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novembro 7th, 2007 — A vida, o universo e tudo mais
– “E ele pegou sua mão e os dois seguiram para seu castelo, onde viveram felizes para sempre… “
Como toda noite, assim que o pai terminou a historia a filha ajeitou-se em suas cobertas, ainda sem sono.
Nesse dia, em especial, não queria dormir. Indagou ao pai:
– Como ela era uma princesa e não sabia?
– Ora.. A madrasta dela lhe escondeu isso.. - o pai, ao contrario, estava sonolento, um tanto quanto impaciente para perguntas a essa hora.
– Bem, na verdade, quem disse que ela seria uma princesa? Ou que a madrasta dela poderia mandar? Ou que o pai dela, antes de morrer teria direito d governar o povo? E, se a rainha-madrasta era má e ninguém gostava dela por que não a tiraram do trono??
“Essas crianças de hoje em dia.. De onde tiram essas coisas?” O pai ponderou e então respondeu:
– Bem… Ela nasceu princesa, a rainha má casou-se com o rei, eles simplesmente herdaram o poder..
– Esse é o problema! Em algum momento alguém teve q começar tudo isso, ou seja, essa pessoa não era realmente “real”. Mas pra que importa uma pessoa mandando? Ainda mais se ela nem foi escolhida pelos outros, ta lá só porque o pai estava, e o pai dele, e o pai…! Eles não tinham capacidade de pensar por eles mesmos? Precisavam de alguém pra dar ordens??
– É só uma historia filha, não é real, não existem “rainhas madrastas bruxas malvadas”… Acho que é mais do que hora de criança dormir…
Ele deu um beijo de boa noite na filha e foi para o seu quarto.
Pensativa em sua cama, com tantas perguntas ainda sem respostas rendeu-se ao sono que começava a chegar.
“Esses adultos de hoje em dia.. Como não vêem essas coisas?”
outubro 3rd, 2007 — A vida, o universo e tudo mais
Eu sou feio, baixo e nenhum pouco atlético. É a fórmula para a solidão. E até onde eu cheguei eu posso atestar: funciona. E não estou escrevendo isso para ficar choramingando, muito pelo contrário. Essa premissa de minha vida, essa minha “circunstância” me manteve afastado daquela esfera de prioridade que parece ser a de todos ao meu redor. Não são poucos os que se casaram, nem poucas a que tiveram filhos ou os que engravidaram alguma garota. Olho ao redor e a constatação me parece óbvia: sou diferente. Não sei se é bom ou melhor. Talvez em alguns momentos eu inveje a vida deles e sei por testemunho que até mesmo eles, em algum momento, desejam ser como eu.
Parto desta premissa para abordar Ortega y Gasset de que o “cogito ergo sum” de Descartes não é de todo suficiente. Penso, logo existo. Mas ao existir caímos em um mundo do qual teremos que lidar com certas circunstâncias. Não escolhemos ser destros ou canhotos, a cor de nossa pele, nosso sexo e muito menos o lugar onde nasceremos. Isso pode ser aplicado em cada esfera possível. Acreditamos, ou melhor, queremos acreditar que podemos criar uma vida melhor, um relacionamento melhor, um país melhor, mas sempre esquecemos em nossos cálculos das premissas dadas, das “circunstâncias”, que mesmo à revelia teremos que encarar.
“Acordo.Onde estou?Reflito.Não só reflito, como também me questiono:-Onde estou?-No entanto, esta pergunta não tem nenhum sentido, pois sei exatamente qual é a resposta.Aqui é a minha vida.O cotidiano da minha existência.Algo subordinado à existência real denominado eu.Aqui é um lugar em que, tendo eu aprovado ou não certas ocorrências, fatos e circunstâncias, elas se tornaram parte de minha existência.” (Haruki Murakami. Dance Dance Dance.p.9)
O grande segredo é saber lidar com as circunstâncias. Cristianismo, socialismo, e quase todos os “ismos” ignoram por completo as circunstâncias. Nossas circunstâncias enquanto seres biológicos e inúmeras outras. A mesma coisa quando imaginamos algum cenário futuro para nossas existências: sempre imaginamos algo que muitas vezes desconsidera nossas circunstâncias.
“’Eu sou eu’ porque sou, antes de tudo, essência. E uno, único, indivisível. Posso ser copiado, imitado, mas não duplicado em mente e alma. Sou o resultado de meus pais, meus avós, meus ancestrais, todos vivendo dentro de mim e ao mesmo tempo agora.
Sou também fruto das ‘circunstâncias’, do imponderável, do ambiente. Das pessoas que me cercam, das com quem me relaciono, das que me dão ouvidos e das que me dão palavras. Daquelas que ao me encontrarem levam um pouco de mim e deixam um pouco de si. Que me depuram, que me lapidam, que me transformam. Mas é certo que são “minhas” circunstâncias, posto que posso elegê-las.(José Ortega y Gasset)
[tags]Ortega y Gasset, Haruki Murakami,Filosofia[/tags]
setembro 11th, 2007 — A vida, o universo e tudo mais
O que fazer em seguida? Ninguém sabe, entretanto é o que todo mundo faz. John Lennon já havia apontado sabiamente que este é o grande problema na vida. Tente encontrar a resposta em algum lugar, com excessão do Marketing (que somente lhe dá imperativos), você dificilmente encontrará, talvez lhe digam, mas está tão perto quanto o fim do horizonte. Todas as grandes filosofias e ideologias sempre possuem um “vão”, um vácuo conceitual. Como há entre um trem e a plataforma, separando o “mundo ideal” descrito na filosofia/ideologia e o “mundo real”, que é a nossa existência ordinária. Todo grande sistema - Cristianismo, Capitalismo, Punk, Socialismo entre outros - tenta trazer, cada um à sua forma, o “céu” para a Terra, ao que se dá o nome de imanentizar o eschaton. Mas, nunca, nunca mesmo, é tão bom quanto imaginávamos. Por quê?
Falhas no sistema? Talvez, mas com a madeira torta da humanidade, já nos alertou Kant, nunca há de se fazer nada verdadeiramente reto. Se você dá o “salto de fé” de Kierkegaard e aceita um sistema em particular em todas as suas contradições, todo seu pensamento passará a obedecer a lógica interna do mesmo que pode contradizer a lógica exterior. Embora exista uma “realidade”, para todos os efeitos, cada um de nós vive em uma wikialidade (de wikiality; wiki+realidade, i.e, realidade por consenso).
Onde elas falham, arrisco dizer, são nas “pequenas coisas”, ou ainda, as tratadas como tal. “Acabem com a propriedade privada!”, ótimo se formos nos basear na igualdade entre as pessoas. Só que superficialmente já falha em três sentidos: primeiro, nas palavras de Frank Zappa, o melhor presidente que os Estados Unidos nunca teve, as pessoas gostam de ter coisas, faz parte de nossa natureza humana e ainda não estamos aptos a altera-la. A segunda é que todo ser humano busca status, e uma boa forma de tê-lo “substancialmente” é através da ostentação de bens que são propriedade privada. Terceiro e último, querer uma igualdade entre as pessoas é aspirar ao fascismo ou à monotonia. É declarar uma sociedade de castas ainda que somente haja uma.
O Cristianismo prega nos 7 pecados capitais, aqueles que são em menor ou maior escala, emoções e instintos básicos de nossa natureza animal. Lógico que dentro desse sistema nós não somos animais (mas sim, somos) pois a raça humana é a imagem e semelhança de YHVH (você não pode dizer isso). Mas entra em contradição com a nossa natureza biológica que nuca irá ficar em paz com tal crença. E o pior de tudo: Jesus estipulou que todo pensamento é ato consumado (veja um exemplo em Mateus 16: 27 & 28). Ou seja, pensou - pecou. Você pode se afastar de seus desejos animais, mas nunca conseguirá eliminá-los e com certeza, pensará neles. Pensou? Pecou. Simples assim.
O que Jesus estipula, notem, é quase como uma polícia de pensamento que coloca o crente em constante conflito pois ele é um pecador eterno o que o acorrenta à Igreja que possui, segundo diz, o monopólio da salvação em uma hipotética outra-vida.
Todas falham justamente naquilo que realmente faz sentido em nossas vidas do dia-a-dia. Queremos ter coisas, temos necessidades, azia, má digestão ou dor de dente. Ou o velho o que fazer em seguida. Na maioria das vezes nem mesmo formulamos a pergunta desta forma, pois ela sempre se adapta ao contexto. Precisamos de uma interessante filosofia ou ética das “pequenas coisas” que esteja em paz com nossa natureza, que trabalhe com as premissas dadas e faça como as presentes que criam novas regras e objetivos em um tabuleiro onde se joga outro jogo. Uma revolução no cotidiano que leve em conta os pequenos aborrecimentos que nos levam a abandonar os velhos grandes sistemas e grandes ideologias.
Então, o que fazer em seguida?
[tags] John Lennon, Ética, Sistemas[/tags]