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Princesa Léia & Eu

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
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Creative Commons License crédito: cathychang

No dia 3 de dezembro de 2009 eu ganhei uma cachorrinha de três meses como presente de Natal. Ela, no momento em que escrevo esta postagem, está deitada aqui do meu lado resmungando pois eu fico atacando sem parar sua barriga. Ela seria definida como uma cachrrinha de “raça não-definida”, uma vira-lata. Para mim cachorros de raça sofrem com tantos estigmas por causa de suas raças, sempre sendo cobrados para agir de certa forma e recebendo certos tratamentos por parte de seus donos que eles nunca desenvolvem uma personalidade só deles, já os vira-latas tem que se reinventar sempre e acabam exibindo mais personalidade que qualquer cão de raça.

Ela se chama “Princesa Léia”, embora 90% do tempo nós apenas a chamemos de Léia. Eu sei, eu sou um nerd.

A primeira noite

Como eu disse, eu ganhei a cachorrinha. Nós não estavamos preparados para ter uma cachorrinha em casa. Ok, deixe-me refazer a frase. Minha mãe não estava pronta para ter uma cachorrinha em casa. Mas presente é presente. Com o tempo minha mãe acabou se apegando muito a ela, a levando para todos os lugares, mas a situação foi tensa nas primeiras horas. Minha mãe sem saber onde deixar ela passar a noite, disse que eu poderia dormir com ela. Coloquei ela na minha cama, e dormi com ela como se fosse o meu bebê. Eu estava feliz. Tudo estava em seu devido lugar e eu estava exatamente onde eu queria estar.

Acordei por volta da uma da manhã. Meu bebê fez cocô por todo o quarto e eu começo a sorrir. Eu vi uma vez em um episódio de CSI que se você sentir ânsia de vômito por alguma coisa ou cheiro basta forçar um sorriso, o musculo irá evitar o reflexo de sua garganta. Funciona. Ela cagou no quarto todo. Sério. Ela violou alguma lei física, já que parece que dentro dela havia muito mais matéria do que deveria. Eu olho para ela, está bem mais feliz agora. Também depois de ter tirado tudo aquilo de dentro dela, eu também ficaria aliviado. Resolvo por uma deliberação política não chamar a minha mãe, ela iria acordar irritada e começar a limpar o quarto. Ela teria motivos sólidos para não gostar da Léia.

Comecei a limpar o meu quarto enquanto a minha cachorrinha ficava do meu lado. Eu senti uma pequena iluminação naquele momento, sabem? Eu teria ali a minha primeira lição de vida com ela: Eu queria ela por perto e já estava conectado com ela. Diabos! Foi amor a primeira vista, tenho que admitir, eu já amava ela, então o que eu poderia fazer? Aceitar a merda. Se você ama alguém, aceite a merda, porque ela é inevitável. Aceite a merda e aceite sorrindo. Aceite porque você é sortudo o suficiente para ter que cuidar da merda deles.

Léia é atropelada

Um mês em casa, a Léia já se tornou a rainha da casa. Ser promovida de princesa para rainha costuma levar anos ou um golpe de estado, mas esta cachorrinha conseguiu com sua barringuinha e sendo calma, contemplativa e muito carinhosa. Minha mãe passou a fazer passeios diários com ela, a colocando no triciclo da minha mãe e a vestindo de roupas (um parêntese aqui: minha mãe não sabia andar de bicicleta até cinco meses atrás. Aliás ela não sabe ainda se você considerar que ela anda em um triciclo. Eu somente aprendi a andar de bicicleta aos 18 anos). Em um desses passeios elas foram até uma praça próxima da minha casa e próxima de uma das vias mais movimentadas da cidade, a Avenida 14, e minha sobrinha em um momento de desatenção a deixou soltar-se e ela foi atropelada, não uma, mas duas vezes.

“A Léia foi atropelada”, quando a minha mãe me disse isso eu congelei e temi o pior. Não é engraçado como nossos cérebros sempre vão automaticamente para o pior de qualquer coisa? Bem, pelo menos o meu cérebro. Fiquei desesperado, até porque não tinha ideia de onde iria encontrar um veterinário funcionando em uma sexta á noite. Mandei mensagens de texto para todos os meus amigos mais próximos e que eu achava que poderiam me ajudar já que não consegui falar com eles no celular (não foi para isso que inventados isso?). Eu já tinha saído cegamente quando recebi a resposta de uma amiga minha. Ela veio me ajudar. Depois de bater em muitas veterinárias escuras e sem ninguém. “Só nós nao temos vida social”, ela dizia. A Léia apática estava no meu colo, quando senti ela mijar. Ela costuma fazer isso quando está com medo. Fiquei constrangido por ela ter feito isso num carro, mas tudo havia ido para a minha mão de qualquer forma. Então pelo telefone nós conseguimos dois veterinários, três se contarmos uma outra que poderia ir até a minha casa. Fomos correndo para ser atendidos por um dos veterinários.

Ele nos atende, seu próprio cachorro está latindo sem parar, fazendo a Léia ficar ainda mais com medo. Então, o veterinário faz exatamente o que eu espero de um veterinário: CHUTA o próprio cachorro. É como ir no pediatra levar seu filho e ver o médico beliscar o próprio filho. Ele dá uma olhada nela, abatida e machucada e diz: “Acertou a bexiga”. Como ele podia fazer um diagnóstico desses sem nem “… Veja que ela urinou sangue”. Olho para a minha mão. Coberta de sangue. Posso desmaiar agora ou depois? Bem, tem que ficar para depois já que ele pega uma seringa e vai aplicá-la, eu e minha amiga vamos segurar a Léia. Uma das aplicações doeu muito nela, minha amiga até chorou. Ele diz que ela vai ficar bem e deviamos voltar no dia seguinte para mais uma aplicação.

É um sensação estranha. Ela iria ficar bem? Eu até sonhei com ela naquela noite (uma peça de evidência de que os sonhos são ferramentas de nosso cérebro trabalharem os acontecimentos cotidianos). A primeira coisa que eu fiz na manhã seguinte foi checar como ela estava. Hoje, duas semanas depois ela ainda manca, mas é tratada como se fosse uma verdadeira rainha. Só não sei se ela vai se recuperar de toda a mimação que submetemos ela.

Esse acontecemento acabou me ensinando outra lição de vida. Ligue para desmacar com o outro veterinário. Senão ele vai te ligar te xingando todo por tirar ele de sua casa numa sexta feira á noite. Não deixe de avisar que não foi o escolhido, eles também tem sentimentos.

Olha a Léia ai: