RenGen: Estamos vivendo uma nova Renascença?

Segundo Patricia Martin, a geração atual seria o fenômeno RenGen, uma abreviação para Renaissance Generation (vamos colocar como Geração Renascentista).
Homer Simpson Está Morto
Uma das coisas que mais me chamou atenção na tese sobre RenGen foram os dados utilizados por ela para descrever o que chama de “consumidor cultural”. Ela aponta que “por décadas, nós estivemos sendo levados a acreditar que a maioria dos americanos poderiam ser definidos por seu apetite por fast food e reality television. A idéia de que o americano médio está abaixo da média conseguiu um lugar em nossas imaginações coletivas”. Mas ela aponta que:
65% dos americanos citam a leitura como sua principal atividade nas horas vagas.
68% dos americanos é interessado em filmes independentes.
Mais pessoas participam hoje de clubes do livro nos Estados Unidos do que freqüentam eventos esportivos profissionais (essa eu realmente fiquei surpreso ao ponto da incredulidade).
Ela aponta diversos outros dados e indícios de que a atual geração não é parecida com Homer Simpson (a anterior), mas está muito mais para Lisa Simpson. E que agora, quando com os agentes da velha geração morrendo, as mudanças começam a surgir na sociedade.
Um Novo Renascimento
Essa mudança na forma de lazer das pessoas, consumindo mais cultura, facilitado pela internet mudou drasticamente a forma das pessoas se relacionarem com a mesma. Muitos saíram da passividade criativa e se tornaram produtores de conteúdo.
E o fenômeno não se restringe apenas às artes mas à cultura, relações de trabalho, relação com o meio ambiente, marketing e visões de mundo.
Isto é o Consumidor Cultural
Para entender como o consumidor cultural pensa, Patricia aponta:
Base Metafísica: Os humanos e o mundo natural são interdependentes, o destino de um controla o destino do outro. O propósito do homem é fazer parte deste todo universal.
Visão de Mundo: Os recursos naturais são finitos e em queda.
Tempo e Espaço: Nós temos os limites do tempo e espaço pré-determinados, mas eles não estão inerentemente estruturados como nós os percebemos.
Valores Espirituais: Velhas tradições são fundidas com novas espiritualidades.
Código Moral de Ação: A transformação da sociedade e do planeta pode ser atingida por atos modestos, pessoais e construtivos. Balancear a saúde da mente, corpo e espírito para o verdadeiro bem estar. Supera hierarquias. Retorno ao que é simples, natural e direto. Valoriza experiências sensoriais em detrimento de opinião especializada. Faça o que ama, ame o que faz. Contribuir com esforço para atingir fins melhores.
Objetos e Reino Físico: Aceita a imperfeição como uma marca do que é natural e autêntico. Preferem produtos que são imperfeitos mas ecologicamente corretos, do que produtos perfeitos que poluem.
Este seria o zeitgeist da nova geração. Concorda?
Criticismo
Agora, o que eu penso dessa coisa toda. Talvez a RenGen não seja bem uma “geração”, no sentido de pessoas cronologicamente contemporâneas. O indivíduo que é descrito como consumidor cultural por exemplo, o cidadão-modelo da tese, é alguém que usa internet, possui celular, conversa por IM, possui computador ou mesmo acesso a ele. Não preciso dizer que nem todos contemporâneos atendem a todos esses requisitos. Em um país como Brasil que muitas pessoas ainda vivem em condições arcaicas, ser da RenGen é basicamente um privilégio.
Eu acho a tese dela sincera e concordo quando ela descreve o consumidor cultural, mas me incomoda chamar isso de “renascimento”. Isso está intimamente ligado à idéia de “progresso” e a um pensamento que classifica a época anterior pejorativamente em termos culturais, sociais e etc. Não acredito em progresso, para mim é uma crença, e do pior tipo. Não vejo progresso nenhum na matéria humana.
Como John Gray colocou:
A ciência permite que os humanos satisfaçam suas necessidades. Não faz nada para mudá-las. Não são diferentes hoje do que sempre foram. Há progresso no conhecimento, mas não na ética. Esse é o veredicto tanto da ciência quanto da história, e o ponto de vista de cada uma das religiões mundiais.
O crescimento do conhecimento é real e - a menos que ocorra uma catástrofe de âmbito mundial - já irreversível. Melhorias no governo e na sociedade não são menos reais, mas são temporárias. Não podem ser perdidas, como também certamente o serão. A história não é progresso ou declínio, mas ganhos e perdas recorrentes. O avanço do conhecimento nos engana quando nos induz a pensar que somos diferentes de outros animais, mas nossa história nos mostra que isso não ocorre.
e
Pensamos na Idade da Pedra como uma era de pobreza e o Neolítico como um grande salto à frente. Na verdade, a passagem da caça-coleta para a agricultura não trouxe nenhum ganho geral para os seres humanos em termos de bem estar e liberdade. Permitiu que maiores números vivessem vidas mais pobres. Quase certamente a humanidade paleolítica estava em melhor situação.
E enquanto a sociedade ocidental está tendo seu “renascimento”, o Oriente Médio parece estar mergulhando em uma onda generalizada de fundamentalismo e caindo em uma “idade das trevas” (veja como isso demonstra o meu juízo de valor que considera a fé cega em seu deus em detrimento da ciência, uma coisa ruim). Acredito que a internet está dando esses ganhos temporários para a sociedade e mudando a forma de consumo. Só não sei até que ponto chamar isso de uma nova Renascença faz sentido.

crédito: Kiifu






















10 comentários para “RenGen: Estamos vivendo uma nova Renascença?”
Bem interessante esse tema e o livro que você indicou me chamou a atenção. Não sei dizer se o progresso na ética simplesmente não existe… Achei um pouco radical a frase “Há progresso no conhecimento, mas não na ética.” Só que me coloquei a pensar e ainda não encontrei argumento sólido para questionar isso… quando e se eu tiver eu volto aqui

Reparou que na cabeça do menino tem uma mosca?
Pode até ser verdade, mas não parece nem um pouco!
Afinal eles votaram no Bush duas vezes, se deixaram enganar no motivos da guerra da Iraque, compram cada vez mais SUVs, mostram pouca preocupação em diminuir seu consumo, etc.
Isso parece mais uma moda, algo que começou a ficar bonito de se dizer: “sabado a noite? Vou ler um livro sobre um obscuro cineasta independente…”
Mas, se for verdade, será ótimo.
Nada como déspotas esclarecidos!
Genial. Eu também noto o fenômeno citado pela Patrícia, de fato o americano (e em geral o ocidente) está valorizando cada vez mais o cult e a inteligência vem sendo mais importante que a força.
Já a nomenclatura (renascimento ou idade das trevas), na minha opinião, é irrelevante. Na verdade, acho que sempre que estamos vivendo numa realidade dizemos que ela é o “renascimento”, porque justamente por termos nossos pensamentos X, Y e Z em comum achamos que os anteriores eram errados e esses são “melhores”. Deixem para o futuro dar nome pra essa época.
São colocações interessantes, mas até que ponto são reais, ou simples contraponto a críticos do status quo norte-americano, como o Michael Moore? Acho que somente o tempo dirá…
Não sei se realmente acredito nesses dados. Claro que é ótimo ver essa época desse jeito, mas por motivos pessoais creio que isso pode ser até ruim (já percebeu como quanto mais estudo alguém tem, mais estranho é seu comportamento???).
Concordo com você: chamar de Renascença é ridículo.
Fora isso, discordo de muito do que essa RenGen está fundamentada; não que ela não esteja fundamentada nas bases que Patricia Martin cita: é que discordo DAS bases, entende?
Tem um fator que a Patricia não levou em conta: a falência do modelo cultural do mainstream. A diferença entre esse momento e outros momentos de falência do mainstream é que, aparentemente, se perdeu até a capacidade de inovação.
mt bom esse texto.
serio.
realmente o lance da agricultura fez q mais pessoas vivessem precariamente…nunca tinha pensado nisso, mas agora q li, concordo!
Humm… Dados estranhos esses. E pena que só se apliquem aos Estados Unidos, não vejo como isso se aplica aqui não…
[...] Texto integral de Ibrahim Cesar [...]