Arthur entrou no costumeiro bar, sentou-se no lugar costumeiro do balcão; estava ansioso pelo jogo. Esperava fervorosamente que a Colômbia desbancasse o Brasil – mas é claro que não diria isso para o povo ali, ou seria enxotado.
- ‘Noite, Hetz. Feliz dia do Nietzsche.
- Boa noite, professor. Feliz dia do Bigode! – E Hetzlinger riu bastante. – E, ah, claro, feliz dia dos professores também. Veio assistir ao jogo, é?
- Podes crer. Nem me lembre que fui professor, argh. Me vê o de sempre.
O bartender começou a preparar a bebida do velho Arthur, e, enquanto este esperava pelo jogo, João chegou, batendo-lhe nas costas e desejando feliz dia do Bigode. Enquanto isso, o Jornal Nacional rolava solto na TV do bar e uma notícia chamou a atenção de João:
- Hoje, por volta das nove horas da noite, acabou o drama de Heloá, a jovem de 15 anos que estava sendo mantida como refém de seu ex namorado, Lindembergue Fernandes Alves, de 22 anos, inconformado com o fim do namoro… – o bartender abaixou o som da TV e comentou para Arthur e João:
-Horrível isso aí, não? Um cara desses merecia…
- Merecia nada, cara. – Arthur interrompeu Hetz, causando espanto neste e em João. – É mais que natural que esse tipo de coisa aconteça. E, depois, não é ele que está fazendo isso, mas o gênio da espécie.
- Xiiii, tu vais começar a viajar de novo, é, professor Schopenhauer? – o bartender falou, e voltou a limpar copos, deixando o volume da TV alto novamente. João, porém, após pensar um pouco, acabou por concordar com Arthur.
- Hetz, Arthur tá certo. Lembro de um trecho de EQM que fala sobre isso.
- EQM? – Arthur perguntou.
- É, o livro do rev. Ibrahim Cesar. Literatura discordiana. Nunca leu?
- Não, eu parei de ler.
- Parou de ler, mas e a bebida? – o velho filósofo fez um sinal de reprovação. – De qualquer forma, eu me lembro bem do que o livro fala. É Falls, a namorada do personagem principal, quem fala sobre a comunicação e como isto pode revelar como nos relacionamos com as pessoas. Olha só o que diz Falls:
? Voltando ao que eu queria dizer, esse pensador, Martin Buber falava de dois modos de expressão entre as pessoas. Ele falava da comunicação, entende? A comunicação se expressa de duas formas. EU-TU e EU-ISSO. O EU-ISSO é usado em nossas relações com o mundo das coisas. Essa é a minha casa. EU-ISSO, entende? O EU-TU são nossas relações com seres humanos. Eu quero passar o resto de minha vida com você. EU-TU.
- Certo. Então você quer dizer que a relação entre Lindembergue e Heloá chegou à esta condição de eu-isso? – Schopenhauer começou a pensar sobre isso. – Realmente, faz sentido, mas, como eu disse ali em cima, isso tudo foi causado pelo gênio da espécie. Explico: o amor não existe; o que existe é a vontade da vida se perpetuar noutro ser, num terceiro ser, e isso é o que faz surgir a admiração por alguém. Explicar tooodo o mecanismo seria um tanto enfadonho agora, portanto, fico por aqui, só para apresentar minha conclusão: Lindembergue não merece nenhum tipo de punição, apesar dos pais deles merecerem pelo péssimo gosto ao escolher o nome do filho; ele está sendo movido por algo que é maior que ele, maior que todos os desejos dele. Afinal, o que pintam todos os poetas e depois chamam de amor é, tão somente, algo que é transcendente a eles e, portanto, não podem entender em sua plenitude. Porém, o amor acaba quando ele realiza seu desejo: criar um terceiro indivíduo.
- Schop, te digo mais: Nietzsche concordaria contigo quanto a isso de não punir o cara – exclamou Hetz – já que o Bigode disse, em Assim Falou Zaratustra:
Sempre se viu só, como o autor de um
ato. Eu considero isso loucura; a
exceção converteu?se para ele em
regra.
Então, os três se olharam, olhavam para a TV, e Schopenhauer disse:
- Muito bom, gente, mas, agora, eu tô afim é de assistir o jogo. Tá pra começar.

photo credit: quinn.anya
Feliz dia do Bigode fnord













