O quê, em seguida?
O que fazer em seguida? Ninguém sabe, entretanto é o que todo mundo faz. John Lennon já havia apontado sabiamente que este é o grande problema na vida. Tente encontrar a resposta em algum lugar, com excessão do Marketing (que somente lhe dá imperativos), você dificilmente encontrará, talvez lhe digam, mas está tão perto quanto o fim do horizonte. Todas as grandes filosofias e ideologias sempre possuem um “vão”, um vácuo conceitual. Como há entre um trem e a plataforma, separando o “mundo ideal” descrito na filosofia/ideologia e o “mundo real”, que é a nossa existência ordinária. Todo grande sistema - Cristianismo, Capitalismo, Punk, Socialismo entre outros - tenta trazer, cada um à sua forma, o “céu” para a Terra, ao que se dá o nome de imanentizar o eschaton. Mas, nunca, nunca mesmo, é tão bom quanto imaginávamos. Por quê?
Falhas no sistema? Talvez, mas com a madeira torta da humanidade, já nos alertou Kant, nunca há de se fazer nada verdadeiramente reto. Se você dá o “salto de fé” de Kierkegaard e aceita um sistema em particular em todas as suas contradições, todo seu pensamento passará a obedecer a lógica interna do mesmo que pode contradizer a lógica exterior. Embora exista uma “realidade”, para todos os efeitos, cada um de nós vive em uma wikialidade (de wikiality; wiki+realidade, i.e, realidade por consenso).
Onde elas falham, arrisco dizer, são nas “pequenas coisas”, ou ainda, as tratadas como tal. “Acabem com a propriedade privada!”, ótimo se formos nos basear na igualdade entre as pessoas. Só que superficialmente já falha em três sentidos: primeiro, nas palavras de Frank Zappa, o melhor presidente que os Estados Unidos nunca teve, as pessoas gostam de ter coisas, faz parte de nossa natureza humana e ainda não estamos aptos a altera-la. A segunda é que todo ser humano busca status, e uma boa forma de tê-lo “substancialmente” é através da ostentação de bens que são propriedade privada. Terceiro e último, querer uma igualdade entre as pessoas é aspirar ao fascismo ou à monotonia. É declarar uma sociedade de castas ainda que somente haja uma.
O Cristianismo prega nos 7 pecados capitais, aqueles que são em menor ou maior escala, emoções e instintos básicos de nossa natureza animal. Lógico que dentro desse sistema nós não somos animais (mas sim, somos) pois a raça humana é a imagem e semelhança de YHVH (você não pode dizer isso). Mas entra em contradição com a nossa natureza biológica que nuca irá ficar em paz com tal crença. E o pior de tudo: Jesus estipulou que todo pensamento é ato consumado (veja um exemplo em Mateus 16: 27 & 28). Ou seja, pensou - pecou. Você pode se afastar de seus desejos animais, mas nunca conseguirá eliminá-los e com certeza, pensará neles. Pensou? Pecou. Simples assim.
O que Jesus estipula, notem, é quase como uma polícia de pensamento que coloca o crente em constante conflito pois ele é um pecador eterno o que o acorrenta à Igreja que possui, segundo diz, o monopólio da salvação em uma hipotética outra-vida.
Todas falham justamente naquilo que realmente faz sentido em nossas vidas do dia-a-dia. Queremos ter coisas, temos necessidades, azia, má digestão ou dor de dente. Ou o velho o que fazer em seguida. Na maioria das vezes nem mesmo formulamos a pergunta desta forma, pois ela sempre se adapta ao contexto. Precisamos de uma interessante filosofia ou ética das “pequenas coisas” que esteja em paz com nossa natureza, que trabalhe com as premissas dadas e faça como as presentes que criam novas regras e objetivos em um tabuleiro onde se joga outro jogo. Uma revolução no cotidiano que leve em conta os pequenos aborrecimentos que nos levam a abandonar os velhos grandes sistemas e grandes ideologias.
Então, o que fazer em seguida?
[tags] John Lennon, Ética, Sistemas[/tags]
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Comments
Por isso que Kierkegaard disse que a existência no estágio religioso é solitária. É uma lógica interna que entra em conflito com a lógica externa.
Sabe, a questão é que a existência é muito, muito irracional. Alguém já havia chegado à conclusão de que se alguém tivesse criado o universo, esse alguém seria muito burro (contaria ele com sorte?) - porque, se você pensar, existem exceções que não significam nada. O Boro, por exemplo, é o único elemento da tabela periódica que não obedece a regra do octeto. E aí?
Sabe, eu não acho exatamente que a humanidade seja uma madeira torta. O que acontece é que a racionalidade vem dos humanos e eles quando tentam encontrar uma lógica no mundo, (se forem espertos) encontram a lógica de que o universo (pelo menos o conceitual, antes que eu arranje briga com algum cientista) é ilógico. Mas aí como todo mundo precisa de um modo de viver, um sistema, nem que seja um ilógico, pra pautar sua ações, ele acaba inexoravelmente no perfeito - na plenitude daquilo tudo que ele imaginou. Se ele imagina um “sistema” ilógico, o máximo daquilo é o perfeito, o mínimo é o terrível. E eu acho que o que acontece é que o perfeito é algo chato para o humano: não que ele se direcione para o erro em si, mas é meio que uma fuga da responsabilidade enorme consigo mesmo de ser perfeito e continuar a ser perfeito, e ao mesmo tempo uma busca pela liberdade de ser imperfeito - o perfeito é um só, o imperfeito, tantos… Se restringir a um só e uma restrição que incomoda.
Bom, é o que eu penso. Mas isso irremediavelmente é falso e/ou irrelevante em outros sentidos.
Segundo os indianos, o mundo que percebemos é Maya, a ilusão. Por esta razão não conseguiríamos apreender a total verdade das coisas até atingirmos o Nirvana e nos tornarmos Buddha.
Por outro lado, levando em conta os absurdos que presenciamos o tempo todo, eu acho que a descrição que melhor se assemelha ao nosso mundo é o país das maravilhas da Alice.

Destruir as torres gêmeas?