Lendo e adorando. Um tipo de história muito bem escrita e que realmente me motiva a virar página atrás de página. É quase um Palahniuk melhorado e com muito conteúdo. Enquanto Palahniuk usa-se de ?coros? (slogans que se repetem durante todo o livro), e uma prosa descritiva e simplificada ao máximo, J.G. Ballard demonstra ter preocupação com a forma e possui uma prosa bem mais elaborada.
Retirei ontem da biblioteca e estou na página 203, com planos de acabar suas 326 páginas ainda hoje. O que o aproxima de Palahniuk é a temática da revolução e da forma de tentar mudar as coisas. O que o distancia de Palahniuk é que o primeiro pode ser um bom contador de histórias, mas Ballard é um bom contador de histórias e um tremendo escritor e usa seu talento para falar de um revolução feita pela classe média.
Não há como não enxergar paralelos com o discordianismo nas ações praticadas por estes terroristas do milênio (eles literalmente combatem o século XX) ou estas pessoas do milênio (do título original). Destaco algumas das partes mais importantes:
??a idéia de deus como um enorme vácuo imaginário, o maior nada que o ser humano pode inventar. Não algo vasto, lá no alto, mas uma imensa ausência. Você disse que apenas um psicopata pode contemplar a ausência de milhões de casas decimais de zeros. O restante de nós trememos com o vácuo e precisamos enchê-lo com qualquer lastro disponível – truques do espaço tempo, velhos sábios barbudos, universos morais??
Sobre o século 20:
?Ainda anda por aí. Define tudo o que fazemos e nosso modo de pensar. Mas duvido que haja algo de bom a se dizer a respeito dele. Guerras genocidas,metade do mundo na miséria, outra metade andando como sonâmbulos, com morte cerebral. Compramos esses sonhos podres e agora não podemos acordar.?
Sobre o turismo:
“O turismo é o maior soporífero. Trata-se de um tremendo conto-do-vigário, dando às pessoas a idéia de que há algo de interessante em sua vida. É a dança das cadeiras ao contrário. Quando a música pára as pessoas levantam e dançam em volta do mundo, e mais cadeiras são acrescentadas ao círculo, mais marinas e mais hotéis Marriott, por isso todos pensam que estão ganhando. [...]Os turistas de hoje não vão a lugar nenhum. Todos os upgrades da vida levam aos mesmos aeroportos e resorts, à mesma cascata de piña colada. O turista sorri bronzeado, mostra os dentes brancos e pensa que é feliz [...] a ilusão de ir a outro lugar ajuda o sujeito a reinventar a vida dele. [...] Não há para onde ir. O planeta está lotado. Melhor ficar em casa e gastar dinheiro em cobertura de chocolate.?
Embora Ballard pinte um futuro carregado de cores sombrias, compondo uma bela tela distópica (o inverso de um utopia) ele não se acha pessimista, pois ?não é pessimista o sujeito que diz curva perigosa à esquerda?, e esta é a função de sua ficção que não é rotulada por ele como ficção científica. Além de escrever à mão ele acha que a ficção científica foi ultrapassada pois o futuro já chegou e foi pior do que imaginaram. Deixe-me voltar ao livro e à cobertura de chocolate.
Vá Além:
Terroristas do Milênio, J. G. Ballard
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