Tendências Cognitivas ou Enganado Por Si Mesmo

Algumas pessoas têm medo da psicologia evolutiva. Medo mesmo, com m maiúsculo. Explico: A psicologia evolutiva deixa o homem nu e desarmado de qualquer filosofia, crença ou civilidade e mostra os nossos limites em conhecer, entender e interagir com o mundo. O que essas pessoas têm, na verdade, é que a psicologia evolutiva nos mostra nossos limites. Temem que isso acabe acabando com nossa esperança no progresso da humanidade, dias melhores, etc. Eu gosto da psicologia evolutiva exatamente por nos mostrar nossos limites. Conhecer nossos próprios limites é conhecer o campo onde o jogo é travado. Algumas pessoas entendem limites, regras e leis como sistemas que aprisionam e tornam quem os segue “escravos”.

Ferramentas

O alfabeto ocidental possui 26 letras. Esse é o seu limite. E usamos eles para comunicar literalmente bilhões de coisas diferentes e recombiná-las em sentenças de tal forma que criamos verdadeiras obras de arte em nosso gênero. Nesse exatmo momento estou usando esse sistema para comunicar isso e nem ao menos usei todas as letras disponíveis ou precisei me utilizar de gigantescas combinações da mesma. Seu computador está transformando zeros e uns no que você lê. Toda a internet e tudo mais feito em um computador não passa em seu âmago de zeros e uns. 0 e 1? Isso não seria uma limitação?

É que eles são ferramentas. Ferramentas para nos comunicarmos. Mas eu poderia estar falando de martelos ou facas. O ponto é o seguinte: Por conhecer as limitações de sua ferramenta e dominá-la um chef de cozinha faz aqueles cortes milimetricos e em uma velocidade enorme. Enquanto um idiota como eu apenas cortaria os dedos. Tudo isso para torná-los conscientes de que conhecer nossa natureza é a melhor coisa que podemos fazer para ter alguma paz de espírito.

Tendência 

- Talvez tenha sido involuntário. Algo semelhante a uma predestinação. Como poderia dizer? Não consigo encontrar s palavras adequadas…

- Tendência? – sugeri.

- É isso mesmo: TENDÊNCIA. É o que eu penso. Mesmo que você refaça sua vida, com certeza haverá de repetir as mesmas coisas. Isso é o que se chama propensão. E quando ela atinge um limite, já se torna impossível voltar atrás.

Trecho de “Dance Dance Dance” de Haruki Murakami.

Tendências Cognitivas

Então aprenda algumas tendências cognitivas inerentes ao ser humano (o que significa que você não é imune ou está fora da lista, nem eu)  que podem atingir um certo limite e se tornar impossível voltar atrás. Estar conscientes de desvios de rota faz o caminho ser menos surpreendente em um mal sentido.

Efeito do rebanho — É a tendência a fazer (ou acreditar) em algo por que muitas pessoas fazem ou acreditam naquilo. Não vou citar Nietzsche e a óbvia conexão com a religiã, façam por si mesmos, mas vou citar algo que demonstra a validade disso: Muitas pessoas deixam de comer manga e depois beber leite porque acreditam ser uma mistura fatal.

Tendência da confirmação — Quase 100% dos estudos patrocinados pela indústria do fumo a fim de estudar os efeitos nocivos nas pessoas de seus produtos tendem a amenizar os danos ou desacreditar algumas pesquisas. Tirando o fato óbvio deles pagarem o salário dos cientistas, existe a tendência de procurar ou interpretar as informações de uma maneira tal que confirme os pré-conceitos de alguém. É o grande bicho papão da ciência que a própria ciência busca ignorar.

Déformation professionnelle — É quando as pessoas passam a ver as coisas de acordo com suua profissão, excluindo qualquer outro ponto de vista. É muito comum acontecer isto. Sabe aquele cara que trabalha o dia todo e quando sai para se divertir só fala do trabalho? Minha convivência com estudantes da área de Exatas me levou a ter contato direto com isso: Quem faz Física acha que o mundo todo é objetivo da Física a fazendo uma espécie de rainha da ciência, já que ela estuda os átomos e, por Newton!, tudo é feito de átomos. O pessoal da química já gosta de lembrar que esses átomos estão em constantes transformações e processos e portanto, a Química é quem seria coroada rainha. Mas os matemáticos gostam de lembrar que tanto físicos como químicos descrevem tudo com matemática, que é a propósito, a rainha da ciência.

Tendência da Informação —  Procuramos informações a respeito de algo mesmo que o conhecimento da mesma não afete a ação.

Tendência da Omissão — A tendência a julgar ações danosas como piores, ou menos morais, que omissões igualmente danosas. Como você se sente a respeito desses dois cenários: 1) Eu enveneno uma pequena garotinha lhe dando uma bala envenada ou 2) eu vejo uma criança colocando na boca algo que eu sei ser mortal mas me omito por qualquer motivo. Qual é pior?

Tendência do Status quo —  É a tendência que temos de gostar mais de coisas ou pessoas que permanecem o mesmo.

Tendência do Consumo — Essa é o que move a publicidade: As pessoas tendem a gostar, e logo consumir, produtos que elas conheçam.

Tendência do Estereótipo — É a tendência cognitiva de julgar possuir conhecimento sobre um indivíduo sabendo o grupo social, filiação partidária, etc do mesmo. Afinal mulheres dirigem mal.

Ilusão da transparência — Tendemos a subestimar a capacidade dos outros em nos conhecer e em nossa capacidade em conhecer os outros. Quantos corações essa aqui não quebrou?

Tendência da homogeneidade grupal — Individuos  vêem membros de seu próprio gupo como sendo relativamente mais variados que membros de outros grupos. É por isso que estranhamente esteriótipos sempre funcionam com os outros e nunca com nós mesmos. Afinal, todos os homens dirigem muito bem.

Este foi um pequeno Top 10. Eu nem sequer arranhei a superfície.

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7 comentários para “Tendências Cognitivas ou Enganado Por Si Mesmo”

  1. Evandro disse:

    Olá! Mesmo sendo tendências cognitivas inerentes não há como racionalizar e inibir certos comportamentos ou tendências ao comportamento em questão? Não sei, mas penso que muitas vezes já me peguei tendo uma certa tendência ao pensar sobre o assunto, só que parando para pensar acho que é possível pelo menos minimizar essa “força”. O que acha? Ao ver uma pessoa obesa não posso automaticamente pensar que o cara é um preguiçoso… Eu adoro blogs, mas não posso fazer desse meu único assunto com meus conhecidos! Será que quando as pessoas deixam essas tendências tomar conta não é porque na realidade estão sendo egoístas e mesmo radicais, como o que ocorre frequentemente com religiôes? Aliás, ótimo esse tema, gostei muito! Abraços

  2. Obrigado por comentar Evandro.

    Os questionamentosque você levantou são válidos e importantes. Não os abordei por pura preguiça. Aliás, inicialmente a lista seria bem maior.

    Acontece que muitas pessoas estão no “piloto automático” e simplesmente se ditam pelas tendências cognitivas. Mas há algum mal nisso? Não sei.

    Mas toda questão e válida e importante pois se trata de nossa natureza, de quem nós somos.

  3. Huuummm… Ótimo post…
    Ainda não sei o que dizer.
    Estou lendo um livro chamado de “Estrutura das Revoluções Científicas”, onde ele faz uma distinção entre ciência normal e ciência revolucionária.
    As limitações, as regras, os paradigmas aos quais a ciência está limitada fazem com que ela avance no seu conhecimento, mas quando se descobre algo que não se encaixa no paradigma, o paradigma é que tem que mudar pra se encaixar no novo dado empírico.

    Quem sabe isso não tem algo a ver com o assunto?

  4. André Cabrera disse:

    Excelente post, muito bom Ibrahim, não sabia dessas tendências cognitivas e é realmente impressionante, concordo com o Evandro, acho que de vez em quando é possível controlá-las, mas afinal, quem sabe?

  5. Santaum disse:

    Caro Rev. Ibrahim,

    Tava lendo o Déformation professionnelle e pensando: como isso é comum cara! Em empresas então, quando o pessoal se reúne em um buteco… Geralmente, antes de todos beberem bastante, o assunto geralmente é relacionado ao trabalho. E o efeito do rebanho então… Mais comum ainda.

    Agora, pensando bem, quem está no “piloto automático” pouco se importa com isso, até porque não pensaram no assunto. E intuitivamente parece que estão felizes. Mas será que estão felizes mesmo? Quem foge do “piloto automático” pode questionar isso. Ou até mesmo quem está nesta transição. E ficam na dúvida. Qual é a melhor situação?

    Texto muito interessante mesmo. Muito bom. O assunto mais ainda.

    Grande abraço.

  6. Rafael disse:

    Muito interessante esse assunto, nos faz parar pra pensar pois mesmo quando não queremos, somos “seduzidos” por essas tendências que nos traçam um caminho padrão, ou até mesmo diferente do que nós queríamos.
    Como disse o Evandro, penso também que podemos minimizar esses efeitos tendênciosos simplesmente com o auto-controle da nossa mente, que nos planta questões e problemas que talvez nem cheguemos a resolver.
    Ótimo post cara, quando aparecem posts desse nível, mesmo sendo grandes e saber que lendo e comentando neles aqueles benditos feeds vão se acumular, eu sei que uma boa discussão, ainda mais com pessoas como você são muito boas pra exercitar essa nossa mente.
    Um abraço cara.

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