Posts com a Tag ‘filosofia’

Zensider

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Outro dia eu ouvi um cara chamado Edvaldo Santana e gostei muito. Comecei a perguntar pro povo quem conhecia ele, e raramente encontrei uma resposta positiva. Seja como for, ele é um exemplo perfeito de antropofagia; o nome do disco, Blues Caboclo, já denuncia.

Mas eu vim aqui pra chamar atenção pra letra de uma das músicas, chamada Zensider. Deem uma olhada, e depois vamos comentar de forma mais incisiva.

Aprenda a costurar
As suas próprias roupas
Quando as flores
Forem poucas

Quando a brisa do inverno
Varrer sua casa
Aprenda a voar
Com as suas próprias asas

Em caso de cansaço
Sente-se
Como um tigre
Imóvel
Ao relento
Atento
Ao soprar do vento

Pode ser
Aconteça
Uma flor de lótus
Floresça
Na lama dos seus olhos

(quem usa Real Player pode tentar ouvir a música neste link)

Belíssima letra. Mas, como eu gosto de magia, simbologia, & essa Coisa Toda, eu vi coisas ali que, até agora, ninguém mais parece ter visto. A começar pelo título.  Zensider: provavelmente um neologismo em inglês, parecido com a palavra insider, no sentido de ‘‘alguém que tá por dentro’’. Logo, zensider seria não aquele que está zen, mas que compreende o zen, que é zen.

Vamos nos aprofundar um pouco no termo zen. Ele faz referência ao zen-budismo cuja característica mais marcante, para mim, é o nonsense dos koans – pequenas histórias aparentemente sem sentido (ou realmente sem sentido) que buscam ilustrar conceitos do zen-budismo, pra por a coisa de maneira bem (muito, aliás) simplória. No budismo há uma figura Muito Bonita, que é a Lótus de Mil Pétalas, figura para a ‘‘Iluminação’’. O ‘‘Desabrochar da Lótus de Mil Pétalas’’ é a iluminação.

A Lótus é uma flor singular. A semente pode esperar cinco mil anos (isso mesmo) pelas condições necessárias para brotar; a flor controla sua temperatura interna, e nasce da lama. Os deuses hindus (como Shiva, Ganesh) geralmente são representados em cima de uma flor de lótus.

Viajando um pouco: a iluminação é o desabrochar da lótus de mil pétalas. Crowley enunciou um conceito que é bastante comum em toda a magia: ‘‘Todo homem e toda mulher é uma estrela’’, ou seja, todo ser humano pode brilhar (deixe a mente derivar sobre o tema). Ora, a semente dura cinco mil anos, esperando; a iluminação, a capacidade adormecida, esta nunca morre. Ainda mais se considerarmos que, para o budismo, a alma retorna à vida enquanto não completar seu caminho até a iluminação, quando todos seus atos ruins (aquele lance de karma) forem sanados. Quando eles são, chega-se ao nirvana, que é, literalmente, a ‘‘não existência’’. Deixamos de renascer, pois já pagamos nossas dívidas. A lótus nasce da lama; assim, a iluminação pode surgir mesmo de algo tão lodoso quanto o ser humano.

Eu não preciso comentar agora a letra, principalmente, pois a chave dela é a última parte; ela é toda hippie (não devemos nos esquecer que o zen-budismo influenciou o movimento hippie, assim como muitos outros elementos orientais fizeram); a estrofe ‘‘pode ser/ aconteça/ uma flor de lótus/ floresça/ na lama dos seus olhos’’ tem um significado muito claro agora. Só lembrando que esse ‘‘pode ser/ aconteça’’ remete ao satori.

Espero ter tratado com clareza do assunto, e também que alguém comece a dar importância para o trabalho do Edvaldo, que, depois dessa, ganhou meu respeito.

all you need is love....
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fnord!

Uma Solução Para o Determinismo

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Segundo o determinismo o que você está lendo agora é exatamente o que você faria agora. Você não tem escolha ou livre arbítrio – você estava condenado a neste instante. Lendo um artigo no 1001 gatos de Schrödinger e para mim, caro leitor, significa que de toda forma eu estaria digitando este texto ao som de “Total Eclipse of the Heart”, a música mais romântica de todos os tempos, …once upon a time I was falling in love, now I’m only falling apart…Voltando: É a crença de que tudo o que acontece já está predestinado. Destino. Fim do capítulo didático básico.

Essa idéia sempre me incomodou a um nível bem pessoal. Como eu não levaria pelo lado pessoal quando me assombrava a idéia de quando levei um fora de uma garota isso se deve exclusivamente por que eu levaria o fora dela do mesmo jeito. Eu não era culpado por ser hesitante, tímido ou feio. Também não estava a cargo de qualquer uma das variáveis envolvidas na resposta negativa que pode ser algo dentre uma gama bem extensa incluindo aí TPM, humor, problemas familiares e acidez estomacal (isso mesmo rapaz, essas coisas alteram a receptividade das mulheres a novos parceiros).

Para quem defenda o determinismo há centenas de “então, quem manda no mundo?”. Pode ser deus, Zeus, Bill Gates, Steve Jobs, Silvio Santos ou a matemática. A matemática diz que como o nosso Universo físico é feito de partículas que interagem de acordo com algumas regras, o que está aí é basicamente o que deveria estar aí mesmo já que as partículas estavam apenas interagindo de acordo com suas regras, ponto.

Que tudo pode ser descrito numa equação. Mas isso aí sempre me deixou muito incomodado. Então pensei: pegue a Segunda Guerra Mundial por exemplo. Ou o Carnaval na Bahia. Como explicar esses eventos tão complexos e cheios de fluídos corporais apenas com base em quarks, prótons e nêutrons?

Aqui vai meu chute e minha solução para o determinismo: No momento que surgiram seres sencientes, tudo mudou. Se antes o determinismo operava já que significava que num dado momento um conjunto de peças estaria em posição n devido a uma interações possíveis, os seres sencientes não vai seriam governados desta forma. Agora caímos no mistério da consciência e percepção que nem quero entrar agora com medo de me perder.

Seres humanos possuem dentro da cabeça o órgão mais complexo que conhecemos até o momento. Possui o mesmo número de células de melão mas sabemos o que ele pode fazer. Essa poderosa ferramenta é muito mais desenvolvida que os primeiros aparatos dos seres sencientes originais, por isso somos muito mais senhores de nosso destino. A verdade é que preciso ponderar mais sobre o assunto, desenvolver o tema, pesquisar o histórico do tema com mais profundidade, mas realmente acho que essa é uma boa direção: seres sencientes escaparam no determinismo do Universo.

Sobre seres sencientes: É um ser senciente todo aquele que pode sofrer fisicamente ou psiquicamente, e que se caracteriza por possuir um sistema nervoso e um cérebro desenvolvidos. O conjunto dos seres sencientes compreende entre outros as espécies vertebradas, os mamíferos (humanos ou não), os pássaros, os répteis, os anfíbios e os peixes.

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Creative Commons License crédito: JustABoy

Amor, Sublime Amor

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Arthur entrou no costumeiro bar, sentou-se no lugar costumeiro do balcão; estava ansioso pelo jogo. Esperava fervorosamente que a Colômbia desbancasse o Brasil – mas é claro que não diria isso para o povo ali, ou seria enxotado.

- ‘Noite, Hetz. Feliz dia do Nietzsche.
- Boa noite, professor. Feliz dia do Bigode! – E Hetzlinger riu bastante. – E, ah, claro, feliz dia dos professores também. Veio assistir ao jogo, é?
- Podes crer. Nem me lembre que fui professor, argh. Me vê o de sempre.

O bartender começou a preparar a bebida do velho Arthur, e, enquanto este esperava pelo jogo, João chegou, batendo-lhe nas costas e desejando feliz dia do Bigode. Enquanto isso, o Jornal Nacional rolava solto na TV do bar e uma notícia chamou a atenção de João:

- Hoje, por volta das nove horas da noite, acabou o drama de Heloá, a jovem de 15 anos que estava sendo mantida como refém de seu ex namorado, Lindembergue Fernandes Alves, de 22 anos, inconformado com o fim do namoro… – o bartender abaixou o som da TV e comentou para Arthur e João:
-Horrível isso aí, não? Um cara desses merecia…
- Merecia nada, cara. – Arthur interrompeu Hetz, causando espanto neste e em João. – É mais que natural que esse tipo de coisa aconteça. E, depois, não é ele que está fazendo isso, mas o gênio da espécie.
- Xiiii, tu vais começar a viajar de novo, é, professor Schopenhauer? – o bartender falou, e voltou a limpar copos, deixando o volume da TV alto novamente. João, porém, após pensar um pouco, acabou por concordar com Arthur.
- Hetz, Arthur tá certo. Lembro de um trecho de EQM que fala sobre isso.
- EQM? – Arthur perguntou.
- É, o livro do rev. Ibrahim Cesar. Literatura discordiana. Nunca leu?
- Não, eu parei de ler.
- Parou de ler, mas e a bebida? – o velho filósofo fez um sinal de reprovação. – De qualquer forma, eu me lembro bem do que o livro fala. É Falls, a namorada do personagem principal, quem fala sobre a comunicação e como isto pode revelar como nos relacionamos com as pessoas. Olha só o que diz Falls:

? Voltando ao que eu queria dizer, esse pensador, Martin Buber falava de dois modos de expressão entre as pessoas. Ele falava da comunicação, entende? A comunicação se expressa de duas formas. EU-TU e EU-ISSO. O EU-ISSO é usado em nossas relações com o mundo das coisas. Essa é a minha casa. EU-ISSO, entende? O EU-TU são nossas relações com seres humanos. Eu quero passar o resto de minha vida com você. EU-TU.

- Certo. Então você quer dizer que a relação entre Lindembergue e Heloá chegou à esta condição de eu-isso? – Schopenhauer começou a pensar sobre isso. – Realmente, faz sentido, mas, como eu disse ali em cima, isso tudo foi causado pelo gênio da espécie. Explico: o amor não existe; o que existe é a vontade da vida se perpetuar noutro ser, num terceiro ser, e isso é o que faz surgir a admiração por alguém. Explicar tooodo o mecanismo seria um tanto enfadonho agora, portanto, fico por aqui, só para apresentar minha conclusão: Lindembergue não merece nenhum tipo de punição, apesar dos pais deles merecerem pelo péssimo gosto ao escolher o nome do filho; ele está sendo movido por algo que é maior que ele, maior que todos os desejos dele. Afinal, o que pintam todos os poetas e depois chamam de amor é, tão somente, algo que é transcendente a eles e, portanto, não podem entender em sua plenitude. Porém, o amor acaba quando ele realiza seu desejo: criar um terceiro indivíduo.

- Schop, te digo mais: Nietzsche concordaria contigo quanto a isso de não punir o cara – exclamou Hetz – já que o Bigode disse, em Assim Falou Zaratustra:

Sempre se viu só, como o autor de um
ato. Eu considero isso loucura; a
exceção converteu?se para ele em
regra.

Então, os três se olharam, olhavam para a TV, e Schopenhauer disse:

- Muito bom, gente, mas, agora, eu tô afim é de assistir o jogo. Tá pra começar.

Misquoted
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Feliz dia do Bigode fnord

Pequeno Guia para Fingir Inteligência – Parte Dois

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Resolvi completar a postagem anterior graças aos comentários dos leitores. Está certo que era uma “pequeno guia”, mas são itens de suma importância para se fingir inteligência. Obrigado a todos que comentaram!

Literatura

Ninguém hoje em dia escreve tão bem quanto qual qualquer clássico. Lembre isso a qualquer pessoa mesmo que ela nem queira saber. Ignore o fato de que os escritores clássicos diziam a respeito de sua própria época e escreviam em uma linguagem que espanta qualquer leitor moderno, mas que para a época era o padrão. Se um livro é best seller ele logicamente não presta. Cuidado! Se você for visto com um best seller na mão poderá ser muito ruim para a sua reputação. Se ganhar algum de presente pergunte para quem lhe presenteou se você pode trocá-lo. Claro que não precisa, mas você tem uma reputação a zelar.

Dica: Goste do cânone, lógico. Mas invista em literatura marginal, subversiva. Por quê? Se o cânone quase nenhum deles leu, imagina e literatura subversiva…Então aprecie os beats como Kerouak, Burroughs. Ou algum tipo muito específico de literatura. Japonesa (Haruki Murakami), Hebraica (Amos Oz), etc.

Você DEVE fingir ter lido: James Joyce, Kafka, Proust, Machado de Assis, Cervantes, Hemingway, Orwell.

Política

Esta se divide basicamente em duas formas de ser um idiota politizado:

Direita

O Governo Lula é mal e traiu sua ideologia (ignore o fato de que ele seguisse sua ideologia você igualmente iria odiá-lo, talvez odiar mais). O presidente é um bêbado (falácia ad hominem). O FHC salvou o mundo e ainda ficou com a garota no final.

Entrar na comunidade: “LUTO! Lula foi eleito”. E se esquecer de que vive em uma democracia.

Você DEVE gostar de: Casamento, deus, Capitalismo, mercado livre, Estados Unidos.

Sonho de consumo: viagem para Disney

Esquerda

Como a esquerda era melhor há 30 anos atrás. Lembram-se das diretas já? As pessoas lutavam pelos seus direitos, hoje em dia ninguém liga para nada. Che Che Che Che Che. O Capital. Marx. Che Che Che Che Che. Maio de 68, anarquismo. Hakim Bey. Libertário. Che Che Che Che Che.

Se você for jovem entrar na comunidade “Comunista não come criancinha”, cuja descrição é: “Somente garotas maiores de dezoite anos e consensual”.

Você DEVE gostar de: Marx, Trotsky, Feminismo, Reforma Agrária, Creative Commons, sexo livre.

Sonho de consumo: viagem para Cuba

Esportes

Futebol é para idiotas. Esportes inteligentes incluem: Xadrez, Esgrima e críticas destrutivas ao que quer que sua mente brilhante analise. Você também pode estar propenso a gastar 300 reais para ver uma corrida de Fórmula 1 e ficar sentado no Sol para ver só uma imagem borrada passando na sua frente e um barulho que quase estoura seu tímpano.

Você DEVE gostar: Zico (Pelé é para idiotas), Futebol Europeu (lá eles realmente tem inteligência no esporte – mas de onde saem os jogadores deles mesmo?), Ayrton Senna.

Gastronomia

Só por usar “gastronomia” para se referir a “comida” é uma grande passo que o diferenciará de 80% das outras pessoas. Você nem precisa saber fazer um miojo. Se dominar o vocabulário e o nome de alguns ingredientes já está valendo.

Você DEVE gostar de: Foie Gras, Vitela, Escargot, Champagne (Espumante é para os fracos), Vinho, Filé Mignon.

Dica: Nunca diga que está cheio. “Estou satisfeito” ou “Estava simplesmente fabuloso!”. Pessoas com etiqueta aparentam ser inteligentes. Invista nisso.

Blogs

Uma pessoa tão inteligente como você deve ter um veículo de expressão de suas idéias. O mundo não pode ser privado de seus pensamentos. Seria um desperdício. E nesses tempos de ecologia e politicamente correto não há nada pior do que desperdício. Crie um blog! Claro que isso é só um antes de você escrever o livro definitivo, depois do qual ninguém nunca mais precisará ler coisa alguma.

Use uma linguagem diferente da que usa no dia a dia. Escreva como Machado de Assis. Seja contra o “miguxês”, em suas palavras, “um atentado contra a última flor do lácio!”. Sei que espera ansiosamente por cada comentário, mas uma vez que os tenha – e será algo como “rox!!!!”, “um bjo para o Rafinha do BBB! fuuuuuuuuuuuuuuuuiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii…..”, você vai fazer uma postagem malcriada a respeito da “imbecialidade” que assola nossos país. Você, o ápice, o zênite, a epítome, o cume, o clímax da inteligência vivendo nesse país de iletrados! Você é um oásis em um deserto.

Você DEVE postar sobre: O vídeo “Dancem Macacos, dancem”, qualquer coisa da Apple (mesmo talvez 5% sendo Apple, dá a você um status cool e inteligente), trechos de livros de filosofia, opinião política e por último mas não menos importante, Pequeno guia para fingir inteligência (assim, através da ironia você se passará por inteligente).

E se nada disso der certo, saia com uma loira.

cérebro da loira

Limerância

sábado, 17 de novembro de 2007

Aposto que você já sentiu limerância e não sabia que isso tinha um nome.

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O quê?

- Sabe quando você vê uma garota na rua, e tudo faz sentido? Você “fica caídinho por ela” – falou ele desenhando as aspas no ar. – Você não sabe o nome, de onde veio ou para onde vai? Ou você subitamente se interessa por alguém que conhece. Não é amor. Como chamar isso? Uma americana estudou esse sentimento e chamou-o de limerence ou limerância.

- George em EQM.

Como?

É um estado cognitivo e emocional involuntário no qual uma pessoa sente intenso e involuntário desejo para com outra pessoa, o objeto limerente. Talvez seja a forma mais comum de afeto depois da infatuação. Precisa de ajuda com esse? Infatuação como podem ver na wikipédia em inglês, é a típica paixão adolescente, onde o sujeito ama desesperadamente para sempre e que dura entre algumas semanas e meses. Mas acontece também no início de relacionamentos onde a questão sexual é central. É o responsável por 8 entre 10 garotas grávidas na adolescência.

A limerência é diferente da infatuação pois pode durar meses, anos ou uma vida inteira. Existem pessoas mais suscetíveis a terem limerência do que outras. Elas ficam apegadas com facilidade;. Podem experimentar alegria intensa ou desespero intenso dependendo da reciprocidade. A diferença desta para o amor, é que o segundo envolve preocupação com os sentimentos e bem-estar da outra pessoa. Na limerância isso não é requerido, mas certamente pode vir a ser incorporado.

Quando você fica em “queda por alguém” (limerância), você não questiona sobre os sentimentos da pessoa no início, nem mesmo seu bem estar por isso o sexo com o objeto de limerância não é essencial ou suficiente para o indivíduo. O sentimento pode se dissipar uma vez estabelecida a reciprocidade. Relacionamentos que começam com limerância, ao contrário dos amorosos que envolvem compromisso e satisfação de estar com a pessoa amada, envolve incerteza e ansiedade.

Limerância se caracteriza como uma obsessão cognitiva com pensamentos intrusivos, vívida imaginação de atos com o objeto, preocupações adversas ficam sem segundo plano. Sensibilidade aguçada para qualquer ato, pensamento ou condição que possa ser interpretada de modo favorável e uma extraordinária habilidade para inventar explicações “razoáveis” para ações neutras de seu objeto que possa revelar uma paixão escondida. Acompanha medo de rejeição e vergonha na presença do objeto.

A limerância desenvolve-se e se sustenta quando existe um certo balanceamento entre certeza e incerteza.

Onde?

O termo limerence ou limerância por aqui foi criado pela psicóloga Dorothy Tennov em 1977 no livro “Love and Limerence” onde ela expunha diferenças entre os dois estados emocionais.

Depois de descobrir essa nova palavra e significado não pude ficar com a estranha sensação de nunca haver amado e sim apenas experimentado limerância por vários objetos.

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Tendências Cognitivas ou Enganado Por Si Mesmo

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Algumas pessoas têm medo da psicologia evolutiva. Medo mesmo, com m maiúsculo. Explico: A psicologia evolutiva deixa o homem nu e desarmado de qualquer filosofia, crença ou civilidade e mostra os nossos limites em conhecer, entender e interagir com o mundo. O que essas pessoas têm, na verdade, é que a psicologia evolutiva nos mostra nossos limites. Temem que isso acabe acabando com nossa esperança no progresso da humanidade, dias melhores, etc. Eu gosto da psicologia evolutiva exatamente por nos mostrar nossos limites. Conhecer nossos próprios limites é conhecer o campo onde o jogo é travado. Algumas pessoas entendem limites, regras e leis como sistemas que aprisionam e tornam quem os segue “escravos”.

Ferramentas

O alfabeto ocidental possui 26 letras. Esse é o seu limite. E usamos eles para comunicar literalmente bilhões de coisas diferentes e recombiná-las em sentenças de tal forma que criamos verdadeiras obras de arte em nosso gênero. Nesse exatmo momento estou usando esse sistema para comunicar isso e nem ao menos usei todas as letras disponíveis ou precisei me utilizar de gigantescas combinações da mesma. Seu computador está transformando zeros e uns no que você lê. Toda a internet e tudo mais feito em um computador não passa em seu âmago de zeros e uns. 0 e 1? Isso não seria uma limitação?

É que eles são ferramentas. Ferramentas para nos comunicarmos. Mas eu poderia estar falando de martelos ou facas. O ponto é o seguinte: Por conhecer as limitações de sua ferramenta e dominá-la um chef de cozinha faz aqueles cortes milimetricos e em uma velocidade enorme. Enquanto um idiota como eu apenas cortaria os dedos. Tudo isso para torná-los conscientes de que conhecer nossa natureza é a melhor coisa que podemos fazer para ter alguma paz de espírito.

Tendência 

- Talvez tenha sido involuntário. Algo semelhante a uma predestinação. Como poderia dizer? Não consigo encontrar s palavras adequadas…

- Tendência? – sugeri.

- É isso mesmo: TENDÊNCIA. É o que eu penso. Mesmo que você refaça sua vida, com certeza haverá de repetir as mesmas coisas. Isso é o que se chama propensão. E quando ela atinge um limite, já se torna impossível voltar atrás.

Trecho de “Dance Dance Dance” de Haruki Murakami.

Tendências Cognitivas

Então aprenda algumas tendências cognitivas inerentes ao ser humano (o que significa que você não é imune ou está fora da lista, nem eu)  que podem atingir um certo limite e se tornar impossível voltar atrás. Estar conscientes de desvios de rota faz o caminho ser menos surpreendente em um mal sentido.

Efeito do rebanho — É a tendência a fazer (ou acreditar) em algo por que muitas pessoas fazem ou acreditam naquilo. Não vou citar Nietzsche e a óbvia conexão com a religiã, façam por si mesmos, mas vou citar algo que demonstra a validade disso: Muitas pessoas deixam de comer manga e depois beber leite porque acreditam ser uma mistura fatal.

Tendência da confirmação — Quase 100% dos estudos patrocinados pela indústria do fumo a fim de estudar os efeitos nocivos nas pessoas de seus produtos tendem a amenizar os danos ou desacreditar algumas pesquisas. Tirando o fato óbvio deles pagarem o salário dos cientistas, existe a tendência de procurar ou interpretar as informações de uma maneira tal que confirme os pré-conceitos de alguém. É o grande bicho papão da ciência que a própria ciência busca ignorar.

Déformation professionnelle — É quando as pessoas passam a ver as coisas de acordo com suua profissão, excluindo qualquer outro ponto de vista. É muito comum acontecer isto. Sabe aquele cara que trabalha o dia todo e quando sai para se divertir só fala do trabalho? Minha convivência com estudantes da área de Exatas me levou a ter contato direto com isso: Quem faz Física acha que o mundo todo é objetivo da Física a fazendo uma espécie de rainha da ciência, já que ela estuda os átomos e, por Newton!, tudo é feito de átomos. O pessoal da química já gosta de lembrar que esses átomos estão em constantes transformações e processos e portanto, a Química é quem seria coroada rainha. Mas os matemáticos gostam de lembrar que tanto físicos como químicos descrevem tudo com matemática, que é a propósito, a rainha da ciência.

Tendência da Informação —  Procuramos informações a respeito de algo mesmo que o conhecimento da mesma não afete a ação.

Tendência da Omissão — A tendência a julgar ações danosas como piores, ou menos morais, que omissões igualmente danosas. Como você se sente a respeito desses dois cenários: 1) Eu enveneno uma pequena garotinha lhe dando uma bala envenada ou 2) eu vejo uma criança colocando na boca algo que eu sei ser mortal mas me omito por qualquer motivo. Qual é pior?

Tendência do Status quo —  É a tendência que temos de gostar mais de coisas ou pessoas que permanecem o mesmo.

Tendência do Consumo — Essa é o que move a publicidade: As pessoas tendem a gostar, e logo consumir, produtos que elas conheçam.

Tendência do Estereótipo — É a tendência cognitiva de julgar possuir conhecimento sobre um indivíduo sabendo o grupo social, filiação partidária, etc do mesmo. Afinal mulheres dirigem mal.

Ilusão da transparência — Tendemos a subestimar a capacidade dos outros em nos conhecer e em nossa capacidade em conhecer os outros. Quantos corações essa aqui não quebrou?

Tendência da homogeneidade grupal — Individuos  vêem membros de seu próprio gupo como sendo relativamente mais variados que membros de outros grupos. É por isso que estranhamente esteriótipos sempre funcionam com os outros e nunca com nós mesmos. Afinal, todos os homens dirigem muito bem.

Este foi um pequeno Top 10. Eu nem sequer arranhei a superfície.

Maiêutica

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

“Em princípio achei estranho viver entre os azande e ouvir suas ingênuas explicações de infortúnios que, para nós, têm causas evidentes. Depois de certo tempo aprendi a lógica do seu pensamento e passei a aplicar noções de feitiçaria de forma tão espontânea quanto eles mesmos, nas situações em que o conceito era relevante. Um menino bateu o pé num pequeno toco de madeira que estava em seu caminho — coisa que acontece freqüentemente na África –, e a ferida doía e incomodava. O corte era no dedão e era impossível mantê-lo limpo. Inflamou. Ele afirmou que bateu o dedo no toco por causa da feitiçaria. Como era meu hábito argumentar com os azande e criticar suas declarações, foi o que eu fiz. Disse ao garoto que ele batera o pé no toco de madeira porque ele havia sido descuidado, e que o toco não havia sido colocado no caminho por feitiçaria, pois ele ali crescera naturalmente. Ele concordou que a feitiçaria não era responsável pelo fato de o toco estar no seu caminho, mas acrescentou que ele tinha os seus olhos bem abertos para evitar tocos — como, na verdade, os azande fazem cuidadosamente — e que se ele não tivesse sido enfeitiçado ele teria visto o toco. Como argumento final para comprovar o seu ponto de vista ele acrescentou que cortes não demoram dias e dias para cicatrizar, mas que, ao contrário, cicatrizam rapidamente, pois esta é a natureza dos cortes. Por que, então, sua ferida teria inflamado e permanecido aberta se não houvesse feitiçaria atrás dela?”
(E. E. Evans-Pritchard em “Witchcrafts, Oracles and Magic among the Azande”)

Independente de sua crença ou falta de crença, você leu o texto acima e deve ter gargalhado das explicações ingênuas dos “azande” para fenômenos que a nossa ciência “prova”, assim como o escritor deste excerto. Porém, daqui a alguns anos, com certeza haverá gente rindo da nossa “ignorância” com uma nova filosofia baseada em outras premissas.

Já parou pra pensar nisso?

Eu sou eu mais as minhas circunstâncias

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Eu sou feio, baixo e nenhum pouco atlético. É a fórmula para a solidão. E até onde eu cheguei eu posso atestar: funciona. E não estou escrevendo isso para ficar choramingando, muito pelo contrário. Essa premissa de minha vida, essa minha “circunstância” me manteve afastado daquela esfera de prioridade que parece ser a de todos ao meu redor. Não são poucos os que se casaram, nem poucas a que tiveram filhos ou os que engravidaram alguma garota. Olho ao redor e a constatação me parece óbvia: sou diferente. Não sei se é bom ou melhor. Talvez em alguns momentos eu inveje a vida deles e sei por testemunho que até mesmo eles, em algum momento, desejam ser como eu.

Parto desta premissa para abordar Ortega y Gasset de que o “cogito ergo sum” de Descartes não é de todo suficiente. Penso, logo existo. Mas ao existir caímos em um mundo do qual teremos que lidar com certas circunstâncias. Não escolhemos ser destros ou canhotos, a cor de nossa pele, nosso sexo e muito menos o lugar onde nasceremos. Isso pode ser aplicado em cada esfera possível. Acreditamos, ou melhor, queremos acreditar que podemos criar uma vida melhor, um relacionamento melhor, um país melhor, mas sempre esquecemos em nossos cálculos das premissas dadas, das “circunstâncias”, que mesmo à revelia teremos que encarar.

“Acordo.Onde estou?Reflito.Não só reflito, como também me questiono:-Onde estou?-No entanto, esta pergunta não tem nenhum sentido, pois sei exatamente qual é a resposta.Aqui é a minha vida.O cotidiano da minha existência.Algo subordinado à existência real denominado eu.Aqui é um lugar em que, tendo eu aprovado ou não certas ocorrências, fatos e circunstâncias, elas se tornaram parte de minha existência.” (Haruki Murakami. Dance Dance Dance.p.9)

O grande segredo é saber lidar com as circunstâncias. Cristianismo, socialismo, e quase todos os “ismos” ignoram por completo as circunstâncias. Nossas circunstâncias enquanto seres biológicos e inúmeras outras. A mesma coisa quando imaginamos algum cenário futuro para nossas existências: sempre imaginamos algo que muitas vezes desconsidera nossas circunstâncias.

“’Eu sou eu’ porque sou, antes de tudo, essência. E uno, único, indivisível. Posso ser copiado, imitado, mas não duplicado em mente e alma. Sou o resultado de meus pais, meus avós, meus ancestrais, todos vivendo dentro de mim e ao mesmo tempo agora.
Sou também fruto das ‘circunstâncias’, do imponderável, do ambiente. Das pessoas que me cercam, das com quem me relaciono, das que me dão ouvidos e das que me dão palavras. Daquelas que ao me encontrarem levam um pouco de mim e deixam um pouco de si. Que me depuram, que me lapidam, que me transformam. Mas é certo que são “minhas” circunstâncias, posto que posso elegê-las.(José Ortega y Gasset)

[tags]Ortega y Gasset, Haruki Murakami,Filosofia[/tags]

Platão contra Aristóteles

terça-feira, 15 de maio de 2007

Nota pessoal: Escrevo esta postagem ? s 5:23 p.m. (é sério!) após estar dormindo desde 10:10 a.m. quando fui sedado para que realizassem em mim um exame de endoscopia. Tive um sonho com Coleridge (penso em quantas pessoas já sonharam com ele) que me inspirou a escrever esta postagem.

Samuel Taylor Coleridge (1772 – 1834) foi poeta, escritor, conferencista, professor, tradutor, criador de jornais e revistas e se vivesse hoje em dia tenho certeza de que teria um blog. Ele é um dos pioneiros do romantismo inglês e em 1798 “escreveu” o poema “Kubla Khan”. Agora entra a parte interessante do processo criativo: Ele escreveu tal poema se lembrando do sonho que tivera sobre Xanadu, mágica e misteriosa capital do reinado mongol de Kublai Khan sobre a qual existe muitas lendas e uma música do Eletronic Ligth Orchestra. No sonho uma voz teria lhe sussurado mais de 300 versos que ele ao acordar pôs-se a passar para o papel para que não se esquecesse da beleza dos mesmos. No entanto, ele foi interrompido por um vendedor de seguros e não conseguiu mais de lembrar do restante (hoje em dia seria o telemarketing, estou certo disso). Só restaram 50 versos fragmentados, mas considerados brilhantes, sobre os quais foi feito o comentário: “Tudo o que merece ficar de Coleridge poderia-se reunir em 20 páginas, e essas 20 páginas deveriam ser encarnadas em ouro!”

Foi Coleridge quem disse certa vez de Platão e Aristóteles que colocaram “dois sistemas opostos diante da mente do mundo”. E disse mais: “Todo homem nasce aristotélico ou platônico. São duas classes de homens, ao lado das quais é praticamente impossível conceber uma terceira”.

Platão ambicionava a sabedoria do além, do mundo das idéias, do qual o nosso mundo é apenas uma sombra pálida. Idealista.

Aristóteles procura a sabedoria aqui, com os dois pés no chão. Foi Aristóteles um dos primeiros a procurar uma verdade objetiva sem a necessidade de “mágica”. Realista.

ÿ claro, que tanto Platão, como Aristóteles, não podem ser resumidos em apenas duas linhas de forma tão simplificada, mas delimita bem o que Coleridge quis dizer que um homem nasce ou platônico ou aristotélico. Por muitos anos eu sempre achei que fosse platônico, mas eu estava enganado. Por mais que eu seja idealista, é um idealismo nos meus termos. Eu não acho que podemos construir uma utopia, ou que o socialismo mudaria o mundo. O idealismo em meus termos somente me diz que algo deve ser feito. Hoje posso dizer que sei que sou um sujeito aristotélico.

Agora a pergunta: Você é aristotélico ou platônico?

[tags]Coleridge, Platão, Aristóteles,tipos[/tags]

Nasrudin & Eu

terça-feira, 8 de maio de 2007

Há uma história de um mullah da tradição sufi do islamismo (é um título dado a um tipo de clérigo da religião) que ilustra perfeitamente o modo como muitos levam sua vid, incluindo eu. Ao lerem a pequena parábola abaixo, vão notar que ele trata do “amor”, porém, eu acredito que tal parábola possa ser levada a vários outros lugares; Amizade, sonhos, etc e tal. Use a sua imaginação.

Nasrudin conversava com um amigo, que lhe perguntou:

- Então, mullah, nunca pensaste em casamento?

- Já pensei. Em minha juventude, resolvi conhecer a mulher perfeita. Atravessei o deserto, cheguei a Damasco, e conheci uma mulher espiritualizada e linda; mas ela não sabia nada das coisas do mundo. Continuei a viagem, e fui a Isfahan; lá encontrei uma mulher que conhecia o reino da matéria e do espírito, mas não era uma moça bonita. Então resolvi ir até o Cairo, onde jantei na casa de uma moça bonita, religiosa e conhecedora da realidade material.

- E por que não casaste com ela?

- Ah, meu companheiro! Infelizmente ela também procurava um homem perfeito.

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