Discordianos sobre…Cultura Racional
Sim, nós temos a nossa própria Cientologia: Cultura Racional é o nome dela. Assim como a cientologia, a Cultura Racional é uma religião enrustida já que não se declara como tal. Na verdade, de acordo com um de seus seguidores, a Cultura Racional não é religião [sic] “assim como a Física e a Química não o são”. O sujeito quer comparar ciências abertas ao diálogo, que empregam métodos científicos e de experimentação com uma coisa que veio como revelação a um indivíduo que é considerado como um deus e supostamente traz uma visão racional do mundo.
O tal deus, de nome Manoel Jacintho Coelho, têm até mesmo uma mitologia sobre seu nascimento: “Nasceu no dia 30 de dezembro de 1903, e no dia do seu nascimento os jornais noticiaram a queda de um meteoro no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, mas foi um erro da imprensa. Tratou-se, na verdade, de um corpo de massa cósmica que ao longe parecia uma estrela, e que, depois de penetrar paredes, entrou no corpo de um bebê que nascia naquele instante”.
Mas, segundo eles, “A Cultura Racional é a cultura do desenvolvimento do raciocínio, do mundo que deu origem a este em que habitamos, por isso não é religião, seita ou doutrina, nem tampouco é ciência, filosofia, nem espiritismo. E também não precisa de igreja, sinagoga, mesquita ou casa de pregação. Esta cultura não ataca, não defende, não humilha, é a favor de todos. Interessa a toda a humanidade, pois é o conhecimento de onde viemos e para onde vamos, como viemos e como vamos, por que viemos e por que vamos.” Ou seja, eles alegam possuir a resposta para a Vida, o Universo e Tudo Mais.
Segundo eles, se não lermos o livro “Universo em Desencanto”, que o Tim Maia disse que euira ou não queira todos iriam ter que ler, iremos regredir na escala evolucionária. Tudo é claro, (i) racional:
“Daqui (ser humano) se transforma para a classe inferior que é a do irracional. Transmuta-se numa infinidade de classes de macaco; de macaco já se transforma em outra classe - um cachorro;de cachorro já se transforma em outra classe - de cobras; de cobra já se transforma em jacaré;de jacaré já se transforma em porco;de porco já se transforma num sapo;de sapo já se transforma em burro;de burro já se transforma num boi;de um boi já se transforma em carrapato;de um carrapato já se transforma em barata;
de barata se transforma num rato;de um rato se transforma numa mosca;de uma mosca se transforma em urubu;de urubu se transforma em lesma;de lesma se transforma em galinha;de galinha já se transforma em minhoca;de minhoca se transforma em borboleta;de borboleta se transforma em javali;de javali se transforma em gambá;de gambá se transforma em porco-espinho;de porco-espinho se transforma numa onça.”
Para mim é um grande mistério como alguém consegue acreditar nisso. Vocês prestaram atenção? “de uma mosca se transforma em urubu;de urubu se transforma em lesma;de lesma se transforma em galinha;de galinha já se transforma em minhoca;de minhoca se transforma em borboleta;de borboleta se transforma em javali”
E isso para quem se alega ser a cultura do desenvolvimento do raciocínio. E o raciocínio segundo eles fica na Glândula Pineal (Malaclypse devia ter patenteado a idéia):
“A glândula pineal, quando desenvolvida pela energia própria do desenvolvimento que é a energia racional, defende a criatura de qualquer categoria de enfermidade, pois gera no sangue uma espécie definida de leucócitos ou anticorpos que torna impossível a vida dos agentes patogênicos. A energia racional elimina a causa dos males, imunizando a pessoa dos efeitos negativos das energias elétrica e magnética, tornando a criatura que a desenvolveu apta a se comunicar com qualquer pessoa em qualquer lugar ou distância sem uso de palavras.”
Esse foi um pouco sobre a Cultura (i) Racional.
[tags]Cultura Racional, Universo em Desencanto[/tags]
Milan Kundera e a insustentável leveza do ser
Um dos livros que mais me causaram um “estranhamento” (não sei definir exatamente a sensação) e fizeram olhar o mundo de forma diferente foi o romance “A Insustentável Leveza do Ser” (existe um filme mas recomendo somente o livro, pois a força da história para mim reside na prosa de Kundera e na forma como o mesmo nos leva aos bastidores do romance). Abaixo os dois primeiros trechos que introduz um debate cujo os personagens serão as “cobaias” do experimento a fim de atingir as respostas. Lembro-me que nessa época eu estava começando a ler Nietzsche o que me fez ler com mais afinco.
1
A idéia do eterno retorno é uma idéia misteriosa, e uma idéia com a qual Nietzsche muitas vezes deixou perplexos outros filósofos: pensar que tudo se repete da mesma forma como um dia o experimentamos, e que a própria repetição repete-se ad infinitum! O que significa esse mito louco?
De um ponto de vista negativo, o mito do eterno retorno afirma que uma vida que desaparece de uma vez por todas, que não retorna, é feito uma sombra - sem peso, morta de antemão; quer tenha sido horrível, linda ou sublime, seu horror, sublimidade ou beleza não significam coisa alguma. Uma tal vida não merece atenção maior do que uma guerra entre dois reinos africanos no século XIV, uma guerra que nada alterou nos destinos do mundo, ainda que centenas de milhares de negros tenham perecido em excruciante tormento.
Algo se alterará nessa guerra entre dois reinos africanos do século XIV, se ela porventura repetir-se sempre, retornando eternamente?
Sim: ela se tornará uma massa sólida, constantemente protuberante, irreparável em sua inanidade.
Se a Revolução Francesa se repetisse eternamente, os historiadores franceses sentiriam menos orgulho de Robespierre. Como, porém, lidam com algo que jamais se repetirá, os anos sangrentos da Revolução transformaram-se em meras palavras, teorias e discussões; tornaram-se mais leves que plumas, incapazes de assustar quem quer que seja. Há uma diferença infinita entre um Robespierre que ocorre uma única vez na história e outro que retorna eternamente, decepando cabeças francesas.
Concordemos, pois, em que a idéia do eterno retorno implica uma perspectiva a partir da qual as coisas mostram-se diferentemente de como as conhecemos: mostram-se privadas da circunstância atenuante de sua natureza transitória. Essa circunstância atenuante impede-nos de chegar a um veredicto. Afinal, como condenar algo que é efêmero, transitório? No ocaso da dissolução, tudo é iluminado pela aura da nostalgia, até mesmo a guilhotina.
Não faz muito tempo, flagrei-me experimentando uma sensação absolutamente inacreditável. Folheando um livro sobre Hitler, comovi-me com alguns de seus retratos: lembravam minha infância. Eu cresci durante a guerra; vários membros de minha família pereceram nos campos de concentração de Hitler; mas o que foram suas mortes comparadas às memórias de um período já perdido de minha vida, um período que jamais retornaria?
Essa reconciliação com Hitler revela a profunda perversidade moral de um mundo que repousa essencialmente na inexistência do retorno, pois, num tal mundo, tudo é perdoado de antemão e, portanto, cinicamente permitido.
2
Se cada segundo de nossas vidas repete-se infinitas vezes, somos pregados à eternidade feito Jesus Cristo na cruz. É uma perspectiva aterrorizante. No mundo do eterno retorno, o peso da responsabilidade insuportável recai sobre cada movimento que fazemos. É por isso que Nietzsche chamou a idéia do eterno retorno o mais pesado dos fardos.
Se o eterno retorno é o mais pesado dos fardos, então nossas vidas contrapõem-se a ele em toda a sua esplêndida leveza.
Mas será o peso de fato deplorável, e esplêndida a leveza?
O mais pesado dos fardos nos esmaga; sob seu peso, afundamos, somos pregados ao chão. E, no entanto, na poesia amorosa de todas as épocas, a mulher anseia por sucumbir ao peso do corpo do homem. O mais pesado dos fardos é, pois, simultaneamente, uma imagem da mais intensa plenitude da vida. Quanto mais pesado o fardo, mais nossas vidas se aproximam da terra, fazendo-se tanto mais reais e verdadeiras.
Inversamente, a ausência absoluta de um fardo faz com que o homem se torne mais leve do que o ar, fá-lo alçar-se às alturas, abandonar a terra e sua existência terrena, tornando-o apenas parcialmente real, seus movimentos tão livres quanto insignificantes.
O que escolheremos então? O peso ou a leveza?
Parmênides levantou essa mesma questão no sexto século antes de Cristo. Ele via o mundo dividido em pares opostos: luz/escuridão, fineza/rudeza, calor/frio, ser/não-ser. A uma metade da oposição, chamou positiva (luz, fineza, calor, ser); à outra, negativa. Nós poderíamos achar essa divisão em um pólo positivo e outro negativo infantilmente simples, não fosse por uma dificuldade: qual é o positivo, o peso ou a leveza?
Parmênides respondeu: a leveza é positiva; o peso, negativo.
Tinha ou não razão? Essa é a questão. Certo é apenas que a oposição leveza/peso é a mais misteriosa, a mais ambígua de todas.
Milan Kundera.
E vocês, o que acham?
[tags]Milan Kundera, trecho, A Insustentável Leveza do Ser[/tags]
Caos e Ordem - A Herança de Éris
Pitágoras, grego, logo percebeu a influência de Éris sobre o mundo. Foi o primeiro filósofo a perceber relações numéricas na natureza. Aliás, se considerarmos que Pitágoras criou a palavra “filósofo”, podemos dizer que ele foi o primeiro filósofo ponto.
Em suas relações numéricas, Pitágoras não se limitou aos chamados números naturais, o conjunto dos inteiros positivos. Ao contrário, a partir das proporções entre os segmentos de reta existentes no pentagrama (a “estrela de cinco pontas” que pode ser traçada a partir da união de vértices alternados de um pentágono), Pitágoras encontrou um número fracionário que respondia por diversas relações métricas na natureza: desde o aumento do diâmetro de conchas de moluscos a cada volta da espiral até proporções em medidas do corpo humano.
Por suas propriedades, então consideradas “mágicas”, Pitágoras chamou ao número descoberto de Número de Ouro. Este número tem o valor aproximado de 1,618033989.
Além destas verificações, Pitágoras percebeu, também, através da observação do aparente caos dos corpos celestes, que havia ordem na movimentação destes. De acordo com o princípio Discordiano. Os pitagóricos chegaram, inclusive, a propor um modelo de cosmos onde previam que a terra fosse esférica e rotasse sobre si mesma.
Em 1202, um outro matemático, Leonardo Pisano, também conhecido como Fibonacci, publicou seu Liber Abaci (Livro do Ábaco). Durante viagens que fez com seu pai ao norte da África, Fibonacci teve contato com os árabes, e deles aprendeu o sistema de numeração hindu e o zero. Seu livro trouxe aos europeus não apenas assuntos relacionados com a Aritmética e a Álgebra, que ele aprendera com os árabes, mas também esta nova forma de numeração. Graças às suas demonstrações de uso comercial e de conversões de pesos e medidas, o sistema apresentado por Fibonacci substituiu rapidamente o sistema de algarismos romanos até então em uso.
Além do novo sistema numerico, Fibonacci demonstrou ainda uma sequência de números inteiros, que futuramente viria a receber seu nome: iniciando-se a sequência com 0 e 1, formaremos cada novo elemento da sequência, a partir do terceiro, pela soma entre os dois antecessores: 0, 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21…
Esta sequência, que mostrou aplicar-se bem a situações de crescimento populacional, tem uma característica: conforme seus elementos se distanciam do início, a divisão de um elemento n por seu anterior n-1 tende cada vez mais para o número 1,618033989. O número de ouro de Pitágoras.
Éris, agrupando as coisas, começa a mostrar a ordem que existe entre elas.
Entretanto, a seqüência de Fibonacci não explica adequadamente todas as populações. No limite, a seqüência explicaria perfeitamente uma população onde:
1 - no primeiro ciclo nasce apenas um casal,
2 - os casais amadurecem sexualmente (e reproduzem-se) apenas após o segundo ciclo de vida,
3 - não há problemas genéticos no cruzamento consangüíneo,
4 - a cada ciclo, cada casal fértil dá a luz a um novo casal, e
5 - os indivíduos nunca morrem.
Evidentemente, não existe uma população assim. Como em todas as populações os indivíduos fatalmente irão morrer, ou atingem a maturidade sexual em tempos diferentes, ou ainda a população não irá crescer à proporção de um casal fértil por casal por ciclo, a tendência é que em observações a longo prazo as populações reais não se comportem da maneira prevista pela seqüência.
As aproximações para resolver estas situações deram origem a modelos cada vez mais complexos envolvendo, entre outros artifícios, as equações diferenciais.
Estas foram um dos temas estudados por Henri Poincaré, matemático e físico francês, que apresentou novas abordagens para a resolução de equações diferenciais de maneira geométrica. simplificando sua resolução.
Em 1887, em homenagem a seu 60° aniversário, o Rei Oscar II da Suécia patrocinou uma competição matemática com um prêmio em dinheiro para resolução da questão de quão estável é o sistema solar. Poincaré ressaltou que o problema não estava corretamente estabelecido, e provou que a solução completa não poderia ser encontrada. Ele mostrou que a evolução de um sistema gravitacional com tres ou mais corpos é freqüentemente caótica no sentido que pequenas perturbações em seu estado inicial, tais como um ligeira mudança na posição inicial do corpo, irão levar a uma mudança radical em seu estado final. Se esta sutil mudança não é percebida pelos nossos instrumentos de medição, então não seremos capazes de predizer o estado final a ser obtido.
Estavam lançadas as bases para a moderna matemática do Caos, que permitiu elucidar padrões em diversos modelos aleatórios. O Caos brotando da Ordem e a Ordem brotando do Caos. Novamente, Éris divertindo-se às nossas custas.
[tags]matemática, caos, ordem[/tags]
