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Matadouro 5, Kurt Vonnegut

terça-feira, 8 de abril de 2008

Fui comprar um livro para presentear um amigo quando vi dezenas de pocket books, um em cima do outro, com as lombadas viradas, como se não quisessem ser comprados. Não estava em uma livraria tradicional, mas em uma loja tradicional de minha cidade que vende mangás, quadrinhos, animês, Cd’s, camisetas pretas e é também um sebo e vende livros diferenciados. E havia a pilha de pocket books.

Acabei comprando dois: um do Woody Allen, que já havia lido ao pegá-lo empretado da biblioteca. Tive vontade de nunca mais devolver, mas meu senso cívico sempre vence (ainda planejo doar um volume do meu livro para essa mesma biblioteca). E o outro foi um livrinho que sempre ouvi falar mas não havia lido, nem mesmo nada do autor: “Matadouro 5″, de Kurt Vonnegut.

Hoje eu sei que eu continuaria sem ler ele até aquele momento. Aprendi isso com Billy e o pessoal de Trafalmador.

Um dos resultados imediatos de ler o livro: “Coisas da Vida”, uma expressão usada repetidas vezes ao longo do livro, já faz parte até mesmo do meu pensamento.

Billy aprende o modo de enxergar a vida e a morte dos tralfamadorianos. Para eles, uma pessoa não morre, só parece morrer. Ela está morta apenas naquele momento. Em todos os outros, em seu passado, está viva. Então ninguém fica triste por uma morte – são apenas coisas da vida (uma expressão repetida por todo o livro). Basta olhar para trás, para outro episódio da vida, e se transportar para lá. A vida é não-linear em Tralfamador. Billy é um dos poucos terrestres que compartilham essa capacidade, e ele passa toda a vida (e o livro) viajando no tempo. Sabe como vai morrer. Sabe que vai sofrer um acidente de helicóptero e sobreviver, e que sua mulher vai morrer envenenada. Se quiser fugir do sofrimento, basta fechar os olhos e se transportar pra um momento feliz. É a grande sacada do livro, uma alfinetada naqueles que buscam maneiras de aplacar o pesadelo da morte. (daqui)

Um livro sensacional. Meu personagem predileto foi o escritor de ficção científica com suas tramas mirabolantes, Kilgore Trout, que pelo que li aparece em outras obras do autor. Um trecho hilário é o encontro entre Kilgore e Maggie. O autor resolve inventar uma trama sem pé nem cabeça sobre algum livro que ele escreveu. Veja o trecho:

- Isso realmente aconteceu? – perguntou Maggie White.
Ela era uma pessoa sem graça, mas um convite sensacional para se fazer um filho. Os homens olhavam para ela e queriam enchê-la de filhos imediatamente. Ela ainda não havia tido um bebê. Usava métodos anticoncepcionais.
- Claro que sim – Trout lhe disse. – Se eu escrevesse uma história que não aconteceu de verdade e tentasse vendê-la, iria preso. Isso é fraude.
Maggie acreditou nele.
- Nunca pensei nisso antes.
- Pense nisso agora.
- É como propaganda. É preciso dizer a verdade na propaganda, senão dá problema.
- Exatamente. É o mesmo tipo de lei que se aplica em ambos os casos.

Espero encontrar outros livros do Vonnegut, que dia 11 de Abril completará um ano de falecimento. Fica aqui a dica de leitura.


Creative Commons License crédito: 1f2frfbf. Kurt Vonnegut (1922-2007)

Leia ou Morra!

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Então eu tinha um domínio vago. Na verdade eu o comprei com o objetivo de fazer um blog desses caça-níqueis, mas eu não consigo. Simplesmente não consigo. Não é sincero para mim. Mas me faz parender muitas coisas. Me conhecer melhor. Uma delas é que se existe duas maneiras de se fazer algo; a rápida e a devagar eu vou acabar optando por uma terceira, a minha própria, que poderá até mesmo ser mais devagar que a “devagar standart”. Ok, vou parar de escrever sobre isso. Então eu tinha um domínio vago. Resolvi criar um segundo blog que na verdade é um “spin off” do 1001 Gatos de Schrödinger. Então apresento-lhes o Leia ou Morra!.

Do que se trata?

Basicamente o platô “Ficcionáutica” será abordado lá. Será o lugar para livros, quadrinhos e quem sabe filmes. Como prefiro filmes legendados eu acabo os lendo de qualquer forma.

Já disse aqui sobre a novela que estava escrevendo. Durante o processo da mesma foi difícil me adaptar a uma forma narrativa. Minhas incursões pela ficção haviam sido tímidas e sem nenhuma pretensão. Mas quando se diz “vou escrever um livro”, você já tem uma pretensão. Tem que se dedicar. E enfrentei um problema com a voz narrativa. Depois de terminá-la quis sair experimentando novas vozes, formas de mostrar diálogo e ação. Exercícios. Experimentações. Parte delas vai estar no Leia ou Morra. Quando as obras de H.P. Lovecraft entrarem em domínio público esse ano eu estarei publicando um conto baseado em suas idéias lá.

Vou experimentar um novo formato também: webseriais. Veja este artigo da Wikipédia em inglês para mais informações. É basicamente o formato folhetim. “Musashi” foi originalmente publicado desta forma.

Brasil uma Profecia; O título é uma referência a alguns trabalhos de William Blake: “Europe A Prophecy” e “America A Prophecy”. E não tem nada a ver com Blake ou qualquer tema dele.

Círculo Quadrado; Ficções ao redor do discordianismo.

Ditadura de Idiotas; Sobre as pessoas que criam, mantém, estragam e poluem a internet. A primeira história é um conto moral.

primatemaia disseminada; Qfwfq não morreu. Mas volta em nova encarnação.

Convite

Rev. Tiago Madeira e Carol Peters, eu nem os avisei desse side project, estão convocados para fazerem parte. E vocês também. Quem quiser escrever sobre algum livro, algumas personagem ou publicar seu conto, etc. Entre em contato. Eu não mordo (pelo menos não fora de luas cheias).

Quem quiser conhecer o novo blog e spin off deste, sejam bem vindos. Quem não quiser, tudo bem, ele vai continuar lá.

PS: Há 23 header esperando para serem lidas.

Dorothy Parker

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

É uma pena que tão poucas obras de Dorothy Parker tenham sido traduzidas no Brasil ou estejam disponíveis atualmente. Ele é daquele tipo de personalidade que marcava todos, tantos que correm muitas lendas por aí sobre ela. Um de seus desafetos foi Clare Booth Luce, mulher do editor da revista Time, uma vez quando lhe disseram que sua rival era gentil com seus inferiores, Dorothy perguntou: “Mas onde ela os encontra?”. É dela também uma das menores resenhas já feitas, publicada na Esquire: “Este não é um livro para ser deixado casualmente de lado. É para ser atirado longe com toda a força”.

Uma poesia de Álvaro de Campos afirma: “Todas as cartas de amor são ridículas”. Ao examinar alguns maneirismos, olhares, diálogos e briguinhas sem sentido acho que podemos expandir o conceito para “Todos os que amam são ridículos”. Uma mostra dessa ridicularidade pode ser encontrada nesta pequena obra de Dorothy, Um Telefonema. Que jogue a primeira pedra aquele que não se reconhecer em uma ou outra linha (jogue as pedra nos comentários, por favor, caso contrário poderá quebrar o monitor de seu computador). Aproveito que notem o humor que essa gema traz, não apenas na agonia ridícula de uma boba apaixonada, mas na falta de resposta de suas preces, o silêncio de godot, e uma certa menção à Lei dos Cinco.

Um Telefonema

De Dorothy Parker

POR FAVOR, meu Deus, faça ele me telefonar agora. Querido Deus, faça ele me telefonar agora. Não peço mais nada, juro, não peço. Não é muito o que peço. Isso seria tão pouco pra você, Deus, uma coisinha de nada. Só faça ele me telefonar agora. Por favor, Deus. Por favor, por favor, por favor.

É a última vez que vou olhar para o relógio. Não vou olhar de novo. São sete e dez. Ele me falou que telefonaria às cinco. “Eu te ligo às cinco, querida.” Acho que foi quando ele falou “querida”. Tenho quase certeza de que foi quando ele falou. Sei que ele me chamou de querida duas vezes, e na outra foi quando ele disse até logo. “Até logo, querida.” Ele estava ocupado, e não podia falar muito no escritório, mas me chamou de “querida” duas vezes. Ele não deve ter se importado com o meu telefonema. Sei que não devemos ficar ligando para eles – sei que eles não gostam disso. Quando a gente faz isso eles percebem que ficamos pensando neles e esperando por eles, e eles têm ódio disso. Mas fazia três dias que eu não falava com ele – nada em três dias. E eu só queria perguntar como ele vai; como qualquer outra pessoa ligando para ele. Ele não deve ter se importado com isso. Ele não deve ter pensado que eu o estava aborrecendo. “É claro que não”, ele disse. E aí falou que ia me ligar. Ele não precisava dizer isso. Eu não pedi, realmente não pedi. Tenho certeza de que não. Acho que ele não ia dizer que me telefonaria se não tivesse a intenção de telefonar. Por favor, não deixe ele ficar sem me ligar, Deus. Por favor, não deixe.

“Eu te ligo às cinco, querida.” “Até logo, querida.” Ele estava ocupado, numa correria, e tinha gente perto, mas ele me chamou de “querida” duas vezes. Isso é meu, isso é meu. Ganhei isso, mesmo que nunca mais o veja de novo. Oh, mas é tão pouco. Não é suficiente. Nada vai ser suficiente, se eu nunca mais o ver novamente. Por favor, me deixe vê-lo de novo, Deus. Por favor, eu o quero tanto. Eu o quero tanto. Vou ser boa, Deus. Tentarei ser melhor, tentarei, se você me deixar vê-lo de novo. Se você fizer ele me telefonar. Oh, faça ele me telefonar agora.

Ah, não deixe minha prece parecer tão insignificante para você, Deus. Você fica aí sentado, tão branco e tão velho, com todos esses anjos e estrelas flutuando em volta. E eu vou até você com um pedido por um telefonema. Ah, não ria, Deus. Você vê, você não sabe como é sentir isso. Você está tão seguro aí no seu trono, com todo esse azul girando embaixo. Nada pode tocar você; ninguém pode triturar seu coração desse jeito. Isto é sofrimento, Deus, isto é sofrimento ruim, ruim. Não vai me socorrer? Pelo amor de seu Filho, me ajude. Você falou que faria qualquer coisa que fosse pedido em nome Dele. Oh, Deus, em nome de vosso único filho muito amado, Jesus Cristo, nosso Senhor, faça com que ele me telefone agora.

Preciso parar com isso. Não posso continuar desse jeito. Olhe. Imagine se um rapaz diz que vai ligar a uma garota, e então alguma coisa acontece e ele não liga. Não é assim tão terrível, é? Está acontecendo no mundo inteiro, neste minuto. Oh, que me importa o que está acontecendo no resto do mundo. Por que esse telefone não pode tocar? Por que não pode? Por que não pode? Você não pode ligar? Ah, por favor, não pode? Seu desgraçado, horroroso, lindo. Ia custar muito me ligar, não é? Oh, ia custar muito. Dane-se, vou arrancar esse telefone da parede, vou quebrar esse merda de aparelho preto em pedacinhos. Vá para o inferno.

Não, não, não. Tenho de parar. Preciso pensar sobre outra coisa. É isso que eu vou fazer. Vou colocar o relógio no outro quarto. Assim não fico olhando. Se eu tiver de olhar as horas, então vou ter de ir no quarto, e será alguma coisa para fazer. Talvez, antes que eu vá olhar o relógio de novo, ele me ligue. Vou ser tão doce com ele, se me ligar. Se ele me disser que não pode me ver hoje à noite, vou dizer: “Ora, está tudo bem, querido. É claro que tudo bem”. Vou ser do mesmo jeito que era quando nos encontramos pela primeira vez. Então quem sabe ele goste de mim de novo. Eu era sempre doce, no começo. Oh, é tão fácil ser doce com as pessoas antes de se apaixonar por elas.

Acho que ele deve gostar um pouco de mim ainda. Ele não teria me chamado de “querida” duas vezes hoje, se ainda não gostasse de mim um pouco; mesmo que seja só um pouco, bem pouquinho. Está vendo só, Deus, se você fizesse ele me telefonar, eu não teria de pedir a você mais nada. Eu seria doce com ele, seria alegre, seria do jeito que era antes, e então ele iria me amar de novo. E então eu nunca mais teria de pedir nada a você. Você não vê, Deus? Então por que não faz ele me telefonar? Faz? Por favor, por favor, por favor?

Está me castigando, Deus, porque tenho sido má? Você está zangado comigo porque fiz aquilo? Mas Deus, tem tanta gente ruim – você não pode ser duro só comigo. E não foi por maldade, não pode ter sido. Nós não magoamos ninguém, Deus. As coisas são más quando ferem as pessoas. Nós não prejudicamos uma única alma; você sabe disso. Você sabe que não foi por maldade, não sabe, Deus? Então por que não faz com que ele me telefone agora?

Se ele não me telefonar, vou saber que Deus está bravo comigo. Vou contar até quinhentos de cinco em cinco e se ele não me ligar então vou saber que Deus não vai me ajudar, nunca mais. Vai ser o sinal. Cinco, dez, quinze, vinte, vinte e cinco, trinta, trinta e cinco, quarenta, quarenta e cinco, cinqüenta, cinqüenta e cinco… Foi mal. Sei que foi mal. Certo, Deus, me mande para o inferno. Você pensa que me amedronta com seu inferno, não é? Você pensa. Seu inferno nem se compara com o meu.

Não devo. Não devo fazer isso. Vai ver ele só se atrasou um pouco para me ligar – não é para ficar histérica. Quem sabe ele nem vai ligar – quem sabe está vindo direto pra cá sem me telefonar antes. Ele vai ficar zangado se perceber que andei chorando. Eles não gostam que a gente chore. Ele não chora. Queria que Deus o fizesse chorar. Queria fazer ele chorar, e ficar se arrastando pelo chão, com o coração que nem chumbo dentro do peito. Queria ser capaz de magoar ele muito, muito.

Ele não me deseja. Acho que ele nem sabe como me faz sentir. Queria que ele soubesse, sem que eu precisasse dizer. Eles não gostam que a gente diga que eles fizeram a gente chorar. Não gostam que a gente diga que está infeliz por causa deles. Se a gente faz isso, eles acham que somos possessivas e exigentes. E aí ficam odiando a gente. Eles odeiam a gente sempre que falamos o que realmente pensamos. Às vezes a gente tem de fingir. Oh, pensei que não precisássemos disso; pensei que a gente se amava tanto que eu poderia dizer fosse o que fosse. Mas estou vendo que a gente não pode. Estou vendo que não há nada tão grande assim para que a gente possa falar o que sente. Oh, se ele pelo menos me telefonasse, eu não diria que tenho me sentido doente por causa ele. Eles odeiam pessoas doentes. Eu seria tão doce e tão alegre que ele não teria outro remédio senão gostar de mim. Se ao menos ele me telefonasse. Se ao menos telefonasse.

Vai ver é o que ele está fazendo. Vai ver ele está vindo para cá sem me ligar antes. Talvez esteja agora a caminho. Alguma coisa deve ter acontecido. Não, nada pode acontecer com ele. Nem posso imaginar alguma coisa acontecendo com ele. Não posso nunca imaginar ele morrendo. Nem pensar nele estendido, frio e morto. Queria que ele estivesse morto. Esse é um desejo horrível. É um desejo delicioso. Se ele estivesse morto, seria meu. Se estivesse morto, eu não pensaria sobre agora e sobre as últimas semanas. Eu me lembraria apenas dos tempos bons. Seria tudo lindo. Queria que ele estivesse morto. Queria que ele estivesse morto, morto, morto.

Isso é idiotice. É idiotice ficar desejando que as pessoas morram só porque não ligaram pra gente no exato minuto que falaram que iam ligar. Vai ver o relógio está adiantado, não sei se está certo. Quem sabe ele está muito atrasado e tudo o mais. Alguma coisa deve tê-lo atrasado um pouco. Talvez ele tenha precisado ficar no escritório. Talvez ele tenha ido para casa, para me ligar de lá, e alguém chegou. Ele não gosta de me telefonar na frente das pessoas. Talvez ele esteja preocupado, um pouquinho, bem pouquinho, por ter me deixado esperando. Ele deve estar esperando que eu ligue. Eu poderia. Eu poderia telefonar para ele.

Não devo. Não devo, não devo. Oh, Deus, por favor, não permita que eu telefone para ele. Por favor, me deixe longe disso. Eu sei, Deus, do mesmo jeito que você, que se ele estivesse preocupado comigo, teria telefonado, não importa de que lugar ou de quantas pessoas estivessem por perto. Por favor, me faça entender isso, Deus. Não pedi que VOCÊ facilitasse as coisas para mim – você não pode, mesmo tendo criado o mundo. Só permita que eu saiba disso, Deus. Não me deixe cair em tentação. Não me deixe ficar me enganando. Por favor não me deixe ter esperança, querido Deus. Por favor não deixe.

Não vou telefonar para ele. Jamais vou telefonar para ele de novo enquanto for viva. Ele vai queimar no fogo do inferno antes que eu ligue. Você não precisa me dar força, Deus; eu já tenho o suficiente. Se ele me quisesse, me teria. Ele sabe onde me encontrar. Ele sabe que estou aqui esperando. Ele é tão seguro de mim, tão seguro. Queria saber por que eles passam a nos odiar assim que ficam seguros da gente. Eu achava que era tão bom ter segurança quanto a uma pessoa.

Seria tão fácil telefonar para ele. Então eu saberia. Talvez não seja uma tolice fazer isso. Talvez ele não se importe. Talvez até goste. Talvez ele esteja tentando me ligar. Algumas vezes as pessoas tentam e tentam chamar a gente no telefone e dizem que o número não responde. Não estou dizendo isso para me consolar, isso realmente acontece. Você sabe que acontece, Deus. Oh, Deus, me deixe longe desse telefone. Me deixe longe. Me permita ter um restinho de orgulho. Acho que vou precisar disso, Deus. Acho que vai ser tudo que vai me sobrar.

Oh, que importa orgulho, se não agüento ficar sem falar com ele? Orgulho como esse é tão idiota, uma coisa tão insignificante. O orgulho verdadeiro, o grande orgulho é não ter orgulho nenhum. Não estou dizendo isso porque quero ligar para ele. Não estou. É verdade, sei que é verdade. Vou ser grande. Vou ficar acima desses pequenos orgulhos.

Por favor, Deus, não permita que eu telefone para ele. Por favor, Deus.

Não sei que orgulho pode existir nisso. É uma coisa tão à toa para eu estar pensando em orgulho, para eu estar fazendo tanta confusão a respeito. Devo ter entendido mal. Vai ver ele disse para eu ligar às cinco. “Me ligue às cinco, querida.” Ele pode perfeitamente ter dito isso. É bem possível que eu não tenha escutado direito. “Me ligue às cinco, querida.” Estou quase certa de que foi isso que ele falou. Deus, não permita que eu fale assim comigo de novo. Me faça saber, por favor, me faça saber.

Vou pensar sobre outra coisa qualquer. Vou simplesmente ficar sentada, quieta. Se eu pudesse ficar parada. Se eu pudesse ficar parada. Talvez eu consiga ler. Oh, todos esses livros são sobre gente que se ama de verdade. Por que sempre querem escrever sobre isso? Não sabem que não é verdade? Não sabem que é mentira, uma maldita mentira? Por que todo mundo tem de ficar falando disso, se sabem como isso machuca? Malditos, malditos, malditos.

Não vou ler. Vou ficar quieta. Nada de ficar agitada por causa disso. Olhe. Imagine que ele fosse alguém que eu não conhecesse muito bem. Suponha que ele fosse outra garota. Então eu simplesmente telefonaria e diria “bem, pelo amor de deus, o que aconteceu com você?” Era o que eu faria, e nem pensaria mais no assunto. Por que não posso ser natural, só porque o amo? Eu posso ser. Honestamente, eu posso ser. Vou ligar, e vai ser fácil e gostoso. Você vai ver se não vou, Deus. Oh, não me permita ligar. Não permita, não permita.

Deus, você realmente não vai fazer ele me ligar? Tem certeza, Deus? Não poderia reconsiderar? Não? Não peço que seja agora neste minuto, Deus; só faça ele me ligar daqui a pouco. Vou contar até quinhentos de cinco em cinco. Vou fazer isso bem devagar sem pular nenhum número. Se quando acabar ele não tiver telefonado, vou ligar. Vou. Oh, por favor, querido Deus, querido e bom Deus, meu abençoado Pai Que Estás no Céu, faça com que ele ligue antes disso. Por favor, Deus, por favor.

Cinco, dez, quinze, vinte, vinte e cinco, trinta, trinta e cinco…

Escrevendo uma Novela

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Estou escrevendo uma novela. Minha inspiração é o autor de Duas Caras…Não! Antes de mal-entendidos, o que diabos eu quero dizer com novela:

E a Wiki diz:
Novela em português é uma narração em prosa de menor extensão do que o romance. Em comparação ao romance, pode dizer-se que a novela apresenta uma maior economia de recursos narrativos; em comparação ao conto, um maior desenvolvimento de enredo e personagens. A novela seria, então uma forma intermediária entre o conto e o romance, caracterizada, em geral, por uma narrativa de extensão média na qual toda a ação acompanha a trajetória de um único personagem (o romance, em geral, apresenta diversas tramas e linhas narrativas). Etimologicamente, folhetins televisivos de longa duração deveriam ser chamados em português de telerromances, mas o termo de origem espanhola já está consagrado: telenovelas.

Não é nada diretamente ligado a discordianismo. Não ia escrever sobre a maldita enquanto não tivesse acabado. Mas eu precisava colocar aqui. Estou nas 23 mil palavras de por volta de 60 mil que eu acredito ser a dimensão total. Terminei o primeiro ato minutos antes de começar a postar no blog a fim de não negligencia-lo tanto.

Blog x Livro

Escrever um livro não é fácil. Antes eu achava que se você consegue escrever um blog, logo conseguiria escrever um livro. Não acho mais que seja assim. Precisa-se de uma disciplina maior. Um livro também não é um amontoado de vídeos, piadas e impressões do cotidiano que são escritas em cinco minutos. Se você faz isso em um blog está ótimo. Alguém entra, se diverte. Serviço bem-feito. Em um livro há uma preocupação maior.

Temas

Não sei se o que estou escrevendo se enquadra em uma ficção-científica. Não há nada de naves, laser ou mesmo “ação”. Mas passa-se em um futuro próximo, daqui a cinco anos. O motivo dessa ambientação é para causar um efeito de que um efeito que será vital para a trama aconteça no momento que o leitor está lendo (dentro da história ele se passa a cinco anos atrás, logo, passa-se no ano em que se lê a história). Estou preocupado em não contaminar ideologicamente a história com minhas visões. O que é um bocado complicado, para não dizer quase impossível. Alguns dos temas são: livre-arbítrio, morte, propósito da existência e mais especificamente em uma exploração do Teorema de Thomas (só existe fonte em inglês, aqui).

Só acredito em um deus que saiba dançar

Eu não sou um sujeito que dança. Todas as festas que participei eu ficava parado, olhava em volta e não entendia como as pessoas conseguiam dançar. Havia um trecho na novela que estou escrevendo, em que os dois mundos (pessoas como eu x pessoas que gostam de dançar) colide. Mas eu não tinha idéia nenhuma de como se sentia quem dançava, por que o fazia, e se aquilo era realmente bom. Então, de sexta para sábado, eu e alguns amigos meus fomos em um desses lugares onde há bar, música ao vivo e também DJ. Eu nunca tinha saído. Não sabia como me comportar ou como agir. Para quem dorme normalmente às 9, 9 e meia foi difícil ter que esperar me buscarem às 10 e meia em casa!

O resultado foi que cheguei em casa às 6 da manhã com as pernas doloridas, dor esta que somente me recuperei hoje, terça-feira. No inicio eu não me senti à vontade, nenhum pouco. Havia tantas garotas extremamente bem vestidas, dançando como se nada mais no mundo importasse e eu sendo estimulado por alguns a dançar. Lembro de olhar aquele mar de pessoas e desejar uma nova praga. E também de ter dito: “Não acho que alguém aqui queira discutir Nietzsche ou Schopenhauer”. Tinha uma personagem minha que adora dançar. Não sabia ser sincero ao escrevê-la. Lembrei de “Dance Dance Dance” de Haruki Murakami. E, cada vez que eu me lembro não se parece nenhum pouco com memórias minhas, eu acabei dançando. Dançando o eletro-pop como um robô de 1984, mas mesmo assim dançando.

Nem mesmo precisei beber álcool para me soltar igual alguns prescrevem. Tudo o que eu tomei foi coca-cola, guaraná e água mineral. E me diverti de montão, adorei cada minuto. Aprendi como é ser uma pessoa que eu normalmente não sou. Um dos melhores dias de minha vida com certeza. E o melhor: ainda vou poder usar aquela experiência como material de referência.

Mal posso esperar por mais. Tanto da novela quanto dessa experiência dançante!