplicar noções de feitiçaria de forma tão espontânea quanto eles mesmos, nas situações em que o conceito era relevante. Um menino bateu o pé num pequeno toco de madeira que estava em seu caminho — coisa que acontece freqüentemente na África –, e a ferida doía e incomodava. O corte era no dedão e era impossível mantê-lo limpo. Inflamou. Ele afirmou que bateu o dedo no toco por causa da feitiçaria. Como era meu hábito argumentar com os azande e criticar suas declarações, foi o que eu fiz. Disse ao garoto que ele batera o pé no toco de madeira porque ele havia sido descuidado, e que o toco não havia sido colocado no caminho por feitiçaria, pois ele ali crescera naturalmente. Ele concordou que a feitiçaria não era responsável pelo fato de o toco estar no seu caminho, mas acrescentou que ele tinha os seus olhos bem abertos para evitar tocos — como, na verdade, os azande fazem cuidadosamente — e que se ele não tivesse sido enfeitiçado ele teria visto o toco. Como argumento final para comprovar o seu ponto de vista ele acrescentou que cortes não demoram dias e dias para cicatrizar, mas que, ao contrário, cicatrizam rapidamente, pois esta é a natureza dos cortes. Por que, então, sua ferida teria inflamado e permanecido aberta se não houvesse feitiçaria atrás dela?”
(E. E. Evans-Pritchard em “Witchcrafts, Oracles and Magic among the Azande”)

Independente de sua crença ou falta de crença, você leu o texto acima e deve ter gargalhado das explicações ingênuas dos “azande” para fenômenos que a nossa ciência “prova”, assim como o escritor deste excerto. Porém, daqui a alguns anos, com certeza haverá gente rindo da nossa “ignorância” com uma nova filosofia baseada em outras premissas.

Já parou pra pensar nisso?

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Comments

e como já pensei nisso! aliás, a história é repleta de acontecimentos semelhantes… evolução ué! rs

[]s

(Parabéns pelo blog. Conheci por um post do Ênio fazendo companha para a manutenção do Mal Vicioso)

Ei, te convidei prum meme… dá uma passada no dT (Documento Tupiniquim) depois…

[]s

“Any sufficiently advanced technology is indistinguishable from magic.” Arthur C. Clarke

Uma frase que já ouvi, e que faz sentido neste contexto, diz que milagres são simplesmente fenômenos naturais que ainda não foram explicados.
Acho que é bem por aí. Não conheço o restante desse texto, mas se o narrador limpou a ferida e fez um curativo, a mesma cicatrizou, e ele se mostrou para os azande como um “poderoso feiticeiro”.

Lembrei de uma aula de biologia do cursinho, 3 anos atrás. Aula sobre teorias de evolução. O professor comenta: “Hoje vocês estão dando risada de como eles pensavam. Futuramente outros poderão dar risadas do que nós pensamos ser verdade.”

Apesar de ter um conhecimento sobre os mecanismos envolvidos na inflamação, ainda acho tudo muito “fictício”. Não sei se se distingue tanto da magia que eles falaram. Claro que foi provado a existência de muita coisa, no entanto muito continua inexplicável.
São os caminhos da evolução (ou o que pensamos ser).

“os milagres não acontecem em contradição com a natureza, mas apenas em contradiçao com o que conhecemos dela.” (santo agostinho”.

Logo não seriam milagres por que seriam apenas fenômenos da natureza.

Não sei o motivo do sucesso de Agostinho que fazia o que queria com a lógica. Tal definição de milagre parece bonitinha mas é uma contradição em termos com o próprio vocábulo de milagre.

E por qual motivo fenômenos da natureza, não podem ser milagres???
só por haver uma forma de explicá-los???
milagres não precisam ser misteriosos,
não precisam acontecer de forma assustadora ou inesplicável.
Os céticos tem sempre essa visão psedo realista das situações, não conseguem mesmo enxergar muito distante…

escrevendo rápido…
corrigindo ‘”nexplicavel” e “pseudo realista” e não inesplicavel e psedo realista
abraços

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