Outro dia eu ouvi um cara chamado Edvaldo Santana e gostei muito. Comecei a perguntar pro povo quem conhecia ele, e raramente encontrei uma resposta positiva. Seja como for, ele é um exemplo perfeito de antropofagia; o nome do disco, Blues Caboclo, já denuncia.
Mas eu vim aqui pra chamar atenção pra letra de uma das músicas, chamada Zensider. Deem uma olhada, e depois vamos comentar de forma mais incisiva.
Aprenda a costurar
As suas próprias roupas
Quando as flores
Forem poucasQuando a brisa do inverno
Varrer sua casa
Aprenda a voar
Com as suas próprias asasEm caso de cansaço
Sente-se
Como um tigre
Imóvel
Ao relento
Atento
Ao soprar do ventoPode ser
Aconteça
Uma flor de lótus
Floresça
Na lama dos seus olhos(quem usa Real Player pode tentar ouvir a música neste link)
Belíssima letra. Mas, como eu gosto de magia, simbologia, & essa Coisa Toda, eu vi coisas ali que, até agora, ninguém mais parece ter visto. A começar pelo título. Zensider: provavelmente um neologismo em inglês, parecido com a palavra insider, no sentido de ‘‘alguém que tá por dentro’’. Logo, zensider seria não aquele que está zen, mas que compreende o zen, que é zen.
Vamos nos aprofundar um pouco no termo zen. Ele faz referência ao zen-budismo cuja característica mais marcante, para mim, é o nonsense dos koans – pequenas histórias aparentemente sem sentido (ou realmente sem sentido) que buscam ilustrar conceitos do zen-budismo, pra por a coisa de maneira bem (muito, aliás) simplória. No budismo há uma figura Muito Bonita, que é a Lótus de Mil Pétalas, figura para a ‘‘Iluminação’’. O ‘‘Desabrochar da Lótus de Mil Pétalas’’ é a iluminação.
A Lótus é uma flor singular. A semente pode esperar cinco mil anos (isso mesmo) pelas condições necessárias para brotar; a flor controla sua temperatura interna, e nasce da lama. Os deuses hindus (como Shiva, Ganesh) geralmente são representados em cima de uma flor de lótus.
Viajando um pouco: a iluminação é o desabrochar da lótus de mil pétalas. Crowley enunciou um conceito que é bastante comum em toda a magia: ‘‘Todo homem e toda mulher é uma estrela’’, ou seja, todo ser humano pode brilhar (deixe a mente derivar sobre o tema). Ora, a semente dura cinco mil anos, esperando; a iluminação, a capacidade adormecida, esta nunca morre. Ainda mais se considerarmos que, para o budismo, a alma retorna à vida enquanto não completar seu caminho até a iluminação, quando todos seus atos ruins (aquele lance de karma) forem sanados. Quando eles são, chega-se ao nirvana, que é, literalmente, a ‘‘não existência’’. Deixamos de renascer, pois já pagamos nossas dívidas. A lótus nasce da lama; assim, a iluminação pode surgir mesmo de algo tão lodoso quanto o ser humano.
Eu não preciso comentar agora a letra, principalmente, pois a chave dela é a última parte; ela é toda hippie (não devemos nos esquecer que o zen-budismo influenciou o movimento hippie, assim como muitos outros elementos orientais fizeram); a estrofe ‘‘pode ser/ aconteça/ uma flor de lótus/ floresça/ na lama dos seus olhos’’ tem um significado muito claro agora. Só lembrando que esse ‘‘pode ser/ aconteça’’ remete ao satori.
Espero ter tratado com clareza do assunto, e também que alguém comece a dar importância para o trabalho do Edvaldo, que, depois dessa, ganhou meu respeito.

photo credit: thejonoakley
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