Meu retiro espiritual

Não acho que alguém aqui conheça Araguari. Talvez tenha ouvido falar, por causa da piada imbecil contada há muito tempo por Alexandre Pires e recentemente, no programa do Jô pela Vanessa da Mata, sobre as “4 cidades com B de Minas“.
Araguari é uma cidade minúscula, quente e seca pra caramba (o que trona respirar muito difícil para alguém que tem rinite, como eu), e se você olhar na página da Wikipédia, o maior sub-artigo é o das distâncias até outras cidades. Eu tenho que adimitir que não é um lugar muito divertido, mas Araguari não é uma bosta como os dois músicos(?) afirmaram (e eu concordava tempos atrás). Araguari se tornou neste verão meu retiro espiritual.
É lá que mora a minha avó paterna, que simplesmente faz o melhor bife do mundo. Deve ser a forma dela de compensar os presentes que me dá. Não que sejam ruins, mas não sei se ela pensa que eu devia me casar ou sei lá, pois de uns 3 anos pra cá, já ganhei uma panela de fazer pipoca, várias toalhas, jogos de cama e alguns eletrodomésticos de pequeno porte. Eu me surpreendi quando, no último dia das crianças, ganhei um roller! Acho que ela às vezes pensa que eu tenho a idade da minha prima, que mora com ela. Isso fica claro quando ela me leva nas Pernambucanas (que junto com o Magazine Luiza, forma uma espécie de point diurno pros araguarinos) e ou me mostra roupas pra uma menina de 8 anos, ou pra velhas de 80. Mas o bife… ah, o bife! com feijão de caldo bem grosso feito em fogão a lenha compensam. Sem contar o bolo de fubá que comi da última vez que estive lá, há uma semana.
Viciados em internet não são aconselhados a viajar para Araguari. Pelo que disseram, parece que é algo bem recente a chegada de adsl na cidade, e nem todas as ruas (e pela -minha- ira de Éris, a rua dos meus avós) têm capacidade pra suportar a instalação. Meu primo não só tem um Windows, como ele é lerdo e a internet é discada. E nem é pseudo-boa tipo a que eu tinha antes da banda-larga, que raramente caía. Foi a primeira vez que percebi como o Unix mudou minha meneira de ver o mundo, ao menos o virtual. Que eu odiava mais que tudo a internet a manivela - principalmente o barulho irritante que ela faz - eu já sabia há bastante tempo.
Decidi que o tempo que passaria lá não seria gasto me estressando e começando a produzir rugas que emergiriam daqui a 20 anos, e sim, longe do computador o máximo possível. Iria resguardar minha alma para o papel. Produzi bastante, por sinal. Avancei na escrita do meu romance, li Harry Potter 7 (talvez devesse ter esperado mais para ler… não consigo aceitar o fim) e comecei “O Teorema do Papagaio”, um livro de ficção que conta a história da matemática e parece bem legal.
Também brinquei de Polly (certas coisas nunca mudam. Ainda prafiro a Barbie) com a minha prima e uma vizinha que chegava em casa de manhã e só ia embora depois de jantar, pra que elas parassem de encher e escrevi mais ainda. Só saí de casa pra patinar, ajudar meu pai a comprar um All-star, comprar uma havaiana nova, já que a Marrie comeu a minha, comprar comida pra Marrie (não, ela não comeu meu chinelo porque tava com fome. Ela come coisas de borracha estando ou não alimentada) e ir ao supermercado.
Quando voltei pra Sampa, toda a criatividade que só cessava quando minhas pálpebras pesavam ou os músculos da mão não aguentavam mais acabou. Tenho internet - ainda com a “janela” estúpida (aliás, não seria isso pleonasmo?), mas só sei que trocaria meu capuccino solúvel e as milhões de vezes que estou escutando “She don’t lie, she don’t lie, she don’t lie… Cocaine!”, ainda de pijama, por voltar lá e terminar esse bendito livro de uma vez! E comer o pão de queijo divino que uma amiga da minha vó faz
Acho que isso é mais que prova de que, às vezes, o que você procura está nas pequenas coisas (ou pequenas cidades), onde seu celular não tem área, o acesso a internet é precário e você brinca de boneca e anda de patins com sua prima menor. Mas como todos sabem, felicidade é uma sensação curtíssima. Por isso Araguari nunca será mais que meu ocasional endereço de férias, muitíssimo obrigada.






















6 comentários para “Meu retiro espiritual”
É cara, boa sorte.. mas eu sou um que evitar ter que ir por livre e espontânea obrigação pra qualquer lugar onde eu não possa tocar qualquer pc com internet…
Todo feriado da Semana Santa passo em Araguari-MG e Uberlândia-MG (festas de aniversário de formatura).
Confesso que é difícil achar uma cidade com tanta mulher bonita igual aquela.
Grande abraço.
Confesso que me sinto atraído por um final mais macabro de Harry Potter, mas pelamordevocêmesma, Éris, o livro é fantástico!! O melhor de todos.
E o pior é o quinto. Quê cê acha?
eu concordo 100% sobre o 5!
Mas ainda gosto mais do 3.. tenho um elo emocional muito grande com o Sirius.
Esse último é definitivamente o livro mais emocionante que eu já li!
É incrível o quanto estamos nos tornando cada vez mais viciados em tecnologia. Esse texto sobre uma viagem para Araguari nos mostra isso.
Imagino que daqui a alguns anos as crianças terão sensores para serem monitoradas pelos pais enquanto brincam nas calçadas. Estamos perdendo a liberdade, ou melhor estamos nos aprisionando num mundo fantasioso, onde tudo parece simples, rápido e eficaz.
Aos poucos vamos pagando o preço de confundir felicidade com praticidade, de deixar que essas invenções modernas e até úteis substituam o tempo que poderíamos ter para as coisas simples e para as “cidades pequenas” de nossa alma.
obrigado pelo texto
araguari fica (bem) perto da minha cidade, Uberlândia, mas não sabia que internet e essas coisinhas ainda fossem um pouco difíceis lá. vezes acho que deveria me incluir mais, outras acho melhor fechar minha boca e abafar todas as minhas discordâncias. cidades pequenas podem ser maravilhosas e inspirantes, mas pelo menos pra mim, depende muito de quem estiver nela e da tranquilidade que me fazem sentir