You Say You Want a Revolution

ao som do álbum The Beatles

Entre nós, homens do cotidiano, meros mortais fadados a viver a rotina exata de nossos pais, existem homens para os quais a vida trata-se de transformar nosso planeta que só é azul para quem vê de fora no próprio Éden, nos Campos Elísios, na Cocanha. Assistidos por uma ideologia e coragem, esses guerreiros da justiça e da mudança, da revolução, marcham em direção às Anacrônicas & Moralistas instituições que controlam nossa vida, com as armas em riste, prontos para destruir aquilo que nos oprime, para libertar-nos da tendência existencialista que esse mundo provoca, para salvar-nos, enfim!

Certo, você me pegou. É mentira.

Não existem salvadores, homens de coragem empunhando qualquer tipo de arma, não existem homens-bomba infiltrados nessas instituições velhacas prontos para implodí-las. Schopenhauer sustentava a idéia de que esse mundo não é lá grande coisa pelo simples fato de que queremos a vida eterna – mas num paraíso! Guiando os menos românticos e niilistas, porém, há um velho ensinamento: podemos não mudar o mundo, mas vamos nos divertir tentando.

Revoluções Silenciosas

É desconhecido de grande parte de nós – principalmente pelo fato de que, devido à subversão que é característica desses atos, os meios de comunicação não divulgam – que muitos atos criminosos que podem ser chamados de arte acontecem por aí. Não falo de pixações de muros ou coisas análogas: falo de obras-de-arte cuja matéria-prima é o “mundo lá fora”, a cidade. Algumas pessoas chamam esse tipo de ação de intervenção urbana; o objetivo: chocar; a tese: o choque, causado por situações totalmente diversas do cotidiano ou absurdamente amorais e loucas, é a ferramenta da mudança. Mostrando o absurdo daquilo que fazemos todo o dia, repetidamente, e demonstrando que é possível viver fora desse padrão, todo o paradigma de vida imposto é quebrado, e a nova visão prevalece, encantando as pessoas.

A idéia principal é reinventar o ambiente urbano – como, por exemplo, quando o coletivo Don Quijote adesivou as placas de trânsito em São Paulo. Outras vezes a manifestação é mais crítica, ácida. Quando sentimentos repulsa por algo, é porque ele nos incomoda; porém, esse incômodo pode ser, muito bem, problema nosso, e não erro de fora. Racistas sentem incômodo, mas isso é um problemas dele, e não do alvo de seu racismo.

Fora essa reinvenção das cidades, há mais coisa em jogo. O atual sistema é alienante, e isso é do conhecimento geral entre as pessoas com um pouco de instrução; aquilo que nos cerca está, a todo o momento, imperativamente subjulgando nossa individualidade em função de um “bem comum” – que nós mantenhamos o mercado consumidor ativo, por exemplo.

Enquanto passamos os olhos pela vida como sempre, entre a melancolia e o desespero, existem pessoas preparando artefatos, imagens e situações absurdas, que nos libertariam quando nos deparássemos com elas. E a mídia, sendo imediatista, caso divulgue esses atos, irá fazê-lo tachando-os de vandalismo, já que um olhar demorado e ponderado sobre isso é não só complicado de fazer como de transmitir. Porém, as poucos, mais e mais pessoas vão tomando contato com as idéias por trás daquilo que é subversivo, criminoso, e acabam por reproduzir as mesmas ações em suas cidades, dedicando-se a viver e tomar de volta o espaço que não deveria nem ser público, nem privado – apenas ser, e servir a todos.

A revolução é, portanto, muito mais subjetiva que objetiva. Mudar a si mesmo e ao espaço à sua volta, segundo grupos como o citado acima, é revolucionar com resultados não só imediatos como práticos, e que acabam por influenciar muita gente.

“O mindfuck nosso de cada dia nos dai hoje” ou “We’d all love to change your head”

O mais interessante nisso tudo é que esses grupos – comumente chamados de “coletivos” – estão a todo o momento trocando idéias, informações, fotos, planejando mais ações. São movidos não só pela vontade de revolucionar silenciosamente, mas também pela vontade de se divertir. Essa troca de informações acontece num fluxo constante, e permite que, cada vez mais, novas ações sejam praticadas.

Na Espanha surgiu a idéia do yomango; yomango, em espanhol, é uma palavra composta por “yo”, “eu”, e “mango”, uma gíria para “roubar”. Com a tese de que as empresas sintetizam nossos sonhos em produtos, esse grupo começou apenas a “tomar de volta” os desejos roubados – sem pagar nada por isso, já que as empresas não pagaram pelos desejos que tomaram. Porém, somente é permitido se roubar de grandes coorporações; roubar de pequenos comerciantes é considerado errado, já que este tem tantas condições financeiras quanto quem rouba, e é um alvo muito mais fácil que megastores. A idéia, por mais absurda que possa parecer, não pode ser descartada: ela se espalhou pela Europa, chegou ao Brasil, e é praticada pelo mundo todo. Como invalidar um movimento que é assimilado e praticado por muitos? Ora, uma reflexão mais aprofundada deixa bem claro que há uma motivação, uma descrença no mundo, uma vontade de mudar – e já.

Leiam sobre Provos. Leiam sobre o Manual Prático de Delinqüência Juvenil. Procurem saber o que acontece na sua cidade, no seu estado; façam sua parte na revolução do cotidiano, ou pelos menos não se alienem a isso; podem acabar sendo engolidos pela vida sem graça e rotineira. Afinal, não acham que Schopenhauer estava certo quando disse que esse é um mundo onde a vida eterna seria uma condenação? Irônico ou mentiroso é aquele que responder “não”!

uma boa desculpa nossa
Creative Commons License photo credit: julianadiehl

rev. Beraldo escreve na Cabala Cavalo-de-Pau de Éris & Tzara, e foi recentemente convidado a escrever para o 1001 Gatos de Schrödinger. Esta é a primeira postagem de muitas; espero que tenham gostado. :)

Tags: , , ,

7 comentários para “You Say You Want a Revolution”

  1. Ué Beraldo, já o kickoff por aqui? Grande artigo =D

    Pelo pouco que eu li do Yomango achei muito interessante a proposta. Um fato que sintetiza bem o porquê de este ser um movimento “subversivo” eficaz é que todo tipo de coisa o capitalismo nojentamente “absorve” – a Renner vendendo bandanas de anarquista, por exemplo. Agora, como é que se espera que uma megastore venda produtos de Yomango? A frase que eu li sobre isso era algo como “Encontramos a única coisa que a moda não consegue absorver”.

  2. rev. Beraldo disse:

    Resolvi começar a escrever por aqui já. Isso que você falou sobre o Yomango é muito legal: eles têm uma marca e até um estilo de vida, nos moldes exatos que as empresas fazem com seus produtos. É, realmente, algo fantástico.

  3. Crownedvic disse:

    Oi, gostei muito do seu texto. Curti muito a forma como mostrou que a vida pode ser divertida, inclusive graças aos próprios infortúnios que surgem. Esse tal Yomango parece ser interessante, nunca ouvi falar antes.

    Parece que, como a contracultura e movimentos “contra o sistema” sempre acabaram se tornando mercadoria no final, como roupas de hippies-de-boutique e até mesmo a Renner vendendo bandanas de anarquistas, como disse Peterson, hoje o Yomango mostra alternativas para lidar com isso. Vou pesquisar sobre isso, achei interessante.

  4. rev. Beraldo disse:

    Primeiro, obrigado! =)

    Segundo, eu vejo essa coisa de o underground virar mainstream com uma visão meio assim: estava conversando com o Ibrahim hoje, e ele disse que o underground é o “meio de testes” para o mainstream. Coisas são absorvidas, outras descartadas. Interessante pensar nisso, pois, veja: alguns movimentos podem ser aproveitados e assimilados, fazendo com que pessoas acreditem serem subversivas, quando não são. É uma jogada interessante do sistema, e eu posso comparar com o sufrágio universal: você dá um poder virtual para a população, que acredita que escolhe seus representantes, enquanto a mesma dinastia de sempre se mantém no poder e, o mais engraçado, sustentados pelos votos da população. Isso funciona, pois quem tem dinheiro mantém os partidos que os interessam e, por meio da mídia, elegem as pessoas certas para eles.

    O segundo ponto é que… Muitas vezes, o assunto subversivo nem é deturpado pelas empresas que os vendem. Há muito livro bom vendido por aí, para falar de coisas mais sérias do que bandanas; o que carece nas pessoas, tanto as que compram livros e bandanas anarquistas, é conhecimento, lucidez para entender o que compraram. Talvez quem compre livros tenha mais lucidez, porém tem mais comodidade (escrevi sobre isso em meu blog hoje).

    Acho que é isso. Boa pesquisa sobre essas coisas, fico feliz que influenciei alguém para o “dark side” hahahahaa

  5. Crownedvic disse:

    Cara, hoje vemos por exemplo propagandas de companhias telefônicas tratando de temas como autonomia indivivual, atitude jovem, tudo cheio de slogans como “o mundo é de quem faz” e essas coisas. Realmente, trata-se de uma “liberdade” virtual, comprada. As massas compram sua identidade, pois não sabem criar nada, apenas consumir e reproduzir.

    Concordo com o que você disse. Muitas vezes, não é só porque um “produto subversivo” está a venda numa estante que ele foi deturpado. Senão, tudo teria que ser gratuito quando o assunto fosse bons questionamentos e ataques à ordem estabelecida. Não poderíamos comprar nada da Contracultura, nenhum disco de alguma honesta banda punk, e etc. Mas, em meio à boa mercadoria subversiva, está a sem conteúdo. E nisso tudo se mistura – cabe, então, que o consumidor tenha a capacidade de diferenciar uma coisa de outra.

    Quanto ao dark side… “All light gone, all night long.” (The Crown)

  6. rev. Beraldo disse:

    Como tudo, entre os “bons produtos”, existem aqueles que são vazios, que apenas imitam a fórmula. Não defendo, em absoluto, a forma como nós interagimos com a “mercadoria” – no fundo não defendo nem mesmo qualquer tipo de mercado, mas, enfim, para efeitos imediatos, acredito que o maior problema não é o mercado, mas nossa ignorância, que é o que o sustenta (e nossa ignorância é assim dimensionada para que ele se sustente).

  7. TamiMartins disse:

    E por mais que hajam esses individuos que vestidos de causas conturbam nosso cotidiano ainda corre pelas veias de nossa pura inocência o ser sociável (para não explicitar domado) que grita: Eis os criminosos!Resguardando-se diante de leis que não acredita, entende e que nem mesmo o defende, para julgar aqueles que senão tão certos porém não mais errados que o juís próprio. Eis que os “criminosos” estão estuprando o mundo que grita-se ser de todos e portanto a todos pertence, senão pelo direito mas pela má-interpretação intencional desses valores que desvalorizam o indivíduo e generalizam os gostos. Encorajando não mais apenas os subversivos, mas também cutucando aqueles que julgam-se de intelecto exacerbado e possuem movimentos lerdos, que irradiam longas conversas do tipo “o que falta é investimento na educação…” mais preocupados com a imagem que aparentam do que com a imagem que narram. Que pintam um mundo podre para brilharem. Pois para eles o mundo não tem concerto, mesmo que eles conheçam todas as soluções. Estes constituem peças quebradas. Pois na minha opinião uma peça que não faz nada além de ranger deveria ser descartada. Sucata. Pingente conceitual. Qualquer lixo que o representasse melhor do que suas palavras. Eu já fui uma peça que range. E hoje tento ser uma peça útil. Eu giro ao contrário do sentido que me foi designado. O que leva a engrenagens próximas a mim a fazerem o mesmo e assim por diante. Só não se acredita no mundo quando não se acredita em sim mesmo.Se quer fazer do mundo um lugar melhor seja primeiro uma pessoa melhor.Melhor do que quem? você mesmo. Disturbe seus conceitos. Não leve em consideração se isso ou aquilo é poético, é rebelde, é errado, é bonito. Você só vai estar seguindo no monótono caminho de engrenagem padrão. Respire. Não seja contra a alienação porque isso te faz esperto. Você será ainda um alienado abraçando os que te repuldiam. Seja contra a alienação porque ela te adoece. Destrinche o cotidiano e veja se ele o agrada. Sua vida não lhe incomoda? Pois caia fora, você me incomoda. Se você adota para si o direito de ser contraditório. De lutar contra o sistema enquanto ele o satisfaz. Então você foi pego. E até que seus valores morram, senão em você, então na sociedade (por conta da vitória da revolução subversiva ou pela auto-destruição do consumismo em vista as consequências ecológicas de toda essa merda) até lá… você é um refém. Uma maldita engrenagem brilhante que eu vou pensar duas vezes antes de resgatar em meio ao caos. Faça suas refeições de McLancheFeliz, e vista suas roupas de prisioneiro\carcereiro da GUCCI enquanto tranca esse mediocre individuo que é você e que o é, atrás de grandes vitrines translúcidas tão bem decoradas pro Natal, seja lá o que ele signifique para países sem neve como o seu. (:Tami Martins

Deixe um comentário