Por quê eu não dou esmolas

Primeiro, mendicância é contravenção penal passível de cárcere. Ou seja, contribuir com uma moeda ou aquele “troco” que não lhe faz falta não é uma atitude apenas altruísta por mais bem intencionado que você esteja: mas também fomenta a perpetuação de uma atividade em si criminosa.

Na televisão, durante meu período longe da internet graças à morte de meu monitor, eu assisti em um desses programas de variedades sobre uma senhora de Goiânia, proprietária de casas sendo que loca duas delas, faz mendicância e ganha $ 150 por dia – Isso mesmo $ 4.500 por mês, nada mal.

Talvez ela tenha um bom rendimento por quê é uma senhora, sabemos que se fosse um sujeito barbado iriam recusar lhe dar esmolas por quê ele deve ser um bêbado, então digamos que ele tenha um rendimento de 50% do valor dessa senhora ($ 2.250). Não faço idéia de qual seja o custo de vida em Goiânia, mas aqui em Rio Claro eu conheço famílias de 5, 6 pessoas que vivem com algo na faixa de $500 e, mesmo aos trancos & barrancos, pagam aluguel, luz e água. O que se sobra se viram para comer. E ainda assim eles ganham apenas 22% mais ou menos do que um sujeito barbado hipotéticamente ganharia com mendicância no mesmo mês.

Isso nos leva diretamente aos seguintes cenários:

Com um montante desses, (1) seriam capazes de saírem da mendicância e (2) teriam endereço fixo e com certeza (3) teriam roupas melhores daquelas usadas em seu “teatro”, mas pelo menos em cidades pequenas, parece que o “elenco” de mendigos jamais muda, eles são até mesmo “personagens” do centro comercial, alguns todos sabem o nome. Talvez o “salário” de um mendigo do interior seja menor, mas se fosse 50% do que aquele barbado hipotético ele ainda ganha mais do que o dobro do que o tipo de família citada por mim. Resta ainda, explorar os prováveis motivos pelos quais (1),(2) e (3) não são atingidos: (a) o dinheiro pode ser todo gasto em drogas (álcool, cigarro e outras mais leves como crack e heroína), (b) a canalha, ou seja, preferem mamar nas tetasdo sistema do que serem agentes do mesmo, afinal há uma quantidade suficiente de pessoas de “bom coração” para serem exploradas e (c) estão engajados em um projeto pessoal de atingir $ 1.000.000 em esmolas, o que aquela senhora do ínicio conseguiria em 18 anos e meio ao contrário daquelas famílias que se deixassem de comer e pagar suas contas levariam míseros 166 anos.

Por isso eu não dou esmolas.

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9 comentários para “Por quê eu não dou esmolas”

  1. As pessoas no Brasil, infelizmente, se acostumaram a viver da exploração do paternalismo – seja do estado, seja de outros cidadãos.
    Mendicância é definitivamente um bom negócio. Cinquenta centavos, um real, que “não fazem falta a ninguém”, acumulados ao longo de um dia e um mês realmente viram um valor considerável. Além do que, isento de tributação, e as pessoas ainda podem ser beneficiárias de programas sociais.
    Quanto ao “figurino”, não se iluda: é uniforme de trabalho. Já vi denúncia na televisão de “mendigo” chegar próximo ao seu ponto de carro, vestido normalmente, entrar num bar (cujo dono certamente recebia uma grana para ficar quieto), sair de lá “uniformizado” e até “deficiente físico” para pedir esmolas na região. Ao final do dia, voltava para o bar, trocava de roupa, pegava o carro e ia embora…

  2. fernando disse:

    Ok! Você se justificou: não dá esmolas para não ser preso e porque não vai querer ficar investigando a vida de todo mendigo que se aproximar de você pedindo uns trocados.

    Mas você excluiu a possibilidade de se mendigar esporadicamente. Ou mesmo só para comer. É só mais um modo de vida dependente do sistema (como qualquer outro), mas no seu texto, todo mendigo virou um profissional com hora de entrar e sair, e um golpista nato. Nem todo mendigo é como essa senhora aqui de Goiânia, ou os seus outros dois exemplos hipotéticos.

    Eu já passei uns 2 meses vivendo só do básico. Como seria isso? Vivia de andar pela cidade, pedia dinheiro para comer, dormia na rua e bosques, e atendia minhas necessidades fisiológicas e de higiene em banheiros públicos, bosques e córregos.

    Em suma, meus argumentos são:

    - Nem todo mundo mendiga com as intenções descritas por você, nem com essa meticulosidade;

    - Mendigar é depender do ?sistema? tanto quanto outra profissão qualquer. O mendigo age dentro do ?sistema?, não contribuindo com ele, ou contribuindo o mínimo possível. Isso também é ser “agente”. Além de existirem outras formas de ação dentro do ?sistema?.

  3. fernando disse:

    Engraçado…

    “meticulosidade”…a sonoridade dessa palavra e a sua forma representam quase perfeitamente o seu significado pra mim! Tipo…pronunciar “meticulosidade” exige uma certa meticulosidade. Existe uma categoria para esse tipo de ocorrência?

  4. fernando disse:

    pts…ninguém faz nem questão de brincar comigo aqui?!

  5. anonimo disse:

    dexa os cara pow

    até parece q eles fazem diferença…pq voces nao falam sobre a inocencia dada à Calheiros???

  6. Eu to sempre mudando minha opinião sobre um assunto, mas…
    Eu vou na base do bom-senso, com uma pitadinha de preconceito. Se eu tiver dinheiro, ir com a cara do sujeito e ele pareceu sincero, posso dar esmola. Isso já exclui qualquer um falando uma história tocante. Se tem história tocante, a probabilidade de ser mentira é bem maior… prefiro que alguém chegue e diga: sou depende químico e preciso me dopar. Não vai levar meu dinheiro com isso, mas é mais ético do que não assumir.

    Quanto ao Fernando… cara… não sei o que você quis dizer com “brincar”, mas não.

  7. O comentário do Pablo me fez lembrar um amigo oficial de justiça que, antes de dar esmola, perguntava pro bebum: “mas tu não vais gastar isso com leite, vai?”

  8. Garça disse:

    Alguém tem dúvidas de que até mesmo os mendigos têm papel fundamental na lógica do sistema? Como a classe média que trabalha 12, 14 horas por dia conseguem se enganar psicologicamente?
    Ora… na volta pra casa em seu carro popular se depara com uma figura suja, imunda e fétida. Impossível imaginar uma vida feliz para um ser como este.
    Qual o primeiro pensamento que lhe passa pela cabeça? “Nossa… Obrigado bom Jesus! Meus pés doem, minha cabeça parece que vai explodir, não tiro férias a anos, não tenho tudo que quero mas, bom Jesus, sei que existem pessoas piores que eu! Por isso, a partir de amanhã, vou trabalhar mais para poder alcançar minhas metas (entenda-se “american dream”).”
    Morfina neles!
    E o mendigo continua mendigando, e o classe média continua trabalhando, e o zé povim continua dormindo no ônibus de volta pra casa e a classe alta continua no caviar.
    Desgraçadamente perfeito.

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