Na minha jornada pelo livro “O Homem e seus Símbolos”, do Jung, notei que o velhinho é bastante incisivo quanto aos males que a civilização contemporânea causa (na época dele, o mundo estava dividido entre o Ocidente capitalista & o Oriente comunista, algo que ele considerava uma “esquizofrenia”. Para mais detalhes, leia o livro.). Explico: ele argumenta que o distanciamento dos instintos básicos não nos destituiu dos instintos, apenas os tirou do limiar da consciência, forçando-os a serem desenvolvidos no inconsciente. Para Jung, o inconsciente tem a capacidade de criar & desenvolver idéias (por isso mesmo algumas pessoas têm momentos de epifania, ou insights surgem nonada); assim, quando esses instintos desenvolvidos pelo inconsciente se manifestam, ocorrem em forma de neuroses, “humores inexplicáveis, esquecimentos inesperados ou lapsos de palavra”.
Além de o afastamento das nossas raízes naturais nos causar problemas mentais – o que, indubitavelmente, caso um estudo mínimo da psicologia junguiana seja feito, é comprovado – o ser humano perde muito do caráter místico do mundo devido à ciência e ao excesso de racionalismo. Para uma pessoa instruída, o impacto de começar a ouvir vozes é infinitamente maior do que num primitivo: enquanto o primeiro vai entrar em desespero por se imaginar louco, o segundo considera algo natural (em seu universo cultural), ou seja, um fantasma, demônio ou algo parecido. Mais que isso, conhecer a Natureza com a frieza & objetividade científicas nos afasta da Natureza, o que nos deixa com as ameaças de problemas (e, para não ser hipócrita, problemas reais, como o desmatamento da Amazônia, que está longe de ser uma irrealidade & problema hipotético) com as quais convivemos.
Porém, ainda há outro déficit que o ser humano adquire com um exacerbado nível de “civilização”: por exemplo, é muito mais opressor imaginar que se é um em seis bilhões e cem mil de organismos iguais do que não ter conhecimento de quantos seres humanos existem por aí. O niilismo, o vazio existencial, quando tomado como um fim & destituição de qualquer sentido da vida humana, nos causa uma enorme opressão. Hoje não somos mais filhos de um deus, não temos rituais que não sejam o Fabuloso Ritual da Compra ou a Peregrinação ao Shopping, nada mais tem um valor místico, não existem casas mal-assombradas, espíritos da floresta, et cetera. Nas palavras do próprio psicólogo, o que perdemos “é a consciência de que a vida tem uma significação mais ampla que eleva o homem acima do simples mecanismo de ganhar e gastar”.
O misticismo continua no mundo subjetivo – se manifestando em forma de religiões, de crendices, de medos irracionais quanto a fantasmas, etc. – mas, para a coletividade, ele praticamente inexiste. Novamente, por existir somente no nível subjetivo, e pela mente consciente estar majoritariamente ocupada com a linha racional de pensamento, essas crenças & este misticismo é jogado para o inconsciente, e esta separação, este engavetamento do que é consciente e inconsciente, essa padronização do que ocupa nossa mente e do que ocupa ela no nível que não controlamos, é o que causa inúmeros problemas mentais diferentes, que são verificados na prática, pelos psicólogos.
A partir de agora, irei um pouco além do Jung dentro das consequências desta falta de irracionalidade do mundo contemporâneo.
A Magia do Caos é posterior ao velho, que morreu em 1961, e é um movimento de magia freestyle com uma expressividade grande no mundo todo. Por não exigir nenhum vínculo com ordens & coisas do tipo, além de ter uma comunidade independente ativa, sempre a discutir idéias e produzir textos, bem como dar um valor muito grande à imaginação. A Magia do Caos é, basicamente, uma metacrença – ou seja, um apanhado de crenças intercambiáveis, escolhidas & até mesmo inventadas pelo praticante.
Uma das grandes sacadas dos caoístas (é assim que se designa um “praticante de magia do caos”) é a utilização do espaço público, ou seja, do mundo como elemento mágicko. Por exemplo, o xamanismo urbano; ele propõe a conversação com deuses, espíritos & outras entidades que viveriam nas cidades, ou ainda advindas da tecnologia. Talvez essa idéia tenha raízes ainda mais profundas, na psicogeografia e na deriva propostas pelos situacionistas. Essas práticas tinham como objetivo dar um novo significado à cidade, tomá-la emocionalmente, simbolicamente, etc. Obviamente que muitos consideram besteira, mas Jung concordaria; ademais, os reacionários costumam rir das idéias que lhes dão mais medo. O Ar Superior & Besta é nada mais que uma égide velha e desgastada.
Quero dizer mais duas coisas, a partir de aqui: a primeira é que a magia do caos é um movimento que surgiu em decorrência destes déficits que Jung considera, avalia & demonstra como prejudiciais. A segunda coisa, é que este movimento encerra em si mesmo a solução para os problemas constatados por ele: a criação de novos mitos (com a adequação dos antigos arquétipos para nossa realidade contemporânea), a possibilidade de crer naquilo que for necessário, a importância da criatividade & imaginação ressaltada, a retomada do uso ritualístico do corpo, do mundo, das idéias, e por aí vai.
Só resta lembrar que isto não é uma “adequação do mundo capitalista às necessidades psicológicas”, e sim um movimento que põe em xeque, inclusive, o sistema como um todo, e sua necessidade de organização hierárquica. Basta saber que Hakim Bey apóia as religiões livres como um meio de ativismo muito eficaz – e, eu diria, muito mais eficaz que qualquer destes ativismos politizados que se encontre por aí. Mais até que o Fórum Social Mundial.














