Tipos de Homens por H.L. Mencken, parte 1

H.L. Mencken é o tipo de jornalista que já não se faz mais, é uma pena para todos nós. Ele é o tipo de cara que adoraria ser quando crescer mas parece que vou para nos meus 1,67, o que é uma pena para mim. Tudo o que homem escrevia incomodava, era o tipo de pessoa que uns amavam odiar e outros odiavam amar. Seu maior inimigo sempre foi o protestantismo e deixou um legado de frases cortantes e venenosas que deveriam estar registradas no FBI como armas perigosas. Em seu Livro dos Insultos versou sobre os vários tipos de homens acompanhando o ano em que foram publicados. Eis aqui a primeira parte:

O ROMÿNTICO
Há uma variedade enorme de homens cujo olho inevitavelmente exagera o que vê, cujo ouvido ouve mais do que a orquestra toca e cuja imaginação duplica ou triplica as informações captadas por seus cinco sentidos. ÿ o entusiasta, o crédulo,o romântico. ÿ o tipo do sujeito que, se fosse um bacteriologista, diria que uma mísera pulga é do tamanho de um cachorro São Bernardo, tão bela quanto a catedral de Beauvais e tão respeitável quanto um professor de Yale. (1918)

O CÿTICO
Nenhum homem acredita piamente em nenhum outro homem. Pode-se acreditar piamente numa idéia, mas não em um homem. No mais alto grau de confiança que ele pode despertar, haverá sempre o aroma da dúvida ? uma sensação meio instintiva e meio lógica de que,l no fim das contas, o vigarista deve ter um ás escondido na manga. Esta dúvida, como parece óbvio, é sempre mais do que justificada, porque ainda não nasceu o homem merecedor de confiança ilimitada ? sua traição, no máximo, espera apenas por uma tentação suficiente. O problema do mundo não é o de que os homens sejam muito suspeitos neste sentido, mas o de que tendem a ser confiantes demais ? e de que ainda confiam demais em outros homens, mesmo depois de amargas experiências. Acredito que as mulheres sejam sabiamente menos sentimentais, tanto nisto como em outras coisas.Nenhuma mulher casada põe a mão no fogo por seu marido, nem age com se confiasse nele. Sua principal certeza assemelha-se ? de um batedor de carteiras: a de que o guarda que o flagrou poderá ser subornado. (1919)

O CRÿDULO
A fé pode ser definida em resumo como uma crença ilógica na ocorrência do improvável. Ela contém um saber patológico; extrapola o processo intelectual normal e atravessa o viscoso domínio da metafísica transcedental. O homem de fé é aquele que simplesmente perdeu (ou nunca teve) a capacidade para um pensamento claro e realista. Não que ele seja uma mula; é, na realidade, um doente. Pior ainda, é incurável, porque o desapontamento, sendo essencialmente um fenômeno objetivo, não consegue afetar sua enfermidade subjetiva. Sua fé se apodera da virulência de uma infecção crônica. O que ele diz, em suma, é: ?Vamos confiar em Deus, Aquele que sempre nos tapeou no passado?. (1919)

O OPERÁRIO
Todas as teorias democráticas, sejam burguesas ou socialistas, levam necessariamente em seu recheio algum conceito de dignidade do trabalho. Se os despossuídos fossem privados desta ilusão de que seus sofrimentos na linha de montagem são, de alguma forma, louváveis e agradáveis a Deus, só lhes restaria em seu ego uma dor de barriga. Não obstante, uma ilusão é uma ilusão, e esta é das piores. Ela é fruto da confusão entre um artista que se orgulha do seu trabalha e a docilidade canina e penosa do operário em sua máquina. A diferença é importante e enorme. Mesmo sem qualquer remuneração, o artista continuará a trabalhar do mesmo jeito; sua verdadeira recompensa, de fato, é quase sempre tão mísera que ele chega a passar fome. Mas suponha que o operário de uma fábrica de tecidos não ganhe nada por seu trabalho: continuaria trabalhando do mesmo jeito? Pudesse imagina-lo submetendo-se voluntariamente a uma compulsão irresistível de expressar sua alma em mais 200 pares de calcinhas femininas? (1919)

O MÿDICO
A medicina preventiva é a corrupção da medicina pela moralidade. ÿ impossível encontrar um médico que não avacalhe a sua teoria da saúde com a teoria da virtude. Toda a medicina, de fato, culmina numa exortação ética. Isto resulta num conflito diametral com a idéia da medicina em si. O verdadeiro objetivo da medicina não é tornar o homem virtuoso; é o de protegê-lo e salvá-lo das conseqüências de seus vícios. O médico não prega o arrependimento; ele oferece a absolvição. (1919)

O CIENTISTA
O valor dado pelo mundo sobre os motivos que levam os cientistas a fazer isto ou aquilo é freqüentemente e grosseiramente injusto e inexato. Considere, por exemplo, dois motivos: uma mera curiosidade insaciável e o desejo de fazer o bem. O último é considerado muito mais importante que o primeiro e, no entanto, é o primeiro que aciona um dos homens mais úteis que a raça humana produziu até hoje: o pesquisador científico O que realmente o desperta não é a idéia de prestar um serviço de araque, mas uma sede ilimitada e quase patológica de penetrar o desconhecido, de descobrir o segredo, de chegar aonde nunca se tinha chegado. Seu protótipo não é o de benfeitor que liberta seus escravos, nem o do bom samaritano que levanta os caídos, mas o de um sabujo farejando furiosamente em busca de infinitos buracos de ratos. (1919)

O EMPRESÁRIO
Existe um sólido instinto que põe o empresário abaixo de todos os outros profissionais e joga-lhe ? s costas um fardo de inferioridade social do qual não consegue se livrar, mesmo na América. O próprio empresário reconhece esta suposição de sua inferioridade, mesmo quando protesta contra ela. ÿ o único homem, além do verdugo e do gari, que vive se desculpando por sua ocupação,para fazer parecer, quando atinge o objetivo de seu trabalho ? i. e., ter ganho uma montanha de dinheiro –, que dinheiro não era o objetivo de seu trabalho. (1921)

O REI
Talvez a qualidade mais valiosa que qualquer homem possa ter neste mundo seja um ar naturalmente superior, um talento para empinar o nariz com desprezo.A generalidade dos homens se impressiona e aceita isto como prova de um mérito legítimo. Portanto, basta desdenha-los para ganhar o seu respeito. A estupidez e a covardia congênitas dos homens fazem com que eles se curvem a qualquer líder que apareça, e o sinal de liderança que reconhecem mais prontamente é aquele que se mostra externamente. Este é a verdadeira explicação para a sobrevivência da monarquia, que sempre ressuscita depois de suas mortes sucessivas. (1921)

O METAFÍSICO
Um metafísico é alguém que, quando você lhe diz que dois vezes dois são quatro, ele quer saber o que você entende por vezes, o que significa dois, e o que quer dizer são e por que isso dá quatro. Por fazerem tais perguntas, os metafísicos desfrutam um luxo oriental nas universidades e são respeitados como homens educados e inteligentes. (Inédita)

Continua…

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5 comentários para “Tipos de Homens por H.L. Mencken, parte 1”

  1. Ed disse:

    Mencken é (era) daqueles jornalistas da estirpe de Paulo Francis e Nelson Rodrigues – realmente não se faz mais. Shame, shame.

  2. Moziel T.Monk disse:

    Mencken era inpagável, e como disse o colega, parece que não se faz mais desse tipo. Aí temos que aguentar a polêmica barata dos Mainardis e Michael Moores da vida.
    Parabéns pelo blog. Entrou em meus favoritos

  3. Beatriz disse:

    mencken era um dos jornalista nas fomoso do brasil…. entre a ciencias

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