Qualquer atitude preconceituosa já demonstra em si mesma uma carência de pensamento. Por quê? Anulamos toda a singularidade de um indivíduo e o passamos a ver como um daqueles soldados do cientista maluco que ficam cinco minutos na tela até algum galã hollywoodiano enchê-lo de balas e ficar com a mocinha no final. Passamos a vê-lo como um esteriótipo. Passamos a usar um mapa.

Acredito que as palavras “emo” e “mano” evoquem em diferentes pessoas diversas conotações. Em alguns orgulho, em outros ódio e na maioria, inveja. Temos em nossa mente um mapa perfeito de como estes são, como agem, estilo de fala, gostos, etc. Criado pela mídia, opinião de pessoas próprias e a própria mistificação da ignorância do outro. Mas são mapas. E o mapa não é o território. São mapas que nos dizem que “toda mulher dirige mal” e que “homens não choram”.

Não escrevo isso pensando em dizer: “Não use o mapa”. Segundo a psicologia evolutiva, desenvolvemos este pequeno “julgador através da aparência” em algum ponto em que começamos a nos organizar socialmente. Ficaria muito difícil eu dizer: “Ei pessoal, ignorem os mapas e aceitem todos de braços abertos!”. Eu gostaria que assim fosse, de verdade. Mas uma vez eu fui assaltado por um sujeito que vestia bermuda do Corinthians e camisa do Racionais Mc’s. Enquanto eu lhe dava meu dinheiro, pensava: “Você tinha que ser tão clichê? Por que não um cara de gravata ou um sujeito de óculos?”. Meu idealismo nessa questão morreu naquele dia.

O que quero aqui é aumentar a consciência de que há muitas pessoas boas por aí. E talvez seu mapa não indique que ali pode haver um tesouro, mas pode haver. Muitos blogueiros partem do pressuposto de que todo mundo ou quase todo mundo ao menos, são completos imbecis. “Pára-quedistas” é o termo que se usa no mapa para definir quem faz uma pesquisa, caí no site e espera-se clique em publicidade. O mapa do blogueiro médio (e isso é outro mapa) diz “essas pessoas não tem o mínimo de discernimento, vão entrar e clicar”. Prefiro não pensar nisso. Vejo quem sabe, uma dentista entrando na internet através de fotos de um artista que ela gosta muito e acabando clicando em uma propaganda para hotéis em Salvador já que ela irá passar o Carnaval por lá. Não vejo onde o imbecil se aplica no contexto acima.

Nós, do 1001 Gatos, sempre apostamos na inteligência do leitor. Acho que se existe algo que nos diferencia dos outros é isso. Sempre gostamos de acreditar que os mapas nem sempre estão certos e que uma boa exploração pode nos levar a paisagens maravilhosas. Não digo que não há os imbecis. Eles existem e aos montes. E não apenas lendo blogs, mas também os escrevendo. E digo isso com certa dose de culpa. Por isso, lembrem-se: O Mapa não é o Território.


14 Comments on “O Mapa não é o Território”

You can track this conversation through its atom feed.

  1. Enio Luiz Vedovello disse:

    Apenas para ilustrar mais “geograficamente” sua exposição acima (com a qual concordo totalmente desde que a li no Tao Te Ching), um mapa de uma cidade pode indicar a existência de uma “praça” que seja pouco mais do que um terreno baldio abandonado, e pode mostrar como uma simples “rua” uma bela alameda arborizada e cheia de jardins coloridos e bem cuidados. Sempre vale a pena a aventura. E, quando o “mapa” envolve pessoas, esta aventura é ainda mais fascinante.

  2. Henrique Wint disse:

    É como comentávamos numa comunidade do orkut que eu participava:
    “Nem todo raper é bandido, mas todo bandido é raper” e boa parte também é corintiano (:P)

  3. Francisco disse:

    Bem, alguem ja disse ” em algum lugar do deserto se esconde uma fonte”.
    Toda humanidade vive presa a paradigmas, no macro ou no micro, é necessario examina-los continuamente.
    Gostaria que fosse como Pessoa falou:
    “Não basta abrir a janela
    Para ver os campos e o rio.
    Não é bastante não ser cego
    Para ver as árvores e as flores.
    É preciso também não ter filosofia nenhuma.
    Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
    Há só cada um de nós, como uma cave.
    Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
    E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
    Que nunca é o que se vê quando se abre a janela”
    Mas tambem não me iludo, não sei sobre o futuro da humanidade , se chegarmos a 3000( estou sendo otimista) será por um fio(triz), quanto ao futuro do Basil… muito cuidado consigo, com seus familiares e amigos.. é tempo ruim.

  4. douglas disse:

    mais que o meu mapa diz que o escritor é um nerd e o leitor aqui esta fugindo do trabalho….isso eu tenho certeza!!!! haha

  5. Evandro disse:

    Ibrahim, penso que escrever conteúdo relevante (como esse que escreveu) é uma questão de respeito com o outro, afinal quem não gosta de aprender coisas novas?

  6. Gnoelfo disse:

    Bom, eu concordo em parte, por que eu nunca ví um emo q não seja tão… emo. Hehehehe.
    Por incrivel q pareça, mas eles são exatamente do jeito q se espera q eles sejam, ou seja, o mapa deles é identico.
    Mas enfim, o importante é tentar superar esse preconceito e encontrar algo de bom nas pessoas.

  7. Stephen Dedalus disse:

    Como você disse “apostamos na inteligência do leitor”, mas “Não digo que não há os imbecis. Eles existem e aos montes.” No entanto, o que é inteligente para um pode parecer imbecil para outro - e vice-versa. E, enfim, existe a frase “There’s a sucker born every minute”, atribuída a P.T.Barnum, um dos primeiros milionários do show business, por ele ter enriquecido com diversões de gosto duvidoso: pode haver alguma verdade nisso! (E sei lá o que eu quero dizer com isso!)

  8. astec disse:

    um dia desses tava pensando em como se formam os estereotipos, nao sei explicar direito mas eh mais ou menos isso:
    Caracteristica chamativa + Imbecil = Estereotipo
    É tipo, um imbecil que pratica jiu-jitsu e cai em todos aqueles cliches é um pitboy, um adolescente imbecil que quer chamar atenção pra sua pseudo depressao vira um emo, etc…Então, o que eu quero dizer eh que os estereotipos existem por uma razão, seja falta de personalidade ou de opção….

    e boa comporação essa dos soldados em filmes de guerra

  9. Rev. Beraldo disse:

    Eu tenho uma mania de perseguição gigantesca, Ibrahim. Por isso, quando diz “blogueiros” eu acabo me policiando um pouco sobre o que está dizendo.

    Enfim, estereótipo é um assunto fascinante, principalmente quando se tem em mente que “toda generalização é ruim”.

    O grande problema que eu enfrento quando vou falar sobre isso é que é muito fácil você criar um moda ou um grupo numa sociedade como a nossa; basta ter algum poder sobre a mídia. Isso acaba tornando muita gente extremamente estereotipada…

  10. marquinho disse:

    Texto brilhante!!!
    Mas fica uma questão:
    Como não generalizar pessoas que querem ser generalizadas???
    Se um grupo de pessoas se vestem igual, cortam o cabelo da mesma maneira, ouvem as mesmas músicas, vão aos mesmos lugares. Será que não são eles que qurem se resumir apenas nestas atitudes???
    Será que eles não buscam um lugar comum, por falta de personalidade e jogam a culpa na sociedade hipócrita?
    Temos que analisar os dois lados.

  11. Carol disse:

    talvez lhes falte amor… ou uma boa surra de arame farpado e vinagre com sal por cima!

  12. Marília disse:

    Muito pertinente sua colocação. Concordo plenamente! :Sempre me vejo tendo que soltar um “nem todo norte-americano é assim”, “nem todo argentino é assado”…

  13. Orkutcídio em Massa para Adoradores de Lasagna - Fui assaltado disse:

    [...] - Eu pensei, depois, a mesma coisa que o Ibrahim: pra “pedir” meu celular, o cara falou “entrega o baguio aí”. Não podia ser menos clichê? [...]

Leave a Reply

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>