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A tese de Ivan Karamazov

sábado, 21 de abril de 2007

Publicado hoje na Folha de S. Paulo destaco os trechos principais, a autoria é de Antonio Cicero:

Volta e meia alguém traz novamente ? tona a famosa tese de Ivan Karamazov, personagem de Dostoiévski: “Se Deus não existe, tudo é permitido”.

…na Bíblia (Gn 22), Abraão se encontrou na situação em que me imaginei no experimento de pensamento. Com efeito, Deus pôs Abraão ? prova, ordenando-lhe que matasse o seu filho primogênito. Ao contrário de mim (e do leitor que se pôs na minha pele), Abraão se dispôs a obedecer e, quando já havia pegado a faca para sacrificar seu filho, foi impedido por um anjo, enviado por Deus.
Como se sabe, foi sobre esse episódio que Kierkegaard escreveu as páginas impressionantes de “Temor e Tremor”. Nelas, ele mostra que, do ponto de vista puramente ético, não se justificaria a prontidão de Abraão. Só a fé -superior, segundo Kierkegaard, ? ética, por constituir uma relação individual e absoluta com Deus- justifica a atitude de Abraão. Desse modo, graças ? religião, a esfera da ética é relativizada pela da fé.

Sendo assim, devemos inverter a tese de Ivan Karamazov: não só não é verdade que, se Deus não existe, tudo é permitido -já que, como vimos, não é permitido matar-, mas, ao contrário, é se Deus existir que tudo é permitido.

Longe de ser o fundamento da ética, a fé em Deus é a condição de relativizar e, no limite, negar a ética. Isso lembra as palavras do físico norte-americano Steven Weinberg, detentor do Prêmio Nobel de Física: “Com ou sem religião, as pessoas bem-intencionadas farão o bem e as pessoas mal-intencionadas farão o mal; mas, para que as pessoas bem-intencionadas façam o mal, é preciso religião”.

[tags] ética,religião, Dostoiévski, Antonio Cicero,Steven Weinberg[/tags]