Poderá a arquitetura explicar a ineficiência de Brasília?

por admin em 5 julho, 2007

A questão me assaltou à mente após saber que o dudu tomasselli se mudou para Brasília. Lembrei de uma passagem, na página 238 de Tábula Rasa onde a capita federal é citada por ser inspirada em uma corrente de arquitetura que ignora certos aspectos da natureza humana e que embora crie construções esteticamente atrativas, não servem para morar.

O trecho em questão é esse:

Não forma só os behavoristas e stalinistas que esqueceram que a negação da natureza humana pode ter custos nas esferas da liberdade e da felicidade. O marxismo do século XX foi parte de uma corrente intelectual mais ampla, designada por alto modernismo autoritário: a presunção de que os planejadores podiam reestruturar a sociedade de cima para baixo usando princípios “científicos”. O arquiteto Le Corbusier, por exemplo, afirmou que os planejadores urbanos não deveriam ser tolhidos por tradições e preferências, pois elas apenas perpetuam o caos superlotado das cidades de seu tempo. “Temos de construir lugares onde a humanidade renascerá”, ele escreveu. “Cada homem há de viver em relação ordenada com o todo”. Na utopia de Le Corbusier, os planejadores começariam com uma “toalha de mesa limpa” (soa familiar?) (NOTA: Pinker faz uma referência à metáfora da “folha em branco” ou tábula rasa) e arquitetariam todas as edificações e espaços públicos a serviço das “necessidades humanas”.

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Tinham uma concepção minimalista dessas necessidades: julgavam que cada pessoa requeria uma quantidade fixa de ar, calor, luz e espaço para comer, dormir, trabalhar, deslocar-se da casa para o trabalho e algumas outras atividades. Não ocorreu a Le Corbusier que reuniões íntimas com a família e os amigos podiam ser uma necessidade humana, por isso ele propôs que grandes salões de refeições comunitários substituíssem as cozinhas. Também faltou em sua lista de necessidades o desejo de socializar-se em pequenos grupos em lugares públicos, por isso planejou suas cidades em torno de ruas de várias pistas, grandes prédios e vastas praças abertas, sem pracinhas ou encruzilhadas onde as pessoas se sentiriam à vontade para bater papo. As casas eram “máquinas para viver”, livres de inefici~encias arcaicas como jardins e ornamentação, e por isso eficientemente agrupadas em grandes projetos habitacionais retangulares.

Le Corbusier foi frustrado em sua aspiração de derrubar Paris, Buenos Aires e Rio de Janeiro e reconstruí-las segundo seus princípios científicos. Mas na década de 1950 deram-lhe carta branca para planejar Chandigardh, a capital de Punjab, e um de seus discípulos recebeu uma toalha de mesa limpa para erigir Brasília, a capital do Brasil. Hoje em dia, ambas as cidades têm a péssima reputação de ser imensidões detestadas pelos funcionários públicos que as habitam.

Este foi um trecho retirado de “Tábula Rasa”. Já ouvi falar que em Brasília, têm-se a sensação de estar andando em uma galeria de arte. E como uma galeria de arte, embora contenha beleza, é um lugar onde apenas se passa, não fixa moradia. Eu nunca fui lá e não poderia fazer nenhum julgamento. Será que a arquitetura, o planejamento urbano fazem tanta diferença na psicologia dos moradores. Será que isso explicaria em parte por que paulistas possuem uma cultura workaholic e de stress enquanto cariocas vivem mais despreocupados em comparação? Nunca li nada a respeito. Alguém por aí?

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{ 9 comentários… leia-os abaixo ou adicione um }

1 João Sem Nome II , O Dormidor da Noite 07.05.07 às 05America/Sao_PauloThu, 05 Jul 2007 13:55:47 -0300

Eu ja morrei em Brasília e é imporante falar que a cidade não é toda construída no mesmo estilo arquitônico. Basicamente só os monumentos e os prédios federais. Esses lugares realmente são muito bonitos mas não dão a sensação de conforto ou segurança, aquela coisa que se imagina por moradia, santuário. ÿ algo meio frio. ÿ uma obra de arte, não algo que voce interage, mas algo que você comtempla.
Mesmo assim, acho que muito dessa sensação de não-nauralidade é por tudo ser muito diferente do que minha (nossa) memória referência estava acostumada, não exclusivamente pelo estilo.

2 PhX 07.05.07 às 05America/Sao_PauloThu, 05 Jul 2007 15:49:33 -0300

Já visitei Brasília para prestar um concurso e me pareceu uma cidade muito funcional, com muitas áreas verdes, praças, ruas amplas, fácil localização de tudo. Eu gostei do estilo da cidade. Não tem arranha-céus, e tem muitas árvores. Ela enfrenta agora problemas com transportes, mas o ambiente de vivência da cidade é muito melhor que São Paulo, BH e Vitória. ÿ uma cidade que tem tudo no lugar. Moraria lá sem problemas.

3 Marcos Ludwig 07.05.07 às 05America/Sao_PauloThu, 05 Jul 2007 17:01:07 -0300

A arquitetura de Brasília foi concebida por Oscar Niemeyer, um comunista declarado. Isso explica bastante coisa, não acha? ;-)

4 PhX 07.05.07 às 05America/Sao_PauloThu, 05 Jul 2007 21:10:54 -0300

O Oscar Niemeyer desenhou os prédios bonitinhos, com toque artístico e tal, mas quem projetou mesmo a cidade como um todo foi o arquiteto Lúcio Costa. Se ele era comunista ou não eu não sei, mas para um projeto feito na década de 50 é algo magnífico, que resistiu bastante tempo à pressão do crescimento populacional.

5 San 07.06.07 às 06America/Sao_PauloFri, 06 Jul 2007 12:32:50 -0300

Sou arquiteto, e entendo seu questionamento.
No meu entender, é clara a influência que a arquitetura tem no modo de ser das pessoas. Como exemplo, imagine um quarto e sala. Imagine as diferenças de comportamento se quem morasse lá fosse um estudante universitário ou uma família com 15 pessoas.

Portanto, faz sentido jogar isso pro âmbito da cidade. Se as ruas forem estreitas e cheias de prédios certamente sua vivência dela será diferente da de um lugar arejado com uma praça no centro. Sua tese sobre São Paulo ou Rio tem fundamento.

No caso de Brasília, especificamente, essas esculturas que vc citou no texto são locais de trabalho, não seriam moradas mesmo não. Na realidade, só uma das superquadras serve hoje ainda de moradia, e é um lugar bastante agradável até. Poquíssimas pessoas moram perto do eixo monumental, e mesmo nas asas. A grande maioria da população que usa e trabalha em Brasília mora nas cidades satélites, ocais bem comuns, nada comparados ao que é visitado por turistas em Brasília.

Se existe esse sentimento que vc falou, de “não pertencer ao lugar”, não ter não é um problema de cunho artquitetônico. Eu apostaria num problema ainda mais subjetivo, que é o fato de Brasília ser uma cidade de passagem, e que é misturada com gente de todo o país. Essa falta de identidade vem daí, da própria formação da cidade, e das pessoas que moram lá.

6 Enio Luiz Vedovello 07.06.07 às 06America/Sao_PauloFri, 06 Jul 2007 14:20:52 -0300

Nas primeiras vezes que fui a Brasília, percebi um detalhe arquitetônico que me levou a classificar a cidade como “uma cidade falsa”: a grande maioria das edificações, prédios públicos ou casas, possui porão, algumas vezes com mais de um andar.
A classificação de “falsa” foi porque a cidade não é como aparenta ser para quem olha das ruas.
As ruas e o projeto paisagístico de lá são agradáveis, com muitas árvores, jardins e flores. Já os prédios do Niemeyer, sinceramente, tenho algo pessoal com relação a ele. Não consigo gostar de nada que ele desenha, a ponto de descobrir que ele projetou um edifício só olhando e não gostando.
Não conhecia essa teoria que você expôs, mas creio, sim, que ajuda a explicar muita coisa (além do conveniente isolamento de Brasília em relação a todos os grandes centros populacionais do país). Até porque, alguns comportamentos que observei nos moradores de lá (inclusive no caso de pessoas que se mudaram para lá há uns poucos anos) são bem como você descreve no texto.

7 salome mafra ratis 12.15.07 às 15America/Sao_PauloSat, 15 Dec 2007 20:41:44 -0200

Acho Brasília um espetáculo e um orgulho para o Brasil,no entanto, fico me perguntando; será que o arquiteto e o projetista de Brasília não imaginou que haveria periferia lá? e os candangos que trabalharam na construção ,depois de concluido o trabalho. iriam voltar para o nordeste ou para outra região pobre aventurar a sobrevivência? não planejaram nada para eles e infelizmente o pobre não morre ele sempre está lá lembrando que existe e que são um perigo para os ricos apesar de serem uma maõ de obra barata e farta.

8 Tatiana 03.24.08 às 24America/Sao_PauloMon, 24 Mar 2008 11:08:45 -0300

Olá, moro em Brasília há 4 anos, e aínda odeio esse lugar. Em contraponto, morei em São Paulo e apesar de todo o stress que se passa lá, é um lugar maravilhoso. Acredito que não somente a arquitetura ou no caso o urbanismo pode interferir na vivência da cidade, mas também a cultura e o meio ambiente em que está inserida, todos esses faotores sim, alteram o modo de vida da cominidade. São Paulo se transformou numa megalópole, e mesmo em meio e todo caos que isso gera, ela se movimenta 24 horas. Isso faz com que as pessoas desejem sair de casa, afinal, opção não falta, 24 horas!!! Portanto, o ciclo é assim, eu saio de casa, eu gasto, se eu gasto eu tenho que ganhar, pra eu ganhar tenho que trabalhar. E assim gira o mundo do paulistano…
Brasília é uma cidade altamente bucólica, quando em São Paulo encontramos parques lotados 24 horas por dia, em Brasília, a população só se anima aos domingos e em eventos gratuitois. As superquadras possuem uma grande área de lazer ao ar livre recheda de árvores, porém pouco utilizadas. Numa psquisa que acabei de ver na internet, foi feito uma pesquisa sobre o lazer do brasiliense, e a opção número 1 foi shopping.
Outra problemática de Brasília é a identidade da população com o espaço, concordando com o amigo arquiteto como eu, aquí ´[e um local de passagem, as pessoas passam em concurso e vem pra cá, poucos criam vínculos e assim a cidade se torna fria, monde nem o vizinho que te encontra todo dia te comprimenta. O mesmo não ocorre no entorno, nas cidades satélites, que se parecem mais com “cidades normais”, o ritmo de vida é totalmente diferente. Bom, sua pergunta foi se alguem acreditava que a arquitetura e o urbanismo do lugar pode influenciar no ritmo de vida da população, eu acredito que sim, em conjunto com outros valores, é isso que eu tanto estudo e defendo.

9 Tatiana 03.24.08 às 24America/Sao_PauloMon, 24 Mar 2008 11:19:43 -0300

Salone, como você disse, Brasília é sim um orgulho para o Brasil, valeu como experiência para não se repetir, afinal é errando que se aprende, não???Vc pergunta sobre os candangos, a população de baixa renda, que “ficou” após as obras. Bom, vou tentar ser breve, inicialmente Lúcio Costa projetou uma cidade utópica, pois ele acreditava na miscigenação social daquele espaço, planejando áreas mais “simples” para a população de baixa renda. Foi um sonho, uma ilusão, hoje quem vive nessas áreas são pessoas solteiras que precisam de pouco espaço. O Plano Piloto ficou caro demais. Quanto aos candangos, eles vieram e aída na construção de brasília formaram vilas no Plano Piloto, que foram removidas por uma questão sanitarista de preservação da bacia do paranoá e do desenho urbano, que ainda não estava concluido. Ao serem removidos, fixaram residências nas cidades satélites que serviam como “cidades dormitório” para eles, pois vinham e vem diariamente trabalhar no Plano. Porém o problema de moradia não cabe apenas a população de baixa renda, devido ao alto custo do Plano piloto, a classe média também procurou novos espaços gerando hoje 513 condomínios clandestinos no DF, entorno do Plano Piloto. Consegui te responder????

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