Tipos de Homens por H.L. Mencken, parte 2

Continuando a lista de homens começada ontem:

O HOMEM MÿDIO
Costuma-se jogar na cara dos marxistas, com a sua concepção materialista da História, que eles subestimam certas qualidades espirituais do homem que não dependem de quanto ele ganhe ou deixe de ganhar. O argumento é o de que essas qualidades colorem as aspirações e atividades do homem civilizado tanto quanto são coloridas pela sua condição material, tornando assim impossível simplesmente reduzir o homem a uma máquina econômica. Como exemplos, os antimarxistas citam o patriotismo, a piedade, o senso estético e a vontade de conhecer Deus. Infelizmente, os exemplos são mal escolhidos. Milhões de homens não ligam para o patriotismo, a piedade ou o senso estético, não têm o menor interesse ativo em conhecer Deus. Por que os antimarxistas não citam uma qualidade espiritual que seja verdadeiramente universal? Pois aqui vai uma. Refiro-me ? covardia. De uma forma ou de outra, ela é visível em todo ser humano; serve também para separa o homem de todos os outros animais superiores. A covardia, acredito, está na base de todo o sistema de castas e na formação de todas as sociedades organizadas,inclusiva as mais democráticas. Para escapar de ir ? guerra ele próprio, o camponês deva de mão beijada certos privilégios aos guerreiros ? e destes privilégios brotou toda a estrutura da civilização. Vamos recuar mais ainda no tempo. Foi a propriedade que levantou a lebre de que uns poucos homens relativamente corajosos foram capazes de acumular mais posses do que hordas de covardes ? e, como se fosse pouco, de mantê-las depois de acumuladas. (1922)

O DONO DA VERDADE
O homem que se gaba de só dizer a verdade é simplesmente um homem sem nenhum respeito por ela. A verdade não é uma cosia que rola por aí, como dinheiro trocado; é algo para ser acalentada, acumulada e desembolsada apenas quando absolutamente necessário. O menor átomo da verdade representa a amarga labuta e agonia de algum homem; para cada pilha dela, há o túmulo de um bravo dono da verdade sobre algumas cinzas solitárias e uma alma fritando no Inferno. (1922)

O PARENTE
A normal antipatia do homem por seus parentes, principalmente pelos de segundo grau, é explicada pelos psicólogos de várias maneiras torturantes e improváveis. A real explicação me parece muito mais simples. Reside no simples fato de que todo homem vê em seus parentes (especialmente em seus primos) uma série de grotescas caricaturas de si próprio. Eles exigem as qualidades dele deformadas para o máximo ou para o mínimo; dão-lhe a impressão de que talvez seja assim que ele próprio se mostra ao mundo, e isto é inquietante ? e por isso ferem o seu amour propre e lhe provocam intenso desconforto. (1919)

O CONTRAPARENTE
O homem detesta os parentes de sua mulher pela mesma razão de que não gosta dos seus próprios, ou seja, porque eles lhe parecem grotescas caricaturas daquela por quem ele tem respeito e afeição, ou seja, sua mulher. De todos eles, a sofra é obviamente a mais repugnante, porque ela não apenas macaqueia sua mulher, mas também porque antecipa o que sua mulher provavelmente se tornará. Aquela visão,naturalmente, lhe provoca náuseas. ÿs vezes, a coisa é mais sutil. Digamos, por exemplo, que sua própria mulher lhe pareça uma caricatura de uma irmã mais jovem e bonita. Neste caso, estando atado ? sua mulher, ele pode vir a detestar a irmã ? como sempre se detesta uma pessoa que simboliza o fracasso e a escravidão de alguém. (1920)

O AMIGO
Um homem de mente ativa e elástica desgasta suas amizades, assim como certamente desgasta seus casos amorosos, suas tendências políticas e sua epistemologia. Elas se tornam puídas, esfrangalhadas, artificiais, irritantes e deprimentes. Transformam-se de realidades vivas em nulidades moribundas, e entram em sinistra oposição ? liberdade, ao auto-respeito e ? verdade. ÿ tão repelente conserva-las, depois que se tornam ocas e podem ser sopradas como uma mosca, quanto manter uma paixão depois que esta paixão já se tornou um cadáver. Todo homem prudente, ao lembrar-se de que a vida é curta, deveria dispensar uma hora ou duas, de vez em quando, para um exame crítico de suas amizades. Deve pesá-las, repensá-las, testar se ainda contêm algum metal. Algumas poderão sobreviver, talvez com mudanças radicais em seus termos. Mas a maioria será varrida de seus minutos e ele tentará esquecê-las, assim como tenta esquecer seus frios e pegajosos amores do ano retrasado. (1919)

O FILÿSOFO
Não há registro na história humana de um filósofo feliz: só existem nos contos da Carochinha. Na vida real, muito cometeram suicídio; outros mandaram seus filhos por afora e surraram suas mulheres. Não admira. Se você quiser descobrir como um filósofo se sente quando se empenha na prática de sua profissão, dê um pulo ao zoológico mais próximo e observe um chimpanzé na sua chatíssima e infindável tarefa de catar pulgas. Ambos ?o filósofo e o chimpanzé ? sofrem como o diabo,mas nenhum dos dois consegue ganhar. (1927)

O ALTRUÍSTA
Uma grande parte do altruísmo, mesmo quando perfeitamente honesto, baseasse no fato de que é desconfortável ver gente infeliz ao nosso redor. Isto se aplica especialmente ? vida familiar. Um homem faz sacrifícios para satisfazer os caprichos de sua mulher, não porque adore desistir da idéia de comprar o que ele realmente quer para ele, mas porque seria pior ainda vê-la d cara amarrada na mesa do jantar. (1920)

O ICONOCLASTA
O iconoclasta se afirma quando prova com suas blasfêmias que este ou aquele ídolo não passa de uma besta ? e deixa cheio de dúvidas pelo menos um dos que o ouvem. A liberação da mente humana avançou muito quando alguns gaiatos depositaram gatos mortos em santuários e depois saíram pelas ruas espelhando que aquele deus no santuário era uma fraude ? provando a todo mundo que a dúvida era uma coisa legítima. Um relincho vale por 10 mil silogismos. (1924)

O CHEFE DE FAMÍLIA
Vejamos o caso do escritor medíocre que defende o seu trabalho de escrever seriados para revistas ou roteiros de cinema, afirmando que tem uma mulher para sustentar. Tendo conhecido algumas destas mulheres, não vejo por que se submeteriam a tais sacrifícios… Quanto aos subprodutos biológicos desta fidelidade ? os filhos –, minha avaliação deles seria ainda mais baixa. Mostre-me cem cabeças de crianças comuns que valham um único O Coração das Trevas, e eu mudarei de idéia. Quanto a Lord Jim, eu não o trocaria por todos aquele pirralhos nascidos em Trenton, New Jersey, desde a guerra contra a Espanha em 1898. (1924)

O SOLTEIRO
Ao redor de qualquer solteiro com mais de 35 anos, florescem muitas lendas a respeito das causas de seu celibato. Alguns sussurram que, sendo uma nulidade,sua solteirice estaria prestando um serviço aos não-nascidos. Outros fofocam que, aos 26 anos, ele teria se apaixonado perdidamente por uma linda mulher que o trocou por um corretor de imóveis, e isto partiu-lhe o coração para sempre. Tais histórias são, quase sempre, besteiras. A razão pela qual o solteiro mediano de 35 anos prefere continuar solteiro é muito simples. ÿ a de que nenhuma mulher normalmente bonita e inteligente viu qualquer motivo para se casar com ele. (1922)

O HOMEM PERFEITO
O homem, na melhor das hipóteses, continua uma espécie de animal cambeta,incapaz de tornar-se redondo e perfeito como, digamos, ma barata é perfeita. Se ele demonstra uma qualidade merecedora de aplausos, ninguém sabe de outra que ele possua. Dê-lhe uma cabeça, e lhe faltará um coração. Dê-lhe um coração com capacidade para dez litros, e sua cabeça mal servirá para acomodar uma dose. O artista, em 90% dos casos, é uma mosca morta, dado ? corrupção de virgens,assim chamadas. O patriota é um fanático e, muito freqüentemente, um farsante e um covarde. O homem de grande bravura física, no máximo, empata intelectualmente com um pastor protestante. O gigante intelectual sofre do fígado e não consegue saltar sobre uma agulha. Em todos os meus anos de pesquisa por este mundo, da Golden Gate, no oeste, até Vístula, no elste, e das ilhas Orkney, no norte, até o Spanish Main, no sul, nunca conheci um homem completamente honrado que merecesse a honra de ser chamado deste nome. (1923)

O ETERNO MACHO
Tente ouvir dois ou três rapazes conversando numa rodinha; seus bate-papos serão quase inteiramente compostos de bazófias ? sobre suas façanhas no esporte,seu sucesso na escola, a riqueza e o vigor animal de seus pais, a elegância de suas casas. Acima de todos os quadrúpedes, o homem é o mais frívolo e idiota. Um belo papagaio não passa de um mero papagaio em comparação a ele. O homem não consegue se imaginar fora do centro das situações. Nunca abre a boca a não ser para falar de si mesmo. Nunca realiza a mais trivial das atividades sem pavoneá-la e aumentar-lhe a importância. Por mais banal que seja a situação em que se encontre, tenta transforma-la na mais inédita e gloriosa possível. Se, num daqueles sórdidos e obscuros combates contra outros imbecis, ele, por acaso, leva a melhor, estufa o peito de tal jeito que parece a ponto de explodir. Mas se, ao invés de levar a melhor, é obrigado a beijar a lona por um golpe desferido com luvas de pelica,extrai disso quase o mesmo êxtase por sua derrota e ignomínia. Então temos, de um lado, o herói; do outro, o mártir Ambos estão sujeitos a grotescos e pueris.Ambos são de araque. (1918)

O ESCRAVO
Não me diga o que ele vê de tão divertido a respeito de Deus, ou qual artista de circo ele segue em política, ou como agüenta submeter-se ? quela mulher. Diga-me apenas como ele ganha a vida. Um homem que consegue casa e comida de maneira ignominiosa será, inevitavelmente, um homem ignominioso. (1922)

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