Desafiando Chomsky
Sempre tive sentimentos mistos em relação a Noam Chomsky. Nunca pude deixar de admirar suas idéias. Sua teoria gramatical é referência e muito bem constuída. Por outro lado, nunca entendi como ele pode sempre declarar que “os Estados Unidos são a maior democracia do mundo”, levando-se em consideração o processo democrático do país e seu conservadorismo. E outras coisas.
Pois bem, faz já muito tempo que se fala dessa tribo que ao que tudo indica seria uma prova contra sua teoria, mas parece que a mídia está redescobrindo isso e trazendo a notícia ao público geral. Saiu um artigo muito interessante na Prospect Magazine que dá um panorama geral e pode ser lida em português neste link, como não sei se é preciso ser assinante do Uol para ter acesso ao texto, eu o reproduzo abaixo:
Desafiando Chomsky
Antropólogo americano que conviveu por muitos anos com tribo do Amazonas defende uma teoria que contradiz o “papa” da lingüística
Philip Oltermann
A julgar pelas notícias a seu respeito, os pirahãs são um povo de tipo comum. A seu respeito, dizem que podem ser arredios num primeiro encontro, mas que gostam de conversar e socializar, e que são “chegados” a um drinque ou dois. Ainda assim, houve ao longo dos últimos doze meses certa efervescência em torno desta pequena e obscura tribo da floresta tropical brasileira: aviões andaram pousando em sua aldeia, ao menos um por semana, trazendo equipamentos técnicos futuristas e cientistas temerários. Em julho passado, John Colapinto, um jornalista da revista “The New Yorker”, passou uma semana com eles. Em abril, a revista publicou um ensaio fotográfico de 18 páginas sobre a tribo.
A cultura tribal, é claro, não predomina apenas no Amazonas como também nos círculos acadêmicos - a percepção deste fato ajuda a entender o porquê desta agitação em torno dos pirahãs. Em 2005, o antropólogo americano Daniel Everett publicou um artigo no jornal “Current Anthropology” no qual apresentava suas descobertas sobre a vida dos pirahãs, adquiridas ao longo dos anos que ele viveu na tribo. A cultura pirahã, garantia Everett, é única: ela está totalmente voltada para a experiência imediata e carece de noções numéricas básicas, de um vocabulário para as cores, de uma conjugação no passado e de um mito da criação. Everett sugeria que a cultura pirahã é tão excepcional que a sua existência contradiz fundamentalmente as convicções as mais básicas a respeito da linguagem, e que ela pesa de modo contundente contra o homem cujas teorias conduziram a essas convicções: Noam Chomsky.
A Chomsky atribui-se geralmente a introdução da noção de uma “gramática universal” (”Universal Grammar - UG), a programação lingüística que existe em nosso cérebro e que significa que todos os humanos constroem uma linguagem de acordo com o mesmo conjunto de regras. A hipótese da “UG” é aceita pela maioria dos lingüistas, e ela escora grande número de best-sellers populares dedicados à linguagem, como “O Instinto da Linguagem”, de Steven Pinker.
Em 2002, Chomsky co-assinou um artigo com Marc Hauser e W. Tecumseh Fitch, publicado na revista “Science”, no qual a idéia é desenvolvida e aprofundada. Eles argumentam que é o conceito de “recursividade” que torna a linguagem especial. A linguagem é infinitamente expressiva, prosseguem os autores, porque nós podemos encaixar de modo infindável uma sentença numa outra: qualquer sentença a mais extensa possível pode ser aumentada acrescentando algo como “Maria acha que…” Ao passo que Daniel Everett, numa polêmica inversão, pensa que Chomsky está errado: o seu argumento é que os pirahãs não praticam a recursividade, e, portanto, não pode haver nenhuma gramática universal. E se a linguagem não fosse transmitida geneticamente e sim gerada culturalmente?
Chomsky tem sido uma figura eminente no campo da lingüística desde que ele escreveu “A Estrutura Lógica da Teoria Lingüística” em 1955. Muitos são aqueles que se ressentem do seu status de quase-guru, e a abordagem renegadora de Everett fez deste último uma figura cultuada. A julgar pelo seu artigo no “The New Yorker”, John Colapinto se apaixonou pelo lado independente, que corre por fora, de Everett: a matéria coloca Chomsky em rota de colisão com antigos seguidores, como Steven Pinker, que é citado comparando a pesquisa de Everett com “uma bomba arremessada no meio de uma festa”.
Enquanto Everett passa anos com os pirahãs no terreno, aprendendo e vivenciando a sua língua, sugere Colapinto, Chomsky teoriza mantendo-se à distância. Além disso, W. Tecumseh Fitch, um antigo colaborador de Chomsky, que estava visitando os pirahãs no mesmo momento que Colapinto, é descrito como um acadêmico fanfarrão cujo laptop dá pau toda hora, enquanto a falta de interesse dos nativos pela sua pessoa gerou uma zombaria generalizada das suas tentativas para estudá-los.
Até aqui muito bem. Mas quando eu verifico junto a Pinker, ele recua em relação a alguns dos seus comentários. Se de um lado ele ainda tem dúvidas a respeito do conceito de recursividade de Chomsky (ao qual ele respondeu em profundidade, em artigo co-assinado com Ray Jackendoff), de outro ele reconhece que mesmo se Chomsky estiver errado, isso não significa que Everett esteja certo. “De fato, quanto mais eu tenho lido e ponderado a respeito da história de Everett, quanto menos convencido fiquei”.
A tese que Everett defende em relação aos pirahãs, sugere Pinker, está longe de ser uma novidade: muitos estudiosos fizeram comentários similares a respeito dos “povos saqueadores” desde o século 19. Alfred Russel Wallace, por exemplo, fez a seguinte observação ao se referir aos nativos indonésios que ele conheceu durante as suas pesquisas no terreno: “Compare isso [a cultura européia] com as línguas selvagens, que não possuem nenhuma palavra para expressar concepções abstratas; considere a carência de projeção no futuro do selvagem… a sua incapacidade de combinar ou comparar”.
Tais abordagens não são mais encontradas nas listas de leitura das universidades, o que não quer dizer que elas sejam radicais ou novas: “Ao colocar as suas observações dentro da perspectiva de uma descoberta anti-Chomsky, e não de uma condescendência para com a visão européia centralizadora do mundo, Everett conseguiu escapar desta relativização”, explica Pinker. Num primeiro momento, a pesquisa de Everett pode ter se parecido com uma “bomba arremessada no meio de uma festa”, mas quanto mais detalhadamente você a estuda, mais ela se parece com um engodo.
O próprio Chomsky manteve-se quieto, evitando falar do assunto. Ele aconselha os seus inquiridores a fazerem uma ampla análise do artigo intitulado “Everett’s argument” (A argumentação de Everett), da autoria de Andrew Nevins, David Pesetsky e Cilene Rodrigues, que foi postado no website de lingüística “LingBuzz” em março. Afinal, admitem eles, a recursividade pode revelar ter mais variáveis do que fora previsto anteriormente, mas isso não quer dizer necessariamente que os pirahãs sejam excepcionais - de fato, um caso similar de falta de recursividade no uso de pronomes possessivos pode ser observado em alemão.
O maior problema é que Everett continua sendo o único não-pirahã a poder afirmar que ele fala e entende bem a sua língua. Enquanto outros não aprenderem esta língua, ou enquanto um dos membros da tribo não se familiarizar com a teoria lingüística, nós não teremos condições para julgar se Everett está contando lorotas para o mundo acadêmico ou se ele fez uma descoberta verdadeira.
[tags]Chomsky,Everet,Pinker,Gramática Universal[/tags]
Enquanto uns querem a separação…
…outros querem mais estados. Dica do leitor Victor Viana que colocou um link interessante de uma nota vinculada no Terra. Alguns deputados querem a criação de novos estados onde em grandes estados, falta estrutura dos governos. Na verdade o que querem mesmo é gerar mais “empregos”. Pois se existe problemas administrativos governamentais (vejam a situação da cidade do Rio de Janeiro, dominada pelo crime organizado…E olhe que a administração estadual fica exatamente lá). Para mim, se essa proposta vingar, o que vai se ter feito é que ao invés de resolverem um grande problema (ou vários grandes problemas), eles vão ter diminuido eles em pedaços menores. Diminui-se o rombo individual das partes, mas a soma de todas será a mesma.
Os novos estados, a título de curiosidade seriam:
Na região norte, os estados do Tapajós, Solimões e Carajás, além dos territórios federais do Marajó, Alto Rio Negro e Oiapoque. A Região Nordeste ganharia os Estados do Maranhão do Sul, Rio São Francisco e Gurguéia.
Aqui no sudeste, teríamos São Paulo do Leste, Minas do Norte e Triângulo. Além disso, seria recriado o Estado da Guanabara.
No centro-oeste: Araguaia, Mato Grosso do Norte e Planalto Central.
O mapa do sul não sofreria modificações. A nota termina dizendo que: “Se os projetos forem aprovados no Congresso, o assunto será levado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), responsável pelos plebiscitos, para que os moradores de cada Estado decidam a favor ou contra a divisão. Caso a população decida pela separação, a proposta será encaminhada ao Palácio do Planalto. O presidente da República, então, teria que enviar ao Congresso um projeto de lei complementar propondo a criação da nova unidade.”
O que acham disso? O Brasil teria então 39 unidades federativas e 3 territórios (não é explicado o que seriam estes territórios).
A minha opinião é de que seria apenas uma forma de lidar com os problemas os isolando. Sem resultados práticos. E vocês, o que acham?
[tags] Brasil, estados[/tags]
Poderá a arquitetura explicar a ineficiência de Brasília?
A questão me assaltou à mente após saber que o dudu tomasselli se mudou para Brasília. Lembrei de uma passagem, na página 238 de Tábula Rasa onde a capita federal é citada por ser inspirada em uma corrente de arquitetura que ignora certos aspectos da natureza humana e que embora crie construções esteticamente atrativas, não servem para morar.
O trecho em questão é esse:
Não forma só os behavoristas e stalinistas que esqueceram que a negação da natureza humana pode ter custos nas esferas da liberdade e da felicidade. O marxismo do século XX foi parte de uma corrente intelectual mais ampla, designada por alto modernismo autoritário: a presunção de que os planejadores podiam reestruturar a sociedade de cima para baixo usando princípios “científicos”. O arquiteto Le Corbusier, por exemplo, afirmou que os planejadores urbanos não deveriam ser tolhidos por tradições e preferências, pois elas apenas perpetuam o caos superlotado das cidades de seu tempo. “Temos de construir lugares onde a humanidade renascerá”, ele escreveu. “Cada homem há de viver em relação ordenada com o todo”. Na utopia de Le Corbusier, os planejadores começariam com uma “toalha de mesa limpa” (soa familiar?) (NOTA: Pinker faz uma referência à metáfora da “folha em branco” ou tábula rasa) e arquitetariam todas as edificações e espaços públicos a serviço das “necessidades humanas”.

Tinham uma concepção minimalista dessas necessidades: julgavam que cada pessoa requeria uma quantidade fixa de ar, calor, luz e espaço para comer, dormir, trabalhar, deslocar-se da casa para o trabalho e algumas outras atividades. Não ocorreu a Le Corbusier que reuniões íntimas com a família e os amigos podiam ser uma necessidade humana, por isso ele propôs que grandes salões de refeições comunitários substituíssem as cozinhas. Também faltou em sua lista de necessidades o desejo de socializar-se em pequenos grupos em lugares públicos, por isso planejou suas cidades em torno de ruas de várias pistas, grandes prédios e vastas praças abertas, sem pracinhas ou encruzilhadas onde as pessoas se sentiriam à vontade para bater papo. As casas eram “máquinas para viver”, livres de inefici~encias arcaicas como jardins e ornamentação, e por isso eficientemente agrupadas em grandes projetos habitacionais retangulares.
Le Corbusier foi frustrado em sua aspiração de derrubar Paris, Buenos Aires e Rio de Janeiro e reconstruí-las segundo seus princípios científicos. Mas na década de 1950 deram-lhe carta branca para planejar Chandigardh, a capital de Punjab, e um de seus discípulos recebeu uma toalha de mesa limpa para erigir Brasília, a capital do Brasil. Hoje em dia, ambas as cidades têm a péssima reputação de ser imensidões detestadas pelos funcionários públicos que as habitam.
Este foi um trecho retirado de “Tábula Rasa”. Já ouvi falar que em Brasília, têm-se a sensação de estar andando em uma galeria de arte. E como uma galeria de arte, embora contenha beleza, é um lugar onde apenas se passa, não fixa moradia. Eu nunca fui lá e não poderia fazer nenhum julgamento. Será que a arquitetura, o planejamento urbano fazem tanta diferença na psicologia dos moradores. Será que isso explicaria em parte por que paulistas possuem uma cultura workaholic e de stress enquanto cariocas vivem mais despreocupados em comparação? Nunca li nada a respeito. Alguém por aí?

[tags]tábula rasa, Brasília[/tags]
