Sade era um diabo de inteligente. Na infância, mataram-lhe o pato de estimação. Sade comeu-o, na inocência, e vomitou-o ao descobrir-lhe a identidade. Ficou perturbado a ponto de perder a fome. Emagreceu tanto que a família pediu auxílio ao padre confessor. Este explicou ao menino as diferenças entre os homens e animais, na versão católica. Segundo o cura, nossa alma imortal, criados que fomos à imagem de deus, demanda respeito à vida, enquanto os animais, coisas, morrem de vez. Sade achou a explicação estúpida (tinha 9 anos), respondendo que se os homens viviam melhor depois da morte, não lhe parecia pecado matá-los, ao contrário dos bichos, finitos na carne. O padre sorriu com superioridade ante a lógica da criança. Cabe a pergunta: qual é a graça?
Paulo Francis | O Pasquim, volume I
Pois é. Qual é a graça?









