Matadouro 5, Kurt Vonnegut

Fui comprar um livro para presentear um amigo quando vi dezenas de pocket books, um em cima do outro, com as lombadas viradas, como se não quisessem ser comprados. Não estava em uma livraria tradicional, mas em uma loja tradicional de minha cidade que vende mangás, quadrinhos, animês, Cd’s, camisetas pretas e é também um sebo e vende livros diferenciados. E havia a pilha de pocket books.

Acabei comprando dois: um do Woody Allen, que já havia lido ao pegá-lo empretado da biblioteca. Tive vontade de nunca mais devolver, mas meu senso cívico sempre vence (ainda planejo doar um volume do meu livro para essa mesma biblioteca). E o outro foi um livrinho que sempre ouvi falar mas não havia lido, nem mesmo nada do autor: “Matadouro 5″, de Kurt Vonnegut.

Hoje eu sei que eu continuaria sem ler ele até aquele momento. Aprendi isso com Billy e o pessoal de Trafalmador.

Um dos resultados imediatos de ler o livro: “Coisas da Vida”, uma expressão usada repetidas vezes ao longo do livro, já faz parte até mesmo do meu pensamento.

Billy aprende o modo de enxergar a vida e a morte dos tralfamadorianos. Para eles, uma pessoa não morre, só parece morrer. Ela está morta apenas naquele momento. Em todos os outros, em seu passado, está viva. Então ninguém fica triste por uma morte – são apenas coisas da vida (uma expressão repetida por todo o livro). Basta olhar para trás, para outro episódio da vida, e se transportar para lá. A vida é não-linear em Tralfamador. Billy é um dos poucos terrestres que compartilham essa capacidade, e ele passa toda a vida (e o livro) viajando no tempo. Sabe como vai morrer. Sabe que vai sofrer um acidente de helicóptero e sobreviver, e que sua mulher vai morrer envenenada. Se quiser fugir do sofrimento, basta fechar os olhos e se transportar pra um momento feliz. É a grande sacada do livro, uma alfinetada naqueles que buscam maneiras de aplacar o pesadelo da morte. (daqui)

Um livro sensacional. Meu personagem predileto foi o escritor de ficção científica com suas tramas mirabolantes, Kilgore Trout, que pelo que li aparece em outras obras do autor. Um trecho hilário é o encontro entre Kilgore e Maggie. O autor resolve inventar uma trama sem pé nem cabeça sobre algum livro que ele escreveu. Veja o trecho:

- Isso realmente aconteceu? – perguntou Maggie White.
Ela era uma pessoa sem graça, mas um convite sensacional para se fazer um filho. Os homens olhavam para ela e queriam enchê-la de filhos imediatamente. Ela ainda não havia tido um bebê. Usava métodos anticoncepcionais.
- Claro que sim – Trout lhe disse. – Se eu escrevesse uma história que não aconteceu de verdade e tentasse vendê-la, iria preso. Isso é fraude.
Maggie acreditou nele.
- Nunca pensei nisso antes.
- Pense nisso agora.
- É como propaganda. É preciso dizer a verdade na propaganda, senão dá problema.
- Exatamente. É o mesmo tipo de lei que se aplica em ambos os casos.

Espero encontrar outros livros do Vonnegut, que dia 11 de Abril completará um ano de falecimento. Fica aqui a dica de leitura.


Creative Commons License crédito: 1f2frfbf. Kurt Vonnegut (1922-2007)

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11 comentários para “Matadouro 5, Kurt Vonnegut”

  1. Me chamou a atenção isso q vc escreveu sobre o Kurt Vonnegut. Me pareceu bem surreal, o tipo de coisa que gosto.

  2. Rev. Beraldo disse:

    Estou lendo um livro da coleção Primeiros Passos chamado O que é a música. É dum tal de J. Jota de Moraes, algo assim… Estou achando fantástico.

    Quando acabar de ler, vou postar algo na minha cabala… E obrigado por recomendar o livro!

  3. Ibrahim Cesar disse:

    Ele está mais para humor negro e sarcasmo do que surreal, mas há elementos nonsense na obra.

  4. Reverendo Johnny P. disse:

    Vonnegut é foda.

  5. Humm, uma grande amiga me mandou ler. Agora um me recomenda. Bem. Perhaps eu não tenha escolha (*giggles*)

  6. Ibrahim Cesar disse:

    Peterson, como teria escolha, se é Matadouro CINCO? É apenas uma questão de tempo. Conforme-se.

  7. Ernani C. Siebert disse:

    Esse vai pra “pilha de leitura”. Mas falando sério, uma coisa que tah aborrecendo aqui no blog eu acho q são essas “hotwords” que confundem a atrapalham o texto durante a leitura camufladas de “links úteis”. Eles ao menos dão algum dinheiro? Não tem como fazer essas coisinhas chatas desaparecerem?

  8. Ibrahim Cesar disse:

    Estou pensando nisso Ernani. Na verdade só coloquei de tanto me encherem o saco. Vou tentar atingir o mínimo de pagamento (depois de três meses ainda não consegui) e me livrar deles.

  9. Rui Silva disse:

    Dava muito trabalho recuperar o título original?
    - Matadouro 5, ou a cruzada das crianças

  10. Rui Silva disse:

    Fique com o que entender, já aprecio que o cite, embora agora e só agora o tenha escrito completo , como sempre acontecera e como sempre acontecerá. Um Abraço

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