Muitos porquês

Quando alguém pergunta “Por que…” ele pode obter várias e inúmeras respostas dependendo de qual seja a pergunta. Não estamos interessados em saber qual a resposta, mas em como se responde a esta pergunta. Segundo Charles Tilly há pelo menos 5 formas de responder uma pergunta, e elas são:

  1. Convenção; ÿ o senso comum sendo utilizado como máxima irrevogável. Apresenta falhas óbvias de argumentação (Nem sempre o senso comum está correto, por exemplo, o senso comum em Cabul diz que as mulheres não podem dirigir carros e ponto final), mas por ser “familiar” é usualmente aceita como resposta para a maior parte das perguntas. Outras vezes peca pela profundidade , mas sempre é bem convicente (Houve inundação pois choveu muito).
  2. Explicação Técnica; ÿ a boa e velha explicação dos cientistas na televisão ou de um técnico falando sobre um desabamento. Empregando-se de jargão técnico e com um raciocínio mais correto, porém é dificilmente levado em conta em qualquer debate onde moral e ética sejam a grande disputa, pois como toda boa ciência, um discurso técnico nunca é uma opinião definitiva sobre determinado assunto (Na discussão do aborto, por exemplo, de pouco ou nada adianta uma explicação de quando a vida começa pois é considerado assassinato aos olhos de [sic] deus).
  3. Códigos; ÿ quando se invoca regras, códigos morais universais, leis e regras implícitas que são evocadas e terminam por não explicar nada, pois sua função é encontrar culpados, nomeando seus crimes e erros através de tais códigos. ÿ praticamente uma manobra de discurso onde ao utilizá-la você tenta desacreditar todo o outro discurso (Você poderia dizer que o aborto é proibido pelas leis federais do país e em muitas culturas e que há um bom motivo para isso, o que, subentende-se que você está errado, é um pecador, etc).
  4. Ritualísticas; ÿ a invocação de poderes sobrenaturais, religiosos ou de qualquer outra explicação que exoneram quaisquer culpa ou motivação humana.Pode até mesmo vir em conjunto com outras explicações (Por exemplo, um técnico poderia dizer como uma barragem rompeu com a fúria da água e depois afirmar que não havia forma da inundação ter sido evitada pois a força água atingiu proporções gigantescas), no entanto é mais comum vê-la em frases simples e estúpidas por reduzirem tudo a apenas um fator (AIDS é a fúria de deus contra os pecadores).
  5. Narrativas; Neste tipo de explicação contamos uma história, há é claro, grandes falhas neste tipo de explicação: Através de uma história particular espera-se retirar conclusões que façam sentido universalmente ou manipula-se a narrativa para que esta leve a conclusões que se espera obter (Um exemplo clássico: Regina, 27 anos, uma menina feliz, estudou muito para chegar a este dia em que ela descobriu o câncer. Ou chegaria. Regina foi abortada por sua mãe e jamais nasceu, etc), o que não descarta usos legítimos do método (Outro exemplo clássico: Usa-se histórias de jovens e seus destinos trágicos ao se envolverem com drogas, prostituição, etc a fim de educar os jovens).

Grande parte das discussões e desacordos são causados, única e exclusivamente, por que ambos os lados apóiam suas teses em cima de uma dessas formas. Em uma postagem recente falei sobre o ódio que certas pessoas manifestam aos usuário do IE ( Que poderia-se enquadrar em uma Narrativa, estava contando uma história de pessoas odiando pessoas apenas por usarem um software diferente do que elas usam), e as defesas? Vieram basicamente na forma de Explicação Técnica, por mais que eu e eles estejamos certos, jamais atingimos um consenso, aquele ponto em que você acredita haver um meio termo e se sente satisfeito com as respostas.

Schopenhauer em “A Arte de Ter Razão” não havia divido as explicações desta forma, mas disse que quando acabam-se os argumentos, você deve se valer de insultos. Mas por favor, ao insultar alguém tenham a elegância de Schopenhauer, leiam o livro dele sobre isso, e não mandem as pessoas simplesmente comerem fezes utilizando-se de um argumento manjado usado pelos ateus que até eles têm vergonha de usar.

Toda divisão categórica pode ser alvo de crítica e aprimoramento, mas por mais que não esteja correta, esta classificação de Tilly para as nossas respostas ajuda a entender melhor o que causa e sustenta tantas celeumas, um simples problema na forma como cada um interpreta e explica um problema.

Para Saber Mais:
A Arte de Ter Razão, Schopenhauer
A Arte de Insultar, Schopenhauer
O livro “Why?” de Charles Tilly que ainda não teve uma tradução, pode ser adquirido na Amazon.

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3 comentários para “Muitos porquês”

  1. Tiago Madeira disse:

    Ah… Eu tô querendo muito ler esse A Arte de Insultar. Eu adorei A Arte de ter razão… Quando eu comprar vou comprar no seu link… ;)

  2. Te aviso que Schopenhauer não propriamente ensina a “arte de insultar”, mas insulta a tudo e a todos. ÿ mais uma compilação por tópicos de insultos dele, que era um mestre no quesito. Eu acho imperdível, um dos livros que mais me dão prazer naqueles dias que você adoraria saber que uma guerra nuclear acabou de começar.

  3. Dos Porques, o que eu mais gosto é o PorqueVeio.com

    Desculpa Revendedor…não pude me conter!

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